domingo, 11 de agosto de 2013

A TODOS OS PAIS AMIGOS OU NÃO.



A TODOS OS PAIS AMIGOS OU NÃO.

Gostaria de escrever a história de cada um. Impossível. Impossível também colocar a foto de todos. Sei o que é ser pai Escoteiro, viver o escotismo e dar aos filhos o amor que eles esperam de nós. Não é fácil. Minha homenagem a todos que aqui no Facebook compartilham de minha amizade. Sinto-me honrado em ter tantos amigos pais. FELIZ DIA DOS PAIS CAROS PAIS ESCOTEIROS!

Ele era o meu pai

Não tivemos um relacionamento muito próximo. Talvez pela época, onde o respeito e a palavra senhor fazia parte do nosso vocabulário. Pequenos momentos talvez. Ele me contou diversos fatos de sua vida. Não muitos porque se fosse hoje eu queria saber muito mais. Não foi um pai diferente dos outros e nem tampouco excepcional. Mas para mim foi aquele que admirei e admiro até hoje. 

Quando pequeno, não sabia o que se passava não me preocupava com o dia, a semana, o ano. Ia à escola e depois era só brincar. Na minha casa morava eu, minhas duas irmãs, minha mãe. Achava que éramos uma família feliz apesar de pobre. De uma pequena cidade só lembro-me de uma casinha branca, próximo ao cemitério. Por dentro não me lembro de nada. De outra cidade, lembro-me da casa, de madeira, fundos para o rio e embaixo em um porão com piso de terra, alguns pobres aproveitavam a seca do rio para ali morarem. Quando chovia o rio invadia tudo. Também éramos muito pobres, pois em volta de uma pequena mesa, sentávamos em caixotes para as refeições.

Graças a Deus que nunca passamos fome. Dificuldades sim. Elas existiam e eu pequeno não tomava conhecimento. O café da manhã, o almoço e o jantar sempre existiram. Meu pai nesta época era Seleiro, aquele que fazia selas para cavalos e outros apetrechos afins.  Eu pequeno, 06 para 07 anos não ajudava a não ser aos sábados e domingo. Nestes dias ajudava a engraxar os sapatos de vários clientes do meu pai. Tornei-me um excelente engraxate. Lembro-me do Grupo Escolar, do colégio, mas não me lembro de meu pai em momento algum me chamando a atenção ou brigando comigo. Era calmo e ponderado. Nunca em tempo algum me encostou a mão e por muito poucas vezes falou mais alto.

Sei que as manas e ele com muito sacrifício compraram um terreno e construíram um barracão em um bairro na periferia da cidade. Nele tinha o meu quarto próprio. Eu gostava de morar ali. Apesar de não ter ainda água encanada da rua, havia uma cisterna com uma bomba manual. Todos que tomavam banho teriam que usar a bomba por mais de 100 vezes. Assim, mantínhamos a caixa cheia e o serviço feito por todos. Meu pai alugou um salão próximo ao centro. Ali montou uma oficina de rádio. Tinha estudado por correspondência e já era um perito no assunto. Achava que meu pai era muito inteligente. Tentei fazer o mesmo curso, mas não deu certo. Talvez porque não era bom aluno ou quem sabe não era o que queria fazer. Após as aulas ia trabalhar com ele e ver se aprendia alguma coisa na prática.

Ele me deixava ficar com a quantia dos serviços que realizava. Muito poucos por sinal, mas dava para ir ao um cinema, acampar e namorar. Nesta época já trocávamos idéias e ele com sua sapiência me mostrava algumas diretrizes da vida. Conversamos pouco. Foi ali que alguns fatos de sua vida me foram relatados, com parcimônia é claro. Uma de quando moramos em uma fazenda de um tio meu, eu ainda com três para quatro anos, (não me lembro de nada a não ser da casa, pois posteriormente passei algumas férias lá) e o que ele fazia nunca soube.

Uma vez comentou comigo sobre a revolução de 32 (constitucionalista). Ele jovem ainda se alistou. No inicio tudo era festa para ele e seu amigo um tal de Sebastião Barrigada. Andaram por aqui, por ali, até que foram levados de caminhão a uma pequena cidade já dentro do território paulista. No primeiro confronto, foi só correria. Os paulistas inventaram uma matraca que imitava perfeitamente o pipocar de uma metralhadora ponto 30. Quando começou o barulho foi um Deus nos acuda. Depois virou rotina, ninguém mais tinha medo, pois já sabiam o que era. Estavam em uma tarde em uma trincheira, deitados e o matraquear das metralhadoras pipocavam ali e lá. Seu amigo ficou em pé e começou a chingar os paulistas e rindo dizendo que com a mineirada eles não eram de nada. Meu pai gritou para o Bastião deitar. Ele não obedeceu. Achava que era mais uma piada dos paulistas. Em dado momento o Bastião deitou de vez. Meu pai disse para ele, você deita ou não deita? E olhando viu que ele tinha um grande buraco na testa e do outro lado pedaços de seu miolo jaziam por todo o lado. Foi de estarrecer ele disse.

Não contou mais de sua luta, da sua militância política da revolução enfim de muitas outras coisas que eu gostaria de saber.  Sabia que ele gostava do partido da UDN e odiava o PSD. Porque não sei. O tempo passou. Ele ficou doente, quase morreu. Minhas irmãs o levaram para a capital. Lá achavam que ele teria melhores chances. Depois ficamos sabendo que era diabete. Pouco conhecida na época. Muitos anos depois, morando na mesma cidade, aos domingos me dirigia a casa dele, passava lá o dia inteiro, mas conversávamos pouco. Acho que não havia assuntos, mas quanta coisa poderia ter sabido se tivesse perguntado.

Sua vida foi sem sobressaltos. Doente, andava aqui e ali fazendo pequenas caminhadas. O que sentia não perguntei. Devia ter perguntado. Ele nada dizia. Morreu em uma semana qualquer há muitos e muitos anos. Fui ao enterro e chorei. Pensava no meu pai e o quanto poderíamos ter conversado. Hoje, espírita que sou acho que ele não deve ter tido dificuldades para alcançar um lugar melhor para ficar. Senti e sinto falta do meu pai. Hoje com quatro filhos e muitos netos, me pergunto por que não ficamos mais próximos. Ele era assim e eu também. Ainda sou meio taciturno com os meus filhos. Herança? Não sei. Quero me aproximar e não consigo. O mundo é assim. O livre arbítrio nos faz escolher caminhos que nem sempre são aqueles que deviam ser escolhidos. Faz parte do nosso crescimento.


Um dia vou me encontrar com ele. As perguntas que não fiz a farei. Se as respostas forem a que espero ótimo se não forem paciência. Este era o meu pai. Um homem calado, bondoso, amigo que me deixou fazer o que queria. Nunca em tempo algum me fez qualquer admoestação. Que ele seja feliz onde quer que esteja e que na sua próxima encarnação encontre de novo a felicidade que merece.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O Chifre de Kudu.

Conversa ao pé do fogo.
O Chifre de Kudu.



             O Kudu (Tregelaphus strepsiceros) é uma espécie de antílope cujo habitat vai desde a África do Sul á Etiópia. Um touro Kudu pode chegar a uma altura de 1,5 metros e tem uma coloração que vai de um cinzento avermelhado até quase azul. As suas características de visão aguçada, bom sentido de audição, olfato apurado e grande velocidade fazem dele um animal difícil de capturar. Seguindo uma tradição que remonta há 90 anos, as patrulhas são chamadas a reunir com o toque tradicional do chifre de Kudu, durante os cursos da Insígnia de Madeira. Pode parecer estranho que o chifre de um antílope africano, do tipo usado pelos Matabeles como clarim de guerra no século XIX, seja usado para chamar Escuteiros e Chefes por esse mundo fora. Mas foi precisamente com um toque deste chifre que os primeiros Escoteiros foram acordados.

Quando reuniu os primeiros escoteiros em Brownsea, Baden-Powell lembrou-se do chifre de Kudu que tinha trazido das guerras contra os Matabeles, e usou-o para dar um toque de aventura e divertimento ao acampamento. De facto, foi durante o acampamento experimental de Brownsea, em Poole Harbour, no verão de 1907, que Baden-Powell colocou ao serviço do Escotismo, e pela primeira vez, o chifre de Kudu. William Hillcourt, um dos grandes pioneiros do Escotismo, o mesmo que escreveu o resumo da história de BP no final do «Escotismo para Rapazes», descreve assim a primeira alvorada em Brownsea:

"O dia começou ás 6h da manhã, quando BP acordou o acampamento com o som esquisito do longo chifre de Kudu em espiral - o clarim de guerra que tinha trazido da sua expedição à floresta de Somabula durante a Campanha Matabele de 1896".

John Thurman, grande nome do Escotismo britânico, conta como BP conheceu o chifre de Kudu:

"Como coronel em África, em 1896, Baden-Powell comandou uma coluna militar na Campanha Matabele. Foi num raid pelo rio Shangani abaixo que ele primeiro ouviu o som do chifre de Kudu. Ele andava confundido pela rapidez com que os alarmes eram espalhados entre os Matabeles, até que um dia se apercebeu que eles usavam o chifre de Kudu, o qual tinha uma grande potência sonora. Era usado um código. Assim que o inimigo era avistado, o alarme era tocado no Kudu, para todos os lados, e assim transmitido por muitas milhas em pouco tempo."

Depois da ilha de Brownsea, o chifre de Kudu voltou para a casa de BP onde permaneceu silenciosamente durante 12 anos, enquanto o movimento que ele anunciara se tornava moda e se espalhava pelo mundo fora. Então, em 1919, Baden-Powell entregou o chifre ao Parque de Gilwell para ser usado nos primeiros cursos para treino de Chefes. William Hillcourt comenta assim o início do uso do chifre de Kudu no Parque de Gilwell, na floresta de Epping, Inglaterra, a oito de Setembro de 1919:
"O primeiro acampamento para treino de chefes feito em Gilwell começou a oito de Setembro. Seguiu o padrão que BP tinha usado com os rapazes em Brownsea, 12 anos atrás. O sistema de patrulhas foi novamente posto á prova com 19 participantes divididos em patrulhas e vivendo uma vida em patrulha. A instrução tomou a mesma forma que em Brownsea. Cada dia um assunto novo era introduzido e aplicado em demonstrações, prática e jogos. O chifre de Kudu dos Matabeles que tinha sido usado para chamar os rapazes em Brownsea foi usado para todos os sinais."

              Dez anos mais tarde, aos 72 anos de idade, Baden-Powell levou consigo o chifre de Kudu para a abertura do 3º Jamboree Mundial, em Arrowe Park, Birkenhead, Inglaterra, a 28 de Julho de 1929. Foi constatado, pela experiência de Arrowe Park, que fazer soar o chifre de Kudu é um desafio. Os resultados, no entanto, foram tão impressionantes quanto se poderia desejar, segundo as palavras de William Hillcourt:

            "O dia da abertura do 3º Jamboree Mundial começou com uma forte chuvada que aumentou com o passar do dia; mas, à hora prevista... o tempo tornou-se «ameno». BP tinha trazido consigo para Arrowe Park o velho chifre de Kudu dos dias da guerra com os Matabeles que tinha sido usado para acordar os acampados em Brownsea no primeiro acampamento de escuteiros do mundo e para abrir o primeiro curso para chefes no Parque de Gilwell. Levou-o aos lábios para dar um toque que haveria de ecoar pela extensa parada em frente dele, mas, com o excitamento, os lábios recusaram-se a fazer o que deviam. O som do chifre não passou de um fraco «pff». No entanto, como que chamados para a ação pelo chifre, a marcha começou, com os contingentes a desfilarem atrás de contingentes em frente da plateia, com as bandeiras de quase todas as nações civilizadas desfraldadas ao vento, com milhares de pessoas a aplaudirem cada nação entusiasticamente.”.


             Ainda hoje o chifre é usado para reunir chefes em cursos de formação em todo o mundo. Para todos os que seguem as pegadas do fundador, é um viver do Escotismo no seu melhor.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O passado não tem valor?


Conversa ao pé do fogo.
O passado não tem valor?

                Tenho visto nas andanças e leituras que faço uma forte corrente a discutir sobre o escotismo moderno. Claro que não se começou hoje, pois há tempos os defensores desta ideia vêm fazendo mudanças em toda a estrutura escoteira. Dizem que isto faz parte de todas as escolas em todas as áreas e não se atualizar é ficar parado no tempo, dizem eles. Acredito que não estão errados. Não podemos ficar sem nos atualizar. Elas são necessárias e fazem parte do nosso crescimento. Já mudaram algumas vezes o programa escoteiro, mudaram o uniforme, alguns símbolos foram mudados e devem vir por aí outras mudanças. Para os novos tudo bem para os antigos a descaracterização.

                    Alguém um dia me interpelou sobre isto. Respondi que não discordava de atualizações desde que feitas sem tirar o mérito da formação do passado. Interessante que a maioria que sugere ou comenta estas mudanças não participaram do escotismo do passado. Combatem pelo que ouviram falar. Agora eles dizem que uma discussão sadia deveria existir e até alguns dizem que os jovens devem participar desta discussão. Claro, isto é importante, mas o jovem viveu escotismo do passado? Deram a ele oportunidade de viver o sistema de patrulhas em seu apogeu? Ele viveu uma época de aprender a fazer fazendo, pois a chefia dava ampla liberdade? E os resultados foram motivos de indagação na sociedade local?

                    Não discuto a modernidade. Discuto estas alterações e mudanças feitas sem nenhuma experiência válida para dizer – Vamos mudar! Soube que nos EEUU há tempos atrás a Boy Scout discutiu certas mudanças na vida da tropa. Para que ela se realizasse precisavam ver como seria o resultado final. Um profissional foi contratado e durante dez anos colocou em prática as mudanças em uma tropa. Porque dez anos? Porque precisavam ver os resultados quando o jovem participante atingisse a idade adulta. Infelizmente não é assim que fazem os nossos dirigentes. Planejam, discutem entre si e põe em pratica para então ver os resultados. Se deu certo ótimo se não deu muda-se de novo.

                   Os associados em todas as suas categorias não tem mais condição de pensar. Os adultos pensam por eles. Ou então fazem consultas com poucos sem dar a eles condições de análise do que era e o que vai ser. Contar histórias do passado não vale. Cada um tem uma maneira de contar para que os ouvintes interpretem a sua maneira e concordem. Eu tenho duvidas se o jovem soubesse como foi vivendo por um tempo o que era e comparar com novas ideias ou quem sabe ele mesmo sugerir. Foi uma época sui-gêneris. Um escotismo de desafio. Onde ele teria que aceitar situações aventureiras para vencer. Tentar sempre até ver onde acertar. Uma segunda e primeira estrela nunca poderia ser retirada. Dizer ao lobo que ele teria que crescer, pois ao entrar era um pata-tenra sem rumo e isto seria o começo. Ele teria que aprender a ser um lobo de verdade. Conquistando sua primeira e sua segunda estrela para então almejar seu cruzeiro do sul.

                        Acabar cum uma segunda e primeira classe? Nunca. Alterar os desafios das provas de acordo com os dias atuais sim. Os seniores ainda teriam suas eficiências. Ah! Mas me dizem que isto existe. Existe? Hoje você olha para um jovem escoteiro e escoteira e não sabe em que pé está seu crescimento escoteiro. Assusta-me alguém pedir ajuda na internet sobre especialidades, cordões e até nome de patrulha, grito etc. E os demais? Mudanças são válidas, mas cada uma tem de ser bem analisada, discussão ampla e dar tempo ao tempo.

                   Na década de 80 participei de uma comissão junto as Bandeirantes do Brasil visando uma unificação honesta e sadia visando à coeducação. Elas sempre desconfiando de nós. Durante quatro meses fizemos reuniões quinzenais. Sem menos esperar elas se afastaram dando como terminado os trabalhos. Uma semana depois vários grupos foram autorizados a terem o elemento feminino. Ficamos nós da comissão com “cara de tacho”, pois nem nos perguntaram nada. Começava aí a coeducação tão apregoada hoje. Antes só tropas e alcateias separadas por sexo e únicas. Em menos de um ano foi aprovado mista para lobos e mais um ano todos eram mistos. Experiências? Nunca foram feitas. Os dirigentes nunca perguntaram. Avançamos na modernidade, coisa que até hoje na maioria das casas dos jovens os filhos de sexos diferentes ainda não tem a liberdade que encontram no escotismo.

                         Tenho ouvido relatos de situações incríveis nas tropas escoteiras, sêniores e guias e os pioneiros me assustam mais ainda. Mudar sim, mas mudar com o pé no chão é melhor. Não é o que fazem. São poucos os jovens que passaram pelo escotismo e hoje na vida adulta comentam das vantagens da formação escoteira. Não temos respaldo na sociedade e nem nos meios educacionais. Somos vistos com brincadeiras de criança e em alguns casos nos consideram atrasados e ineficázes. Não sei realmente onde vamos parar. Aquele escotismo de aventuras, de descobertas, do amor dos membros de uma patrulha, de saber que ser escoteiro era ser um irmão e amigo de todos, do respeito aos escoteiros, aos mais velhos, tantas coisas que uma página só não daria para escrever tudo.


                          A corrente do modernismo corre contra o tempo. Ela persegue o esquecimento dos antigos e busca nos novos o apoio irrestrito que precisa. É um jogo sem volta. Tantas coisas acontecendo e tantos esquecendo que muitas coisas do passado não eram de todo ruim. Não teremos mais orgulho de uma saudação escoteira no cerimonial? Claro dirão. Teremos sim. Mas sem perder os amigos da patrulha que se vão? Claro meu caro, estamos mudando para isto. Mudando? Passado que se foi. Patrulhas que ficavam juntas por anos e anos. Mudanças que vieram para jogar por terra uma época que valeu mesmo a pena ser escoteiro.


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Viva Pancho Villa!

A ignorância é uma das maiores desgraças da minha raça... A educação de todos os filhos é algum que não deve passar despercebida pelos governantes e cidadãos. Nunca o problema educacional tem sido dado à atenção necessária...
Pancho Villa

Conversa ao pé do fogo.
Viva Pancho Villa!


                      Doroteo Arango nasceu em Durango e viveu até os 16 anos como trabalhador rural. Com essa idade, foi acusado de matar um fazendeiro que atacara sua irmã e para fugir das perseguições da justiça, se alista no exército mexicano. Como chefe de guarnição, em 1910, apoia Francisco Madero no combate a ditadura controlada por Porfirio Díaz. Assim começa a história de Pancho Villa. Um caudilho mexicano lá pelos idos de 1915 onde os americanos passaram poucas e boas com ele. Pancho Villa nunca foi escoteiro. Nunca se interessou por nada que Baden Powell escreveu ou deixou para nos. Ele dizia que era um visionário, mas muitos o consideravam um sanguinário. Queira ou não, caudilho ou ditador ele ficou na história. Muitos como ele também ficam.

                     No escotismo dificilmente aparecem caudilhos. Claro que eles existem. São muitos. Eles se escondem. Não aparecem. Você nunca vai receber sua visita em seu grupo escoteiro. “Mali, Mali” um dia poderá apertar as mãos deles se comparecer a um encontro nacional. Eles estarão lá. Rodeados pela chumaça da casta que habita a corte dos Grandes Chefes e que é o sonho de muitos outros pequenos caudilhos existentes no escotismo. Eles os caudilhos sabem do que você precisa. Sua opinião não tem valor e esquece, nunca vão pedi-la. Assim são os caudilhos. Acreditam que sabem o que fazem e cercados de uma dezena de outros decidem a bel prazer o que mudar e construir. E o pior, eles os caudilhos juram que tudo que fazem é de comum acordo com os associados. Que foram consultados. Risos. Eu pergunto eu ouço eu olho e não vejo ninguém que foi consultado. Não tenho nada contra os caudilhos. Eles sacrificam suas horas, alguns até suas economias e seus familiares. Claro em prol do escotismo. Um dia vi um Chefe suando em bicas. O grande jogo que estava em ação não dava certo. Praguejou, praguejou e nem pensou que o culpado era ele mesmo. Esqueceu-se dos monitores, esqueceu-se da patrulha, esqueceu-se da tropa. Ninguém deu sua opinião. Ele era o sabe tudo. Quis fazer uma surpresa. Assim são os caudilhos. Eita casta danada de boa!

                 Eu gosto eu adoro mesmo quando me dizem que temos onde dar opinião, onde reclamar, onde sugerir. “Temos normas chefe”! Normas claras completam. Engana-me que eu gosto. Façam a experiência. Vistam seu melhor uniforme, ou quem sabe se você tiver condições financeiras compre o novo traje. Dizem por aí que é caro e você não pode mandar fazer. A confecção é exclusiva da organização. Paciência. Escotismo também é para pobres, mas é melhor ser rico não? Compre mais de um tipo. São vários. Agora você pode escolher a vontade. Assim você vai chamar a atenção deles vestindo cada um de hora em hora. Eles irão rir a toa. Você vai servir de
exemplo. Depois compareça a um encontro nacional. Vá apertando mãos que aparecerem pela frente. Os simples como você irão dar um belo sorriso e vão querer conversar ou lhe dar um abraço. Não fique triste se os caudilhos não lhe derem atenção. Eles estão sempre com pressa. Vou olhar para você, apertar sua mão e dizer prazer! E sairão de fininho. Quando estiveres em plenário peça a palavra. Diga o que tem de dizer isto é claro se derem a palavra a você. Muitos caudilhos não dão. Eles tem o tempo certo para cada ação. Melhor é deixar escrito suas ideias e suas sugestões. Entregue ao Presidente que está lá na mesa de direção. Não se preocupe se ele fechar a cara ou então fazer promessas. Faz parte, mas não acredite. Agora volte satisfeito. Você não foi ouvido e nem bem recebido, mas mostrou que não é submisso.

                Caudilhos! Casta! Corte dos poderosos. Sem ofensas me parece uma raça superior. Encastelam-se no poder e mesmo dizendo que agora é por pouco tempo não acredite. Eles têm o dom de continuar na corte, ainda fazer parte da casta. A alternância do poder dão a eles condições de brincar como nós nas danças das cadeiras. Não vamos criticá-los muito. Vamos dar um voto de confiança. Eu mesmo venho dando há quarenta anos assim quem sabe tudo pode melhorar? Se você acredita ótimo. Eu não. Cansei de acreditar. Mas eu não sou ninguém. Como já disse sou um pária sem casta.  Nem grupo eu tenho quiçá um registro. Portanto não incomodo ninguém e assim vou vivendo pisando no pé de alguém. Alguém? Risos. Claro, os caudilhos, os dito cujo da casta e aqueles que dão risadas por pertencer à corte, pois ali sim, o poder é exercido. Será?

                   Eu sei de meia dúzia de escotistas que não concordam com as ações dos caudilhos. Mas são poucos. Suas vozes nunca são ouvidas. Um deles sobre o novo uniforme ou traje como eles querem, disse o seguinte – Amigos, sim, do jeito como a coisa foi feita corremos um grande risco de num desfile parecermos um bando de "sem teto", se bem que acho que até eles se uniformizam melhor, iria ser uma miscelânea de calçados diferentes, cintos diferentes, coberturas diversas, uniformes diversos, enfim, uma verdadeira zorra. Acho que vamos ter que pensar numa forma de alinhamento de pensamentos e ações e ver como poderíamos agir neste caso. O que acham? Ninguém achou nada. Claro deram suas opiniões, mas elas ficaram perdidas no grupo que pertencem e poucos muito poucos tomaram conhecimento ou concordam.

                  Listas correram onde os associados puderam reclamar. Eu mesmo vi uma com mais de quatrocentas assinaturas. Não só desta nova vestimenta que foi enfiada goela abaixo e de que adiantou? Eles os caudilhos nem deram “pelota”. Eles nunca dão. Fazem um comunicado impositivo dizendo que fica determinado isto e aquilo. São mesmos os donos do poder. Sempre me perguntam – Chefe qual o caminho a seguir? Difícil dizer, difícil aconselhar. Mas se cada um comentasse com outro que enviassem seus pensamentos aos dirigentes do seu distrito da sua região já seria um bom caminho. Nada será possível mudar enquanto a estrutura que temos hoje não mudar também. Os estatutos estão aí. Eles se apegam nele e claro foram eles que o fizeram. E dizem que tiveram várias mãos na sua confecção. Da vontade de rir. Estão a mudar. Ainda vão mudar muito. E infelizmente a aceitação será continuada nos grupos escoteiros.

                   Para mim chega do velho conto do vigário em que dizem que temos nosso órgão próprio para sugerir e dar opinião. Um engodo. Os associados esquecem que são mais de setenta mil membros. Não mais que 0,5% deste efetivo participa e dizem que decidem em conjunto. Risos. Só rindo mesmo. Eles estão lá se sentem importantes, mas também não decidem nada. Tudo chega pronto e decidido, pois meia dúzia já discutiu, votaram entre si e claro eles acreditam que assim deve ser.  Agora é deixar os outros votarem para justificar os estatutos. E o desejo de se sentir importante de estar ali na corte quem votará contra. Meu amigo, se você é Escotista veja se um dia foi consultado em algum ato ou decisão dos dirigentes. Você viu alguém dando sugestões para o traje? O uniforme? Pergunte a amigos de outros grupos. Nunca a não ser que você seja da corte, seja mais um dos futuros caudilhos que ano a ano são criados na alta cúpula. Nosso movimento tem um valor enorme e precisa de uma injeção de democracia. Não se pode deixar a maioria dos associados sem voz e voto. Ninguém tem a verdade, o caminho, as decisões. Não podemos continuar neste estado de coisas. Cada um deve pensar bem se é este o caminho correto. Eu já disse em outros artigos que só vemos um lado da montanha, até hoje ninguém tentou ver o outro lado. Nem experiência foi feita.

Final da historia de Pancho Villa.

                  Pancho Villa não foi escoteiro. Nem poderia. Um caudilho que acreditava que a força era sempre uma solução para resolver os problemas de seu país. Quem sabe se ele tivesse pensado que a democracia fosse a maneira correta para vencer ele teria tido sucesso. Mas não, pouco a pouco Villa foi-se convertendo em um novo guerrilheiro e suas atividades se limitaram cada vez mais pela escassez de armas. Assim se manteve de 1917 a 1920, salvo um período de reaparição, quando Felipe Angeles voltou ao país para lutar ao lado de Francisco Villa. Adolfo de la Huerta, ao assumir a presidência interina do país como fruto do movimento de Agua Prieta, sugeriu a rendição de Francisco Villa. Em 26 de junho de 1920, Villa assinou os convênios de Sabinas, obrigando-se a depor as armas e a retirar-se na fazenda de Canutillo, Durango, que o governo lhe havia concedido em propriedade por serviços prestados pela revolução.
                   Sua popularidade entre os mexicanos reforçara-se ainda mais depois do ataque a Columbus, pois viram-no, metaforicamente, além de ser uma espécie de "Robin Hood", o grande vingador das tantas derrotas passadas dos mexicanos frente aos poderosos "gringos", um símbolo da resistência nacional, alguém que ninguém conseguira colocar a mão, uma lenda, "un hombre" - Seu nome acabou por tornar-se lenda entre os mexicanos. Ironicamente, hoje, ao lado de Columbus, cidade americana, existe um lugarejo chamado Pancho Villa, bem como um parque nacional com o seu nome.
                   Não temos em nossa liderança nenhum Pacho Villa ou será que temos? Mas também não temos nenhuma democracia participativa e aberta onde tudo é feito as claras. Ou será que temos? Pancho Villa não serve de exemplo para nós apesar de que é considerado um herói mexicano e eu como admirador de heróis tiro meu chapéu. Vejamos o que ele deixou escrito para a história:
- É justo que todos aspirem ser mais, mas será que todos podem um dia analisar os seus atos?
- A igualdade não existe, ou melhor, até pode existir. Seria uma mentira que todos nós podemos ser iguais, o que precisamos é dar a todos um lugar adequado.
- Agora eu pergunto o que seria do mundo se todos nós estivéssemos falando ao mesmo tempo, se fôssemos todos nós capitalistas ou pobres?
- Ninguém faz melhor o que você conhece bem, e, portanto, numa república ignorante você vence com qualquer plano que for adotado.
 
É hora de dizer que o preconceito acabou que a sociedade está estabelecida e está mais sólida, mais natural, mais sábia, mais justa e nobre.

Pancho Villa


terça-feira, 9 de julho de 2013

A luta pelo poder no escotismo.

Se não acreditas que ele exista não leia este artigo.
A luta pelo poder no escotismo.

              Eu tenho um compadre que quase não o vejo mais. Eu em Sampa e ele em Belô. Grande sujeito. Sempre com um sorriso nos lábios. Aquele sim era um protótipo bem feito de que ser feliz é fazer
os outros felizes. Nunca teve sede de poder. Sei que é um DCIM até hoje, mas não sei se está na ativa. Fiz o meu primeiro avançado com ele. Éramos de patrulhas diferentes, mas nasceu ali uma grande amizade. Tornamo-nos íntimos em família e além da amizade fomos e somos compadres. Sempre quando vou a BH faço questão de visitá-lo. Este preâmbulo é porque estou sentindo nos últimos anos uma busca enorme pelo poder no escotismo. Ele o meu compadre era inverso disto. Lembro que quando deixei a função de Regional não foi fácil conseguir outro para assumir o lugar. Claro que tínhamos muitos capazes, mas não havia motivação para assumir cargo tão elevado. E na Diretoria? Uma luta.

             Não havia ainda a sina de Grande Chefe. Lembro-me do Chefe Darcy Malta. Tinha pose, mas estava sempre junto e presente com os chefes e a escoteirada. O conheci melhor em um Acampamento Distrital de Patrulhas. Não ficava quieto, sempre aqui e ali conversando sugerindo e dizendo que queria aprender. Nos grupos Escoteiros era a mesma coisa. Aceitar a função de Chefe de Grupo não era fácil. Claro havia como existe até hoje os grupos bem estruturados. São grupos onde bons escotistas conhecedores nasceram e ficaram ali para sempre. Em sua maioria a uma liberdade de ação muito grande sem contar que a democracia faz parte de seu habitat. Lembro muito bem quando precisava fazer dezenas de Indabas para tentar eleger um Comissário Distrital. Não era fácil. Ouve um caso em certa cidade que um professor foi eleito quase por unanimidade. Não queria assumir. Dizia que se sentia bem na Tropa.

           A Equipe de Formação era unida. Não éramos muitos, menos de quinze, mas pau para toda obra. Não sei se em todos os estados era assim também, mas algum que conheci de perto a tônica da união e respeito era de praxe. Claro que nem tudo que reluz é ouro. As discordâncias, as desavenças e a discórdia nunca deixaram de existir. Desde aquela época que eu me pergunto – Porque esta sede de poder? Não temos salários, não temos projeção nacional a não ser entre os membros do escotismo. Mas nos últimos trinta anos ou mais existe uma luta surda pelo poder. Os que entram não querem mais sair e muitos que estão fora querem entrar. Alguns se tornam Caudilhos em seu estado não faltando aqueles que tentaram ser um deles a nível nacional. O sonho em ser um membro da equipe de formação sempre existiu. É um status que ninguém abre mão. Quem se inicia é de uma disciplina e obediência aos mais aquinhoados que chega a fazer pena. Em alguns casos humilhante mesmo.

             Tenho escrito ultimamente sobre a democracia escoteira. Como acredito que ela não existe no escotismo as lideranças se sentem libertas para pensar por todos nós. Eles dizem que sabem o que precisamos. Fazem programas que praticamente são impostos de cima para baixo. Não perguntam nunca se é isto que queremos. São Acampamentos Nacionais, Regionais, Mutirões, Cursos de criatividade duvidosa, Cursos de Monitores, encontros de lobinhos em nível distrital e nacional e assim vão aparecendo os novos donos do poder. Dificilmente aparece algum para programar grandes indabas distritais, regionais, mutirões etc. para que os participantes possam discutir o que pensam e o que querem. Aí sim quem sabe bons programas poderiam surgir. Mas isto não se faz. Cada um que assume uma função acha e luta pela sua nova ideia e quando assustamos lá estão os chefes da sua área fazendo quem sabe o que não querem, mas o Caudilho já tem tudo programado e ai de quem discorda.

             Durante as ultimas eleições eu pude checar até onde os escotistas são figurativos. Cada chapa apresentou seu programa. Cada uma prometeu mundos e fundos. Faz parte do jogo político. Não vi e posso estar enganado, nenhuma chapa com propostas de ouvir as ideias de todo seu estado, o que deveria mudar, quais as atividades poderiam ser desenvolvidas, quais os cursos que mais seriam procurados, se estão ou não a favor da uniformização imposta pela UEB, se os estatutos não deveria ser motivo de uma discussão ampla para prováveis modificações. Seriam tantas coisas para “vender o peixe” aos associados que ninguém pensou nisto. Afinal eles sabiam ou achavam que sabiam o que cada um precisa. A mesma coisa acontece de cima para baixo onde o Chefe diz - Eu sei o que os
“meus” Escoteiros querem. “Meus” lobinhos não reclamam. O “meu” Grupo Escoteiro está bem estruturado. Eu sei o que os “meus” chefes querem. E assim vai o Distrito a região e nacional. Os caudilhos estão lá às centenas.

               Temos caudilhos por todo o lado. Desde os chefes de sessões, dos grupos, dos distritos regiões e nacional. Existe uma luta surda para ser da equipe do presidente. O escolhido logo quer mostrar serviço. Meu Deus! Que serviço? O dirigente não deveria primeiro ouvir o que todos querem? Mas isto é um vicio nacional. A própria UEB sempre foi assim. Lá tem caudilhos aos montes. Antes se perpetuavam no poder agora só podem ficar alguns anos. Mas não se enganem aqueles que passaram a bola para frente sempre estão com o apito na mão. Eles ainda são os donos do jogo. Não sou psicólogo, nem pedagogo. Não entendo nada do que Sigmund Freud foi o papa. Mas esta sede de poder sem salário não é honesta. E mesmo que bem paga não seria assim. As grandes corporações com seus CEOS estão dando um novo formato na estrutura de suas fábricas, lideranças e até países se organizam sobre esta prisma.

                 No escotismo pelo que vejo nada muda e nada se transforma. Tudo vem lá de cima dos órgãos internacionais. Eles já são mestres disto. Uma grande FIFA onde ninguém quer perder o poder. Eu não sei não e nem posso afirmar, mas me disseram que quem manda no escotismo nacional são alguns poucos membros detentores do poder da Equipe de Formação. Verdade ou não no passado era assim. Ela decidia e os demais seguiam. Um amigo me disse uma vez que temos alguns escotistas que nunca foram nada na vida em termo de poder nas suas atividades profissionais. No escotismo encontraram um manancial aberto. Sei que isto é meia verdade. Tem muita gente boa em postos na hierarquia da UEB. Mas o dia em que um Caudilho apresentar um plano de desenvolvimento visando ouvir as opiniões de norte a sul do Brasil, mesmo que isto leve anos para se chegar a meio termo então darei minha mão à palmatória. Enquanto isto irão pipocar em todas as eleições as promessas, os planos mirabolantes a espera do reconhecimento por parte dos comandados.



Um grande sábio pede a Deus mais sabedoria, mais conhecimento, mais entendimento, mais compreensão, mais amor, mais prudência, mais paz; mas o insensato só pede riqueza material, sua ruína é uma questão de dias.   Sapienciais 3:5


sexta-feira, 5 de julho de 2013

O exército do eu sozinho.

"A democracia... é uma constituição agradável, anárquica e variada, distribuidora de igualdade indiferentemente a iguais e a desiguais." (Platão).

Conversa ao pé do fogo.
O exército do eu sozinho.

                 Não existe exército, o título nada tem há ver com o artigo. Pensei em dar outro nome: Unipartidarísmo solitário. Também não sei se encaixa. Difícil arranjar um título. Mas vamos ao que interessa. Desde que entrei para o movimento que pouca coisa mudou em sua estrutura. Eles os dirigentes mudaram sim desde as normas estatutárias ao programa, os uniformes, a formação enfim foram mudanças que os novos nunca irão discordar. Afinal eles entraram no escotismo com a politica autocrática existente e nem pensaram, ou melhor, nem pensam em uma democracia plena e transparente. Não é uma preocupação natural. Assim está assim deixa ficar. Todos que usufruem das benesses escoteiras defendem a associação e não aceitam de maneira nenhuma o termo “autocracia”. Alegam e talvez com razão que existe um Estatuto, temos normas e órgãos próprios onde possamos reclamar. De norte a sul de leste a oeste se alardeia esta pseudo-democracia escoteira.

                 Li um artigo interessante na Internet onde se dizia que um dos maiores e mais impressionantes poder que temos é a palavra e a fala. A palavra pode levantar ou derrubar, agradar ou desagradar, emocionar ou irritar, trazer para perto ou afastar. Pode ser mel ou fel, tanto para quem ouve como para quem fala. A palavra pode estar respaldada na verdade ou esconder a mesma verdade. Mas isso não é difícil de perceber por aquele que tem uma consciência maior de si mesmo e, portanto, do outro. Simplesmente porque a palavra não vem sozinha nunca. A palavra pode estar respaldada na verdade ou esconder a mesma verdade. Mas isso não é difícil de perceber por aquele que tem uma consciência maior de si mesmo e, portanto, do outro. Simplesmente porque a palavra não vem sozinha nunca.

                 Desde os primórdios do escotismo que no Brasil existe esta tecnocracia. A palavra de ordem é uma só – Disciplina escoteira. Que ser um de nós? Então aceite as regras e pronto. Esta é à maneira do porque no escotismo sempre fomos um movimento ditatorial. Alguns poderiam dizer que é a ditadura dos meios. Contrariamente ao que se pensa o tecnocrata não é um realista pragmático. Não pensa que os fins justificam os meios. Pensa sim que os fins são irrelevantes ou indetermináveis. Vemos, portanto uma acomodação dos associados e eles não são culpados por esta situação sem pensar que poderia haver outro caminho. Entraram pensando mil coisas de como ajudar a juventude, compraram as ideias de Baden Powell e nunca em tempo algum discordaram, pois vivem o dia a dia com seus jovens e quase não pensam que acima deles, lideres estão a tomar decisões que poderiam ou podem afetá-los.
            
                  A associação parece que não tem desejos autênticos, porque para ela todo o desejo autêntico é, por definição, impossível de satisfazer. O êxito deles consiste em acumular instrumentos a que nunca dará uso; e o próprio dinheiro, que é o instrumento por excelência, serve apenas para ganhar mais dinheiro. Ou poder, que é outro instrumento; mas isto, para a associação já é uma perversão - uma intromissão dos associados que nunca foi levado em conta. Melhor me fazer entender mais simplesmente. Afinal Tristan Bernard dizia que “um bom argumento vale mais do que muitos argumentos melhores”. Nunca em tempo algum até hoje a Associação deu a todos os associados voz e voto. Nunca em tempo algum a Associação consultou ou mesmo fez algum tipo de pesquisas com os associados. Ela nunca foi transparente nos seus atos. E interessante, são estes os associados que carregam a Associação, pois sem eles ela deixaria de ter utilidade.

              Dizem que a essência da democracia reside em dois princípios fundamentais: o voto e a liberdade de expressão. Quando nascem a liberdade e a democracia, aparecem os associados, símbolos da participação na soberania escoteira. Portanto, se pudemos entender como liberdade de expressão seria como uma divisão de forças dentro da Associação para que ela não se ache soberana e dona de todas as ideias possíveis para se desenvolver. Afirmar que hoje isto é possível é duvidar da inteligência dos associados. Impossível participar do órgão máximo da Associação cuja representatividade é menor que 0,5% do efetivo total. Isto dificulta em muito a difusão do pensamento, além de não estimular os associados a manter, exprimir e defender suas opiniões.

              Convenhamos que fatores diversos levaram a Associação a continuar com esta atitude arrogante. Por mais que ela se arvore em dizer o contrário Ela determina o que vai ser alterado nos seus estatutos, no programa Escoteiro e em todas as suas ações tomadas à revelia dos seus associados. Dizer que as normas estatutárias lhe dão este direito é o mesmo que dizer que seus atos não podem ser contestados de um Estatuto que ela mesma fez para não ser contrariada. Do passado ao presente a Associação nunca deu condições plenas aos associados insatisfeitos e para estes sempre ela agiu de forma totalitária. Com ameaças, admoestações o que levou a saída de muitos que a seu modo amavam o Escotismo e não queriam deixá-lo, resolveram fundar outras e elas estão aí pululando em quase todos os estados.

               Baden Powell por algumas vezes chegou a comentar e
escrever em seus livros que os chefes devem ter livre arbítrio para decidir, e insistiu que eles devem olhar bem à frente e não só a ponta de seu nariz. Remendou dizendo que não devemos ser um gansinho, daqueles que vai atrás, nas pegadas do pai ganso sempre tem o filho atrás. Poucos muito poucos de nós acreditam mesmo que poderemos mudar. Sempre haverá aqueles para defender a ferro e fogo os desmandos da associação. As alternativas são sempre difíceis e a não ser uma mudança natural ouvindo a voz dos seus associados, não teremos em tempo algum, mudanças radicais visando transparência e democracia plena. Desde que a UEB foi fundada que seu sistema pouco mudou. Passou por mãos muitas vezes iluminadas, mas que não teve forças para mudar o que precisava.

                 Assim como eu todos que comungam do escotismo nunca tiveram oportunidade de pensar como seria diferente, se tivéssemos um sistema democrático e transparente, com todos tendo direitos de voz e voto, se teríamos mais força na sociedade brasileira, se seriamos reconhecidos como um movimento sério de ajuda na formação da juventude nos meios educacionais e se políticos e lideres empresarial fossem mais um de nós. Nunca nos deram esta oportunidade. Só enxergamos o que nos deram condições de ver. Maciçamente vendem suas ideias, seus programas, seus valores e alardeiam aos quatro ventos seu sucesso no crescimento de associados. Ninguem os contradiz. Não existe oposição. Uma visão da realidade para eles fantástica. Para outros não. Outros gostariam de galgar o pico da montanha para ver o que tem do outro lado. É o que todos os associados deveriam fazer. Quem sabe um dia iremos mudar? Quem viver verá!

A simplicidade é transparente, a franqueza é translúcida. Quando emanam luz, só a transparência se deixa ver por dentro.



terça-feira, 11 de junho de 2013

O Sucesso a qualquer preço.

Se A é o sucesso, então A é igual a X mais Y mais Z. O trabalho é X; Y é o lazer; e Z é manter a boca fechada.

Crônicas de um Chefe Escoteiro.
O Sucesso a qualquer preço.

           Alguns me consideram um pessimista. Pergunto-me se sou.
Eu gosto de procurar quem vê a luz do escotismo brilhar para sempre. Se isto não é errado então não sou um pessimista. Não é porque vivi com o brilho próprio de quem já foi que eu posso desejar que hoje não tivesse mais nenhum Escoteiro que poderia pensar como eu. Tem dias que escrevo “buzinando” para ver se tem alguns que podem decidir e mudar. Mudar? Ao meu modo de pensar. Sou o dono da verdade? Só eu sei? Não. Claro que não. Tem milhares a perder de vista que possuem o brilho próprio de boas ideias que podem levar nosso movimento ao caminho do sucesso. Mas isto tira meu direito de opinar? Para alguns sim para outros não. Poetas já diziam que assim como em cada lado a lua toda brilha é porque alta vive. O escotismo não está lá no alto, inacessível. Não pode ser considerado propriedade particular.

           Eu peco pela insistência em achar que a trilha poderia ser outra. Mas será mesmo verdade? Alguns amigos me dizem que devo dar um voto de confiança, mas dando ou não isto implica em alguma coisa? Lao-Tsé escreveu um dia que o sábio não se exibe, por isso brilha. Ele não se faz notar, e por isso é notado. Ele não se elogia, e por isso tem mérito. E, porque não está competindo, ninguém no mundo pode competir com ele. Verdade mesmo. A frase toda me lembra de Baden Powell. Podemos dizer sem sombra de duvida que ouve avanços. Muitos. Poderia pensar que quem tem bastante luz própria não necessita apagar ou diminuir as luzes dos outros para poder brilhar. Será que me encaixo nesta frase? Tenho luz própria ou tento diminuir as luzes dos outros?

           Escrevi dezenas de artigos, uns com críticas ácidas outros não. Mas de todos eles aprendi que o mais importante para o sucesso é não ser o dono da verdade. Se ela não é minha então não é de ninguém. Eu sempre tive junto de mim algum de que me orgulho. Ouvir as pessoas, opiniões, ideias, sugestões. Pode até ser que não aceito todas, mas o que a maioria pensa para mim é sagrado. Porque então critico tanto nossos dirigentes? Afinal eles não estão tentando acertar? Não estão se sacrificando dias, horas, família e trabalho para ajudar o escotismo? Poxa! Acho que estou errado e muito. Mas me pergunto – Tem alguém que não faz o mesmo o que os dirigentes fazem? E quem sabe até mais? E nem sempre são reconhecidos por isto? – Prestem atenção - Na Tropa as patrulhas decidem democraticamente, nas alcateias ouvir a Alcateia faz bem a saúde, no Grupo Escoteiro o Conselho de Chefes é ouvido frequentemente. Ora, se no Grupo Escoteiro insistimos em ouvir todos, em dar a palavra, voz e voto e isto é um bom exemplo democrático porque não acontece o mesmo nos órgãos acima? Se pensarmos em termos de estes órgãos seguissem o mesmo sistema não seria bom? Sabemos que não é assim.  E como se estivéssemos entrando em um túnel que desemboca em um funil aonde as regras vão mudando a cada aperto que sofrem. Completamente diferentes das que existem no Grupo Escoteiro.

            Dizer que eles estão certos é como dizer que ainda somos lobinhos pata tenra e que devemos ser levados pela mão para não nos perdemos na floresta. Todos ou quase todos dizem em uníssemos que devemos mudar, pois hoje os tempos são outros. Temos que nos adaptar para não sucumbirmos. Sem dúvida. Concordo plenamente. Mas mudar com os pés no chão. Sem perder as raízes e olhando o passado para viver o futuro. O que acontece, no entanto é que todos acreditam nas normas estatutárias atuais e quase ninguém contesta seus artigos como se o que está ali é imutável. Alguém pode me dizer se existem consultas às bases? Se temos pesquisas reais e não por amostragens? Alguém pode me dizer que exceto as normas do POR que pediram sugestões houve outras? Estão a decidir por todos como se eles são os únicos que sabem o que é bom para o escotismo? O que tenho visto ultimamente é uma imposição de ideias, sem contestação e a maioria a dizer: - Eles sabem o que é bom para nós. É BP, você disse – tem gente que é um gansinho daqueles quem vão atrás, nas pegadas do pai ganso vai seguindo o filho atrás...

             A aceitação é geral. Sempre foi assim. Afinal todos ou quase todos entraram no escotismo onde a direção nacional tinha seu sistema estatutário e que nunca em tempo algum se preocupou em consultas. Assim aprendemos e alguns defendem a ferro e fogo o sistema que eles não criaram e não participaram.  Até o final da década de setenta ainda tínhamos uma maior participação no Congresso Nacional. Lá estavam os Comissários Regionais, a Diretoria Regional, o Presidente da Assembleia Regional, os membros da equipe de formação e os comissários distritais. Destes sobraram poucos. Era melhor assim? Aqueles que entraram no movimento e encontraram esta maneira de ação por parte dos estatutos nunca se insubordinaram. A aceitação no escotismo é de uma lealdade sem tamanho. Mesmo lembrando o que BP escreveu que tem gente que só vê a ponta do nariz poucos dentro da disciplina escoteira se arriscam a ir mais além. Toda vez que escrevo isto sempre tem alguns a dizer que existe os fóruns próprios para reclamar sugerir e mudar. Acreditam nisto? Tente. Me parece à frase do “me engana que eu gosto”. Com raras exceções você sempre será uma figura apagada e anônima.

             Todas as mudanças e alterações sofridas até hoje que eu sabia nenhuma foi através de consulta às bases. É um paradoxo. Onde está o órgão mais importante da estrutura escoteira? As sessões é claro. O Grupo Escoteiro. Todos que ali estão são incansáveis na luta de formar e motivar os jovens e não tem direito de opinar. Como isto já se tornou um hábito de comportamento não
há o que contestar. Se perguntar a cada um dos mais de onze mil adultos hoje atuantes poucos irão dizer que isto seria uma preocupação. Não é. Se aparecer alguém insistindo em ter voz e voto e se esta insistência não for de acordo o que reza os estatutos as admoestações irão aparecer. Não posso e nem tenho o direito em dizer que não existem rumos de acertos em tudo que os dirigentes fizeram. Existem muitos. A uma juventude participativa e alegre, mas não sei quantos deles estão permanecendo por mais de dois anos no escotismo. A evasão nunca foi discutida. Sabe-se que existe, mas não se pode provar. 

            Alardeia-se que estamos crescendo. Acredito em partes. Nos últimos três anos só um estado brasileiro contribuiu com mais de trinta por cento do efetivo. (vide relatório nacional 2012). Parabéns a este estado e se os demais estivessem conseguido o que ele conseguiu o número de novos membros seria bem maior. Não sei por que a UEB não deu o merecimento devido no relatório nacional. Interessante, saiu lá de trás para hoje ser o terceiro em efetivo Escoteiro no Brasil. Maior que muitos estados que sempre estiveram a frente não só no crescimento populacional como o escoteiro. Se observarmos um pouco mais, iremos ver que nos últimos três anos um número considerável de isentos tem crescido ano a ano e sabemos que isto sempre existiu. Os Grupos Escoteiros nem sempre registravam todo seu efetivo. Os próximos dez anos irão dizer se este crescimento será continuo ou não.

             Enquanto em alguns países este crescimento faz parte de anos e anos, com dividendos excelentes por parte de adultos que participaram do escotismo, nós ainda não tivemos um retorno e os poucos que se manifestam não são significativos na sociedade brasileira, principalmente política e empresarial. Quando na imprensa alguém desmerece nosso movimento, uma grita geral se faz ouvir de nossa parte. De quem é a culpa? A maioria sempre vai dizer que são dos chefes. Verdade mesmo? Se isto acontece não seriam eles que deveriam decidir o destino do escotismo no Brasil? São errados sem direitos a opinarem? Não sou um expert em escotismo fora de nosso país. O que sei é por pesquisa e estes dias vi uma que me interessou. Lá estava escrito que no Reino Unido o Escotismo voltou a ser uma atividade bacana segundo escreveu o Jornal “The Guardian”, por quê?

          Vejamos o que o jornal escreveu. – A Associação Inglesa relata que as coisas começaram a mudar quando em 2002 fizeram a primeira revisão do Programa Educativo, que não era atualizado deste 1967. Tudo foi revisado: - Uniforme, treinamento, imagem e principalmente as ATIVIDADES oferecidas. O Programa Educativo tornou-se ATUAL, DINÂMICO e RELEVANTE para a Sociedade! Ao mesmo tempo, Peter Duncan, famoso apresentador de TV e, atualmente, Bear Grylls, hiper conhecido aventureiro mundial, assumiram o cargo de “ESCOTEIRO CHEFE”, cada um contratado por cinco anos para a função. A atual tendência mundial de super proteger os filhos passou a ser vista como uma oportunidade.

          Trabalharam a confiança dos pais que voltaram a interessar-se em que suas crianças praticassem o Escotismo e saissem nos finais de semana para atividades de ar livre, acendendo suas fogueiras, correndo pelas matas e tendo contato direto com a Natureza! Resultado, Escotismo agora é visto como uma forma moderna de educação não-formal e ao mesmo tempo “cool”, atraindo jovens e adultos! Moderno na forma, mas preservando seus valores e seu Método. O crescimento foi só consequencia!
            Se estas mudanças pela associação inglesa foi feita por poucos ou com uma consulta as bases não sei, mas observem que o programa praticamente retornou as suas origens. Enquanto lá se preocupou com um marketing agressivo nós nos esquecemos disto. Só agora estamos contratando profissionais, e dando condições a outros nas regiões com cursos específicos. Espero que o curriculum destes cursos não seja burocratizado. Para treinar auxiliares de escritório não precisamos destes cursos. Não temos aqui nenhuma figura que possa ser reconhecidamente um exemplo como os dois ingleses. Dizer que o que é bom para o escotismo inglês não é bom para nós pode até ser. Mas como não temos meios de decidir, e como tudo que aqui acontece vem de cima para baixo é impossível termos ideias claras e objetivas de uma participação mais efetiva com ideias e práticas de um crescimento sustentável.

           Enquanto acharmos que devemos ser dependentes e submissos a tudo que nos determinam, enquanto aceitarmos com esta humildade passiva sem discordar nunca, acredito que dificilmente teremos um escotismo praticado conforme as bases necessitam. Lembrem-se que quem vive o dia a dia junto aos jovens, quem sente na pele a luta para incentivar e manter uma seção e um Grupo Escoteiro é quem sabe melhor o que deveria ser mudado. Da maneira atual seremos sempre subordinado as ideias que nem sempre concordamos e que nos foram impostas. Claro que poderemos ter um escotismo bom, amigo, fraternal, mas isto será feito com o próprio esforço de cada um. Está na hora de se pensar em um escotismo para todos e isto só será feito se a participação de ideias, sugestões e discussões nas bases forem uma realidade. Não é possível sermos submissos a toda uma gama de alterações que muitos não tiveram voz, voto ou um dia qualquer foram consultados.


Sempre Alerta!