quarta-feira, 11 de março de 2020

Eles estão saindo do escotismo... Por quê?




Eles estão saindo do escotismo... Por quê?

... - Há tempos apesar da negativa da Escoteiros do Brasil é fato que a Evasão no Escotismo se tornou uma epidemia sem controle. Basta visitar algumas sessões escoteiras pelo país para ver o quanto temos de lobinhos e escoteiros em suas sessões isto sem contar os seniores e pioneiros. Os jovens estão praticando o escotismo desmotivados. Muitos desconhecem o programa anterior e aceitaram sem discutir o novo programa a Escoteiros do Brasil. Quando instituído ninguém foi consultado, mas a maioria aceitou sem discutir e até hoje não viram se os resultados foram os esperados. Em 2017 6.000 associados em um só ano deixaram o escotismo. A maioria dentro do novo projeto do Escotismo nas escolas. Se hoje temos uma menor taxa de evasão não sei. Estes artigos sei que não serão levados a sério. Não tenho a pretensão de dizer que fiz minha parte. Sei perfeitamente que tudo vai continuar com “dantes no quartel de Abrantes”. O escotismo na opinião dos novos filósofos e pedagogos escoteiros deve acompanhar o novo modernismo da sociedade. O que BP pensava ficou na lembrança de poucos que ainda leem sobre ele. Uma pena, para mim estes novos Dirigentes Modernos deveriam aproveitar e dar um novo nome ao Escotismo de BP. Qual Seria? Fica a dúvida no ar!

Eles estão saindo do escotismo... Por quê? – Parte IV.
O adeus sem volta dos chefes e diretores voluntários do escotismo.

- Uma vez escrevi um artigo cujo título foi “A Legião dos Esquecidos”. Comentava da saída de voluntários do movimento Escoteiro que nunca mais foram procurados pelos nossos dirigentes. O que fizeram ou os sacrifícios que muitas vezes lutaram para preservar o bom nome do escotismo e ao mesmo tempo sua luta para a formação da juventude, não passava de obrigação. Foram esquecidos. Nem uma carta, um e-mail nada que pudessem saber que alguém se lembrou deles. Nossos dirigentes não se importam com quem foi embora. Fico na dúvida se importam com quem está na linha de frente. Perguntaram por que saíram? Porque deixaram o escotismo? Se eles um dia adotaram o escotismo como filosofia de vida e seu amor ao escotismo hoje nem lembrados são. A participação do adulto no movimento Escoteiro não é fácil. O sacrifício e enorme. Luta-se pela sobrevivência, luta-se para ser reconhecido e se não fosse o sorriso da criança nada mais teria valor. Muitos ainda insistem, mas a falta de apoio não só dos órgãos Escoteiros como da comunidade é fato comum. Os grupos bem estruturados não se ressentem disto, os pais são trabalhados para participar e sabem de suas responsabilidades. Eles dão sustento à continuidade em todas as áreas do Grupo Escoteiro. Ainda bem que tem chefes bem formados na escola Escoteira. Assim fica mais fácil. Mas não se iludam. Nem todos são assim.

Existe uma gama de chefes que mesmo continuando na ativa se ressentem do tratamento recebido pelas autoridades Escoteiras, e até mesmo de membros do próprio grupo. Nem sempre recebem sorrisos e elogios. Se não fizerem um pedido dentro da norma exigida pela direção para um diploma de mérito ou uma condecoração, ou outra forma de agradecimento eles nunca serão lembrados. O papel em primeiro lugar. Um telefone? Um e-mail? – Olá Chefe, obrigado por estar conosco. Isto não existe. Os que estão chegando ainda estão com aquela motivação própria de quem descobriu uma nova filosofia de vida. A partir do momento que aprendem como funciona a engrenagem da associação, começa a vontade de por o boné e sair por ai cantando a canção da despedida. Eles aprenderam que a Lei e a Promessa diz muito, mas poucos da liderança a cumprem. Sabiam que não estavam atrás de medalhas, de elogios, mas o tratamento sempre deixa a desejar. Outros acreditam que a disciplina é esta e não questionam. Alguns se escondem nos seus puros pensamentos que ajudar a juventude vale qualquer esforço e acreditam mesmo que fatos no dia a dia de sua jornada Escoteira demonstrem o contrário.

Faltam-me dados completos para afirmar os motivos que levaram chefes voluntários a abandonar o Movimento Escoteiro. O que escrevo muitas vezes me foi passado por chefes que me escreveram ou mesmo quando posto um artigo e lá esta entre comentários os ressentimentos. Estão errados? Os mais comedidos ou os mais esclarecidos sempre defendem o indefensável. Eles ainda acreditam que precisamos andar com nossas próprias pernas e vencer as adversidade. Concordo em parte. Mas para que temos uma liderança? Para que eles estão lá e foram eleitos e agora fazem o escotismo sem ao menos consultar as mudanças com seus eleitores? Valorizam somente os voluntários que dizem “Sim Senhor”? Aqueles que não concordam qual o tratamento que recebem? O voluntário é cobrado de varias formas, inventam normas, fazem dele um mortal sem palavra, pois tudo que ele precisa para ser elogiado parte dele mesmo ou da sua direção como se tudo fosse um Cartório Escoteiro onde provar a verdade está em primeiro lugar. E a Primeira Lei do Escoteiro? Não tem valor? O papel com firma reconhecida prova tudo da sua lealdade ao escotismo?

Não falo dos grupos bem estruturados. Eles tiveram a sorte de ter lideres bem formados, conhecedores, com um passado Escoteiro e sabem como agir. Mas eles são poucos, e muitas vezes fechados dentro de sí mesmo. Seus exemplos não são fáceis de seguir. Os grupos menores ou os menos estruturados vão tentando sobreviver e seus chefes lutam com tremenda dificuldade. Não é fácil começar um Grupo Escoteiro. A sede própria é um sonho para poucos. Um cantinho hoje pode ser o despejo de amanhã. Como o movimento peca por não ter credibilidade e ao mesmo tempo por falta de apoio, a exigência para desocupar a Sede Escoteira pode acontecer a qualquer momento. Nem o papel assinado pelo anterior tem valor. Vereadores não dão apoio e os Prefeitos não ligam. O escotismo não é reconhecido pelas autoridades. O Chefe se vê perdido. Busca uma ajuda que não tem. E ele então pergunta: - Onde estão nossos dirigentes ou benfeitores?

Sabemos que O escotismo não tem o apoio das autoridades politicas, empresariais e educacionais. Como a nossa estrutura não é pequena, manter tudo isto custa dinheiro, tempo e isto poucos Grupos Escoteiros conseguem. Na maioria nem mesmo o apoio dos pais eles têm. Dizem que temos como norma sermos apolíticos. Isto é bom. Mas ao mesmo tempo não temos o apoio que precisaríamos para dar aos chefes voluntários condições de conduzir um Grupo Escoteiro como ele deve ser. Em alguns casos não temos representatividade no seio da comunidade. Muitos dos nossos chefes voluntários pagam para colaborar com os jovens da comunidade. Taxas de cursos nem todos podem pagar. Pais, Mães que se aventuraram na senda Escoteira sabem que em primeiro lugar vem sua família e depois o escotismo. Mas a verdade mesmo é que a maioria paga do próprio bolso sua manutenção isto quando não ajuda financeiramente o próprio jovem.

Muitos reclamam por falta de apoio dos distritos, regiões ou mesmo pela direção nacional. A estrutura Escoteira está alicerçada em cima de um Estatuto, cuja democracia é completamente esquecida. “Lembro-me de uma parábola de Cristo onde ele dizia que muitos serão chamados, mas poucos os escolhidos”. O poder está em mãos de poucos.  Conhecemos alguns lideres pela prepotência, pela maneira de agir e tratar o seu semelhante. Muitos que não tiveram o sonho de liderança encontram no escotismo um lugar ideal para conduzir seus sonhos. Nossa disciplina é de fazer inveja. Chega quase à submissão. A mística produziu seres importantes e os mais novos os olham com respeito e humildade. Criou-se super chefes, e muitos esqueceram que somos um movimento de amadores e querem de um dia para noite nos transformemos em profissionais. Que disciplina é esta que não dá a todos a oportunidade de discordar, de sugerir e votar?

Se esta for uma razão da evasão de muitos chefes e diretores voluntários eu não sei. Não podemos ter uma direção que não pensa em ajudar e colaborar com seus voluntários. Se decretos e normas resolvessem o Brasil seria um paraíso. Que procurem de uma maneira valorizar o trabalho dos chefes em seus Grupos Escoteiros. Se não existem profissionais pagos para tentar resolver os problemas que surgem, que pelo menos escrevam, sugiram, mas lembrando sempre que cada caso é um caso e o Acre é diferente do Rio Grande do Sul. Os cursos devem ser melhor analisados. Tudo bem que hoje não somos como ontem, mas manter um pouco da metodologia Bipidiana é um dever. Repito, se no passado tudo era mais fácil, hoje me parece que precisamos de uma nova gleba de voluntários para aplicar tudo que a Escoteiros do Brasil pretende. O quase fracasso do Escotismo nas Escolas foi um exemplo que muitos já sabiam que ia acontecer. Esta frente Parlamentar até hoje foi um blefe. Precisamos mostrar nosso reconhecimento ao novato voluntário e claro o antigo também. Assim como é necessário ouvir o ponto de vista do rapaz, o mesmo acontece com os chefes.

Um Chefe meu amigo e que está no Grande Acampamento escoteiro no céu, dizia: Chefe Osvaldo é o escotismo quem precisa de você e não o contrário. Mas e então? Porque tantos lutam por uma causa tão valida, e nunca são reconhecidos por parte de nossas autoridades Escoteiras? Para tudo é preciso ser subserviente, implorar e aceitar sem poder pelo menos dizem não? Sei que poucos irão levar a sério o que aqui escrevi. Sei que poucos irão mudar ou então discordar apresentando seu modo de agir e pensar. Continuo fazendo meu dever de casa. Se outros não dão valor, paciência. Sei que cedo ou tarde ainda teremos muitos indo pertencer a Legião dos Esquecidos. A evasão é uma realidade, explicar o inexplicável não trará o retorno dos que se foram.

Agradeço a todos que de uma forma ou de outra se manifestaram com suas observações mesmo que contrárias ao que escrevi. Desejo a todos que estão na luta pelo jovem sucesso. Abraços fraternos e Sempre Alerta!
Chefe Osvaldo


terça-feira, 10 de março de 2020

Conversa ao pé do fogo. Eles estão saindo do escotismo... Por quê? – Parte III.




Conversa ao pé do fogo.
Eles estão saindo do escotismo... Por quê? – Parte III.

... – Caso tenha interesse em ler a Parte I e II elas estão postadas neste mesmo grupo ou página. Abraços fraternos.

- Levar em conta o ponto de vista do jovem. BP.

                   Quem sabe o mais importante tema que poderia ser uma das possíveis causas da saída dos jovens. Sua importância é primordial. O escotismo tem como meta a formação do jovem, e neste caso ele é o mais interessado em um programa agradável e que lhe prenda pelas suas habilidades da descoberta e do fazer fazendo. Eu não posso em sã consciência afirmar que isto não acontece, mas sei de muitos que levam a sério o programa e o método que nos foi deixado por Baden-Powell. - Se o nosso Movimento é uma fraternidade livremente aceita, e não tem caráter de obrigação, o adulto só atua com supervisão. Ele (o Escotismo) pretende fazer com que o jovem participe de uma sequência de atividades adaptadas a sua idade, exercitada principalmente ao ar livre, ajudando uns aos outros, confiando-lhes responsabilidade e assim acreditando que seu caráter se afirme. Só assim é possível que ele se torne também capaz de cooperar e liderar! 

                     Já vimos que nos países avançados, existe a prática da demonstração e a da descoberta, às atividades ao ar livre e a aprendizagem em pequenos grupos de fazer para aprender. Estas são técnicas escoteiras que conhecemos de outra forma. Quem sabe, talvez pela repetição pura e simples dessas técnicas, dos jogos e até a completa ausência do método nas atividades práticas da tropa, trouxe aos olhos do publico um desinteresse grande. Em alguns casos alguns educadores nos consideram um Movimento excessivamente infantil e nos domínios da educação somos vistos como atrasados e ineficazes. Seria isto verdade? Quando BP reuniu em 1907 na ilha de Brownsea na Inglaterra 20 jovens de diferentes meios socioeconômicos e educativos, ele trouxe uma enorme contribuição educacional que, na época estava estagnado. Assim o Escotismo veio dar uma visão mais abrangente às escolas e estas é que até hoje estão tirando partido das técnicas escoteiras de demonstração, observação e dedução, aplicando-as às suas classes. Às técnicas de aprender fazendo e tentar fazer sem saber, até descobrir o certo através do erro, sempre foram partes do método Escoteiro. Confiar no rapaz para que ele próprio seja responsável pela sua autoeducação e disciplina sempre fizeram parte do Escotismo.

                   Pensava BP que para termos o sucesso esperado, era só dar liberdade ao jovem para que ele próprio fosse o responsável pela sua autoeducação e disciplina. Dar liberdade ao espirito de competição e da aventura, através de jogos, acampamentos e excursões. Este seria o Programa Escoteiro e que hoje muitos ainda não entenderam bem o que isto queria dizer. O escotismo tem o melhor sistema de educação do mundo, afinal nós temos uma base excelente e sem similar para realizar isto: - A Patrulha! - Ali os jovens podem viver trabalhar e jogar em seu próprio grupo. Não vou me iludir e afirmar que o mundo evoluiu, a juventude já não é mais a mesma do passado. No entanto temos muitos falando pelos jovens, dizendo o que eles pensam, programando e alterando o melhor que existia para ele: O sonho aventureiro, a vida no campo e tantas mais que muitos hoje deixam no ostracismo em nome da modernidade e que acreditam o jovem prefere. Ouvir o ponto de vista do rapaz se tornou obsoleto apesar de que muitos afirmam que fazem isto. Pensando que nos últimos tempos muitas mudanças foram feitas. Em termos gerais poucos jovens foram consultados.

                   Ultimamente tenho visto opiniões diversas sobre o método Escoteiro e o programa Escoteiro. Vários pedagogos, psicólogos e tantos ilustres professores vêm no escotismo uma fonte enorme de estudo. São capazes de analisar teoricamente tudo que o escotismo precisa, dão sugestões e até mesmo fazem artigos mostrando o que precisamos para alcançar o interesse do jovem. Em palavras teóricas falam maravilhas de um novo método, calcado em posições positivas para melhorar nosso escotismo, baseados numa releitura compatível com o mundo de hoje. Muitas foram às mudanças. As defesas dos que fizeram isto foram prodigas em ter outros seguidores. Sempre em nome de uma nova tendência mundial ou mesmo calcada na nova ordem universal onde os jovens são descritos de maneiras incríveis e para isto tudo deve mudar. Os resultados não foram encorajadores. Ninguém se voltou para isto. Continuam afirmando que o mundo é outro os jovens são outros e a seara de uma nova era continuou. E os resultados? Lembro que falo em nome de mais de mil grupos no país. Cada um com sua característica. O jovem do norte não é o mesmo do sul.

                   Não é possivel fazer um bom escotismo sem confiar no rapaz para que ele próprio seja responsável pela sua autoeducação e disciplina. Se não fizermos isto então devemos nos ater a fazer um novo escotismo que não àquele que BP nos deixou. O Macpro que todos conhecem foi um programa usado pela UEB sem mesmo informar de maneira clara e objetiva até onde poderia chegar. Sei que dificilmente nossos lideres fazem pesquisas, vão saber nas bases o que os jovens querem e a não ser aqueles grupos mais aquinhoados cuja chefia tem os melhores em seus quadros, ninguém mais é procurado. Se ele prefere a tecnologia e metodologia que e jogado a cada minuto de sua vida e que aquele escotismo aventureiro não tem mais lugar na sua formação, eu prefiro ouvir dele próprio e não de adultos que estão criando situações novas para sua educação. Afinal mudamos tanto sem ter nenhuma experiência para ver se os resultados foram bons. Se existem grupos bem formados. Se o novo método e programa de agora são perfeitos. O que vejo é que muitos desistem no meio do caminho. Está na hora de repensar o programa e isto seria precedido de uma experiência em pequenas tropas e ver se o resultado da permanência do jovem melhorou.

                  Não temos dados da evasão de jovens. Nem mesmos os motivos. Cada adulto tem sua opinião, mas pesquisas nunca foram feitas. Comentam que para cada um jovem que entra um sai. Ainda não tivemos uma preocupação maior com a evasão. Parece um tema tabu, ninguém diz ninguém fala e quando muito dão sua opinião como se adivinhassem o que o jovem pensa. Não posso afirmar se o curriculum dos cursos de hoje tem esta preocupação. O que vejo é um completo esquecimento do Sistema de Patrulhas, dos acampamentos de tropas e uma preocupação constante em produzir grandes atividades nacionais, onde a individualidade se sobrepõe a equipe. Os voluntários que estão chegando pouco sabem da nossa história. Poucos conhecem de nossa mística e ou mesmo nossas tradições. Perderam os valores.

                   Muitos insistem que temos uma organização dentro do escotismo que tem dado enorme contribuição. Falo da participação dos Jovens Lideres criada pela UEB cuja finalidade é ouvir o ponto de vista do jovem. Tenho minhas dúvidas. Na maioria são jovens de 16 a 27 anos. Onde começa a formação na Tropa está não pode participar. Os resultados das discussões dos Jovens Lideres até hoje desconheço. Sei que todo programa e suas adaptações foram feitas por adultos. Ainda insisto que não estamos ouvindo o ponto de vista de rapaz como dizia B-P. Programas, atividades e outros afins são idealizados por adultos. Tenho minhas dúvidas se pelo menos metade das tropas no Brasil tem funcionando corretamente o Sistema de Patrulha, O Conselho de Tropa, O Conselho de Patrulha e a Corte de Honra. Se isto não está sendo feito poderia sim ser parte da evasão escoteira no Brasil. É mais um tema para meditar.

 Amanhã o último capítulo da série - Eles estão saindo do escotismo... Por quê? Até lá discutam, comentem compartilhem, todos precisam saber que nós os chefes também sabemos pensar e ter opiniões! – Até lá!

segunda-feira, 9 de março de 2020

Conversa ao pé do fogo. Eles estão saindo do escotismo... Por quê? – Parte II




Conversa ao pé do fogo.
Eles estão saindo do escotismo... Por quê? – Parte II

... – Continuação da série de publicações sobre o tema da evasão escoteira. Se você não leu a Parte I e gostaria de ler ela foi postada aqui nesta pagina.

Apresentação pessoal. Garbo e boa ordem.
- Levamos dezenas de anos para incutir na população brasileira o que somos e como somos. Muitas frases ficaram celebres e até hoje citadas por boa parte da população e até na imprensa. Vejamos algumas: Faça como o Escoteiro, ele têm uma só palavra. Os Escoteiros fazem diariamente uma boa ação, isto é uma norma de conduta. Esteja todos os dias Sempre Alerta, não fique desprevenido. Faça como os Escoteiros, eles estão sempre preparados. Seja como um Escoteiro, educado cortês e amigo. Melhore sua aparência, faça como um garboso Escoteiro. Era comum ver os jovens em seus uniformes a saírem para os campos, ou mesmo desfilando em uma solenidade qualquer na cidade. Onde passavam eram reconhecidos e aplaudidos. O Chapelão se tornou um símbolo logo desfeito por diversos motivos. No passado as dificuldades eram inúmeras para se adquirir uma peça Escoteira, mas sempre se via todos muito bem uniformizados. Os chefes eram exemplos. Fazia gosto ver o porte, o orgulho em estar com um uniforme Escoteiro. Na própria direção nacional os dirigentes eram perfeitos em seus uniformes. Quem já teve um LP do Trio Irakitan vai se orgulhar em vê-los de uniforme. Estão perfeitos nas suas calças curtas. Gostaria de ver um cantor ou cantores famosos de hoje interpretando músicas Escoteiras e vestindo nosso uniforme ou vestimenta.

Aos poucos foram entrando outros que não se solidarizaram com a calça curta. Começaram a vestir a comprida. Olhar para eles era ver que destoava dos demais. Mesmo assim tínhamos no seio da comunidade um enorme apoio. Éramos reconhecidos pelas autoridades educacionais. Tivemos um ministro da república como Escoteiro Chefe, Dr. Guido Mondim. O falecido Ex-Presidente José de Alencar se orgulhava do escotismo que participou. Uma época de grandes personalidades assumindo a liderança Escoteira e jactando-se de terem sido Escoteiros. Onde anda um Almirante Benjamin Sodré? Ou um Arthur Basbaum Proprietário das Lojas Americanas e Escoteiro Chefe? Ou mesmo o Doutor Francisco Floriano de Paula um líder nato, que fez para o escotismo o que muitos grandes homens podiam fazer. Poderia citar outros tantos e cada estado da federação tem um deles para lembrar. Foi uma época em que havia orgulho nos corações Escoteiros. Nunca se colocaria um lenço sem estar com todas as demais peças do uniforme. Nunca se saia para qualquer atividade sem estar devidamente uniformizado. Não importava onde e como. Que fossem acampar excursionar, fazer atividades aventureiras longínquas, o uniforme vinha sempre em primeiro lugar.

Poderíamos ficar de camiseta nos acampamentos nos tempos livres e sem o lenço, mas com as demais peças do uniforme. Aprendíamos a lavar e passar a moda Escoteira. Nada servia de desculpa na hora das inspeções de campo. Unhas, cabelo, sapato engraxado, tudo era olhado. Época que todos tinham nos bolsos lenços e um pente pequeno. Todos tinham um orgulho da sua vestimenta ou uniforme. Infelizmente ou felizmente a modernidade tão apregoada começou a ter seu lugar ao sol. Criou-se o traje que antes era chamado de uniforme social. Do social que deveria ter sido veio o desleixo por parte de alguns. Vestiam-se as cores que cada um gostava. A cobertura era qualquer uma, uma verdadeira confusão de estar ou não portando um uniforme Escoteiro. Havia discussões e discussões de escotistas que devíamos mudar. Sempre os novos que entravam e desfiavam uma serie de motivos para mudanças. Um mote em termos só postura e sermos iguais.

Nunca se viu alterações nos Escoteiros do Mar e do Ar. Eles preservam a memoria e a tradição. Alguns anos atrás foi criado o vestuário. Muitos apostavam neste novo uniforme. Havia inclusive comentários que muitos jovens não se aproximavam do escotismo por achar o caqui démodé. A vestimenta serviria para dar uma nova apresentação condigna do Escoteiro e da Escoteira na comunidade. Se tudo tivesse sido feito as claras, com consultas e transparência, e se tivéssemos uma perfeita uniformização poderia ter sido uma boa ideia. Mas fizeram tudo sem consultas, esconderam a sete chaves sua forma e confecção. Vários tipos foram criados. Até hoje não entendo por que disto. Se temos uma região fria e outra quente bastava mangas curtas e compridas, calças idem. Ainda me pergunto por que aquele desfile de modas para apresentar uma vestimenta com mais de dezesseis modelos? Seria uma forma bombástica da implantação de uma nova era?

                      A UEB fez e faz de tudo para que esta vestimenta/vestuário seja levada a sério. Vejam o que disse um formador, um Velho Lobo calejado por anos e anos de serviços a União dos Escoteiros do Brasil sobre ela: - Estão saindo adultos e crianças! Sabe qual e o nosso temor? Que parem de entrar... Se os pais olharem os Escoteiros com o vestuário novo como exemplo cito a Missa Escoteira no mês anterior, não irão permitir que os filhos participem. Vi ali uma bagunça generalizada. Cada um mais “esculachado” do que o outro. Vão assim acabar com a nossa imagem. Se os chefes não derem exemplo e não orientarem explicando a diferença fundamenta da ordem vai virar bagunça! Não são palavras minhas. Meus comentários já foram ditos em outros artigos. A UEB não poderia ter sido mais explicita na sua norma de uso? Já que não levou em conta os demais associados na implantação poderia ser mais comedida nas escolhas pessoais. O que está feito não tem volta, mas ainda dá tempo para corrigir. Compete aos dirigentes fazerem isto. Suprimam esta quantidade de peças absurdas. Determinem como se deve se apresentar os associados com a vestimenta. Calça curta com meia curta de diversas cores e coberturas a escolher não explicita o orgulho do uniforme Escoteiro.

                      Levamos anos e anos para criar um hábito de comportamento com o caqui. Um uniforme que até hoje é reconhecido de norte a sul do Brasil. A maioria dos novos associados aderiram à vestimenta/vestuário. Queira ou não ela já é o traje oficial da UEB. Mas do jeito que ela é apresentada eu tenho minhas dúvidas se em vez de arregimentar jovens e voluntários não os está afugentando. Não tenho dados, mas foi a partir da implantação da vestimenta que houve uma debandada de muitos chefes antigos do movimento. Será que podemos nos orgulhar quando vamos a uma atividade social para se apresentar a sociedade brasileira, como eles dirão com esta parafernália de escolhas pessoais? Muitos diferentes um dos outros? O que eles irão pensar de nós? Por outro lado eu fico em dúvida se ela aguenta uma forte atividade aventureira de jovens escoteiros ou seniores em excursões e acampamentos. Lembremos que estamos perdendo para outros folguedos, outras organizações, outras formas de diversão de muitos jovens que abandonam as fileiras escoteiras. Um país com a nossa dimensão, com mais de duzentos mil habitantes não pode ficar em último lugar proporcionalmente em número de membros praticantes do escotismo nas Américas. Não se trata de uma competição e nem tampouco uma corrida de primeiro lugar. Afinal dos dez países que iniciaram o escotismo fora da Inglaterra em 1910, o Brasil está incluído. Temos que pensar na nossa autopreservação.

Esqueçamos o mote que o lugar apropriado para discordar e apresentar soluções são nas Assembleias. Esqueçamos o mote que sempre a culpa é dos chefes. Isto é balela. São poucos que realmente tem voz e voto. O caminho percorrido até agora não foi dos melhores. Eu sempre gosto de repetir o que disse John Thurman no seu artigo os sete perigos. (escrito em 1955). Ele foi durante muito tempo Chefe de Campo de Gilwell Park: - Os únicos capazes e possíveis de pôr o escotismo a perder são os próprios chefes e dirigentes. Se nos tornarmos arrogantes, complacentes e nos fazermos passar por demasiado autossuficientes, então - e apenas com essas coisas - poderemos arruinar o Movimento.

- O Escotismo é algo sério, contudo, uma das grandes coisas é a alegria de participar dele, isso tanto para os dirigentes como para os rapazes e moças. Em alguns países, há o perigo de se pensar em termos educacionais ou psicológicos e, enquanto fazemos isso, perdemos muito da nossa condição de "amadores". E vocês todos sabem que como amadores somos bons, mas como profissionais somos péssimos. Somos uma parte complementar na vida do rapaz; complementar na escola, dos pais, da igreja, e, mais tarde, do trabalho.

Proximamente mais um capítulo da série - Eles estão saindo do escotismo... Por quê? Até lá discutam, comentem compartilhem, todos precisam saber que nós os chefes também sabemos pensar e ter opiniões! – Até lá!

domingo, 8 de março de 2020

O dia Internacional da Mulher. A você menina, moça, mulher escoteira.




O dia Internacional da Mulher.
A você menina, moça, mulher escoteira.

                       Hoje fazemos nossa homenagem aquelas a quem devemos a vida e nossa criação. “A Mulher”! Dizem que o dia 08 de março é desde 1975 comemorado pelas Nações Unidas (ONU) como o dia internacional da Mulher. A história conta que em 1913 as mulheres russas observaram seu primeiro dia internacional da Mulher no último sábado de fevereiro (pelo calendário Juliano, usado na Rússia). São tantas historias como a que em 1903 profissionais liberais norte-americanas criaram a Women’s Trade Union League. Uma associação com objetivo de ajudar todas as trabalhadoras e exigirem melhores condições de trabalho. Foi também em 1917 que em São Petersburgo (Rússia) desencadeou uma greve na qual as mulheres desta cidade fizeram diversas exigências. Dizem também que este evento foi o estopim da greve geral que marcou o início da Revolução Russa.

                       A história é prodiga em atos sublimes em que as mulheres do mundo inteiro fizeram realizar pelos seus direitos. Ainda estamos atrasados e muito em reconhecer o valor da mulher em nosso mundo de hoje principalmente no Brasil. Leis foram criadas, a imprensa falada escrita e televisada noticia quase todos os dias fatos em que elas sofrem e não tem direito assegurados. Muitas ainda são subjugadas, maltratadas, e com direitos diferente de nós homens.

                     No escotismo tivemos algumas mulheres que fizeram pelo movimento tanto como muitos homens e que alguns nem lembram mais seus valores. Poderia dizer sobre Lady Olive Baden-Powell, sobre Agnes Baden-Powell, sem esquecer-se da famosa romancista Vera Barclay que deu uma enorme colaboração a Baden-Powell. Nos dias atuais são tantas que não podemos deixar de lado outra escoteira famosa: - Joanne Kathleen Rowling a famosa autora da saga Harry Potter.

                    Em países mais adiantados que pratica o escotismo a participação das mulheres é enorme. Até mesmo Kate Middleton a duquesa de Cambridge foi escoteira. Mas fiquemos aqui no Brasil. São tantas que poderia começar pela Chefe de Lobinhos e Professora emérita reconhecida no mundo inteiro. Estou falando de Maria Pérola Sodré (hoje morando no céu). Tive a honra de fazer um CAB e um IM Lobo sob sua direção. Temos muitas outras famosas, Leda Nagle apresentadora, Maria Bethânia cantora, Maria Clara Machado escritora (bandeirante) Marieta Severo atriz (bandeirante) e Adriana Birolli que deu seu testemunho em redes de TV uma das poucas que fez um belo marketing do nosso amado escotismo.

                   Mas não podemos esquecer estas formidáveis mulheres que fazem no seu grupo um papel inesquecível pela juventude não só no Brasil, mas no mundo. Enumerá-las é impossível. Elas trabalham, cuidam dos seus lares, dos filhos e ainda tiram um tempo para todos os sábados estarem presentes a escoteirar, a lobear ou mesmo Pioneirar. O escotismo seria outro sem a presença delas. Desde áureas épocas e principalmente em 1984 quando surgiu a Coeducação no Escotismo Brasileiro, o movimento deu um salto em qualidade e quantidade. O escotismo deve muito a todas as mulheres. São elas o baluarte da formação dado aos jovens na metodologia Badeniana.

                  Sem puxar a sardinha não posso esquecer-me da minha linda Célia. Escoteira, bandeirante, Akelá e minha companheira em jornadas não só escoteira, mas pela vida que passamos juntos. A todas vocês, lobinhas, escoteiras, guias, pioneiras, chefes e dirigentes, meu Fraterno Abraço. Tiro o meu chapéu e jogo no ar dizendo: - Bravôo! Anrê! Sem vocês não seriamos nada do que somos hoje!        

   Para você Lobinha, para você escoteira, para você guia e pioneira, para as chefes e dirigentes que participam hoje ou participaram ontem do Movimento Escoteiro um Bravôo, um Anrê, um desejo de que este dia seja o começo de uma nova era para o Escotismo no Brasil e no Mundo. Nosso Melhor Possivel, nosso Sempre Alerta e nosso Servir!

sábado, 7 de março de 2020

Conversa ao pé do fogo. Eles estão saindo do escotismo... Por quê? Parte I.




Conversa ao pé do fogo.
Eles estão saindo do escotismo... Por quê? Parte I.

... - Há tempos fiz uma serie de artigos sobre o motivo porque muitos estão deixando o Movimento Escoteiro. Pode ser que meus comentários estejam superados. A UEB até hoje não tem uma politica abrangente sobre o tema e pelo que eu saiba não comenta sobre a evasão. Não sei se para ela é vantagem esta deserção, pois logo outros aparecem aceitando a nova metodologia imposta por ela. Quando publiquei este artigo pela primeira vez foi um dos mais comentados e lidos em sua época. Posteriormente desdobrei em quatro, mas como sempre só para informar. A UEB não dá respostas. Sempre tem alguns na linha de frente para defender, explicando o inexplicável. Uma pena!

“Ele entrou para o escotismo pensando que seria um aventureiro, um explorador, um herói que sempre sonhou. Assustou quando viu que não era. Tudo era igual a sua casa, a sua escola e ele tinha uma internet e um celular melhor do que o que viu ali. Partiu para outra. Ali não era o seu lugar”. Seus amigos de bairro tinham programa melhor.

                          Porque estão saindo? Se isto acontece tem motivo. Mas quais? Até hoje ainda não temos uma politica de contenção para diminuir esta evasão. Nem mesmo sabemos quais os reais motivos. Temos sim bons chefes que com sua experiência apontam diversos fatores. Vejamos o que esta evasão produz de mal: - A qualidade não cresce a quantidade idem. Baden-Powell pensava que precisaríamos segurar o jovem por pelo menos dez anos. Uma utopia nos dias de hoje. A evasão é tão grande que mais parece um sistema rotativo de entra um sai outro. À medida que a juventude cresce, passa a integrar a sociedade como um todo. Se aqueles que passaram pelas fileiras Escoteiras e não tem boas lembranças, dificilmente serão os que irão fazer um proselitismo das vantagens educacionais do escotismo. Sabemos que não somos reconhecidos pelas autoridades em nosso país. Ainda não aprendemos a mostrar nossa força isto pensando se há temos. Poucos estão devidamente preparados para em poucas palavras, dizer o que somos e o que pretendemos.

                         Todos acreditam na nova sistemática dos programas copiados pela Escoteiros do Brasil, mas sem ter uma visão se realmente é isto que precisamos. O que éramos a vinte anos comparado nos dias de hoje não temos nenhum dado comparativo para ver se está dando certo. Cada um tem sua maneira de interpretar vendo o que acontece em seus Grupos Escoteiros. Quem perde com isto é o Movimento Escoteiro. Sei que muitos poderiam dizer o porquê não crescemos, o porquê não existe mais aquela procura do passado e teremos outros bem formados e com exemplos pessoais para dar. Sem entrar aqui no mérito do conhecimento, ou da afirmação que está tudo bem, irei apresentar em quatro artigos sucessivos, minha opinião vivenciada no escotismo que conheci. Não pretendo entrar em desacordo com nenhum dos que discordam, mas lembro de que só iremos estancar esta sangria quando nos dispusermos a analisar, pesquisar, conversar e aceitar sugestões dos diversos núcleos Escoteiros do país. Isto englobaria desde o mais humilde grupo até a Direção Nacional. Vejamos apenas alguns motivos no meu modo de pensar da evasão escoteira:

- Programa. Ele não atinge os objetivos para motivar os jovens.
- Apresentação pessoal. A vestimenta não trouxe os resultados esperados.
- Formação e qualificação dos Chefes. Os cursos hoje estão mais preocupados em temas não técnicos e a metodologia Bipidiana foi substituída pela modernidade.
- Ouvir sempre o ponto de vista do jovem. Ele hoje não tem voz e voto nas alterações feitas pelos dirigentes, inclusive apesar de que muitos dizem o contrário.  

               Abordarei proximamente em cada tema minha opinião sem fugir dos padrões atuais. Não basta, no entanto escrever sem que haja uma discussão por todos que participam do movimento. Para isto uma pesquisa de opinião de âmbito nacional teria muita validade para se chegar a um meio termo. Não me considero um expert no tema. O que deixo transparecer foi aprendido por uma vida dedicada ao movimento. Deste os sete anos até hoje. Sem motivar, valorizar, ouvir e elogiar não teremos uma participação efetiva. Se analisarmos melhor cada caso é um caso. Cada Grupo Escoteiro tem sua personalidade própria. Sem entrar no mérito deixo a análise dos leitores. A charge em anexo vale mais que mil palavras.

O QUE ELE PENSOU QUANDO ENTROU NO ESCOTISMO?
Ele pensou que seria assim: Diferente de sua escola, diferente do que fazia com seus amigos do bairro, ele poderia ter aventuras que nunca teve, aprenderia no campo a vida de um explorador. Iria colocar uma mochila e sair por aí a excursionar. Iria acampar muitas vezes, iria dormir em barracas, ver a estrela no céu. Iria construir Ninhos de Águia, escada de cordas, iria subir e descer de uma árvore por nós incríveis que iria aprender. Atravessaria rios e vales em Falsa Baiana, em Comando Crow. Aprenderia a fazer pontes, jangadas, iria explorar cavernas, bosques, montanhas e tantos mais. Iria correr pelos campos, ver pássaros incríveis, seguir pistas na floresta, descobrir uma nascente, pescar um belo peixe, e com sua bandeirola iria enviar mensagens por enormes distâncias, o Morse à noite com sua lanterna iria brilhar, e os jogos especiais? Ele um índio ou um soldado? Que bela maquiagem faria. Os famosos boina verdes seria pé de chinelo perto dele. Iria se preparar para o negrume da noite, acender um fogo, pular uma fogueira e cantar! Representar com seus amigos, contar uma bela história. Iria aprender dezenas de nós Escoteiros e marinheiros. Iria aprender a seguir o rumo, dominar uma bússola, ler mapas e partir para grandes atividades aventureiras. Teria seu cantil para beber água da fonte, teria sua faca mateira. Iria aprender a usar seu facão, seu canivete e quem sabe gritar alto: - Madeira!

PORQUE ELE DEIXOU O ESCOTISMO?
Não foi o que pensava. Tempo demais na bandeira, tempo demais a ouvir o Chefe falar. Monitor mandão, sala com cadeiras e ficar sentado vendo chefes escrevendo, desenhando sinais de pista. Tudo igual ao que ele fazia todos os dias na escola. Um Monitor a sua frente ensinando sinais, nós, tempo demais. E os jogos? Sem graça, ele preferia um racha de futebol. Pelo menos se divertiria. Uma patrulha desanimada, poucos frequentando, a maioria faltando ou saindo. E ele se lembrou do seu Professor a exigir silencio e atenção. E as filas? Iguais as que fazia na escola todos os dias esperando uma ordem de um adulto demorada. Lembrou-se das suas viagens pela internet, do seu celular, e pensou que tudo ali era igual. E os sorrisos, os elogios e os abraços? Quase nenhum. Queria fazer a promessa, mas como demorou. Chegou afinal à conclusão que ficar com seus amigos do bairro era melhor.

                  Pois é, a charge diz tudo. Pode ser um dos principais motivos da saída do Escoteiro, do Chefe que não teve respaldo, do diretor que nunca foi elogiado. Não vou dizer do antigo programa de classes que foi suprimido e substituído. Ele poderia ter continuado com suaves modificações que o tempo se encarregaria de mostrar. Pelo menos era mais aventureiro. Mostrava como viver a vida de um mateiro, um explorador. O que aconteceu foi que bruscamente mudaram. Ninguém foi consultado. A UEB não se manifesta. Os cursantes não aprendem como agir. Sei que muitos se escudam a dizer que os tempos são outros. É mesmo? Perguntaram ou deram ao jovem a oportunidade de ver e experimentar os dois lados?

                      Na parte II irei abordar outros temas. Que cada um que se preocupa com a Evasão analise, comente discorde o que achar melhor. Não sou o dono da verdade, a única coisa que posso afirmar é que a evasão no passado não foi tanta assim. Sei dizer que no passado era melhor, lembro que era comum as patrulhas permanecerem juntas por anos e anos. Hoje não sei. Fraternos abraços.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Lendas Escoteiras. A lenda do Pássaro Preto.




Lendas Escoteiras.
A lenda do Pássaro Preto.

“Tudo em vorta é só beleza sol de abril e a mata em frô
Mas assum preto, cego dos óio não vendo a luz, ai, canta de dor”.
“Assum Preto veve sorto, mas num pode mais avuá
Mil vez a sina de uma gaiola desde que o céu, ai, pudesse oiá.
Assum Preto, o meu cantar. É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor que era a luz, ai, dos óios meus
Também roubaro o meu amor que era a luz, ai, dos óios meus”.
Um conto em homenagem aos pássaros pretos vitima das maldades dos homens.
Musica e letra de Humberto Teixeira/ Luiz Gonzaga

             Zito Francesco não era faroleiro e nem mal educado. Almoxarife na Patrulha Gralha fez história. Uma história que até hoje é contada pelos Escoteiros do sertão das Gerais. Poderia dizer que Zito Francesco era um cavalheiro de maneira tal que alguns se incomodavam. Mas ele tinha um defeito, defeito que muitos jovens ainda não aprenderam que fazer o bem sem olhar a quem é vida dentro do Espírito Escoteiro. Tinha um hobby adorava ouvir o cantar dos pássaros. Sabia de cor e salteado quando algum cantava. Ninguém mais se surpreendia quando em marcha de estrada ele parava e dizia: Ouçam, é um Rouxinol da montanha! A Patrulha batia palmas. Se eles conheciam o cantar dos pássaros foi graças a Zito Francesco. Conhecia o canto do Uirapuru, do Rouxinol, do Curió, de um Sabiá Laranjeira ou um Pintassilgo. Ficou dias na Mata do Roncador a procura de um Inhapim, que diziam estar em extinção. Depois foi para a Mata do Azulão e ficou lá dez dias só para ouvir o Tuiuiú cantar.

            Todos gostavam muito dele. Seus pais sentiam uma vibração boa quando estava à família toda reunida. Não foi um Escoteiro que fez carreira. Mal chegou a Segunda Classe. Poucas especialidades. O cantar dos pássaros o prendiam mais que o sonho de ser um Correia de Mateiro ou mesmo um Cordão Dourado. Vieram as chuvas de verão e os acampamentos diminuíram. Zito Francesco não se incomodava. Ele sabia onde encontrar seus pássaros cantadores. Gostava da chuva, e elas lhe faziam muito bem. Ele sabia que logo viria à primavera e era a época onde os pássaros cantavam melhor. Quando passava mochilado, um bastão um bornal e sua faca escoteira, com seu Chapelão torto de lado, Todos sabiam que ia para a Mata do Jaú. Dois ou três dias lá vinha ele sorrindo e imitando algum pássaro que ouviu por horas e dias.

             A história que aconteceu é difícil de explicar. Juan Maneco o Monitor contou que ao passar em frente à Barbearia do Fagundes uma das poucas existentes em Barra da Garça, viu uma aglomeração de gente na porta. Assustou quando ouviu um canto triste de um Pássaro Preto. Triste, choroso, aflito em sua gaiola azul a olhar para o nada. Zito Francesco viu os seus olhos opacos, sem destino, com dois buracos negros como se tivesse sido furados, sem olhar para ninguém. Ele estava cego. Seus olhos ficaram marejados de lágrimas. Era penoso, era angustiante ver que existia alguém capaz de furar os olhos de um lindo pássaro como aquele só para vê-lo cantar diferente. Zito Francesco não ficou ali a ouvir o cantar do Pássaro Preto. Foi para casa penalizado e chorou noites seguidas. Ficou dias sem falar com ninguém. Na reunião do sábado todos estranharam sua tristeza. – O que foi Zito? Ele não disse nada. Se coração doido pela maldade que fizeram ao Pássaro Preto.

             Lembrou-se do Chefe Zezé quando disse que matar alguém é tirar tudo que ele tem e o que ele poderia ter um dia. O Pássaro Preto perdeu tudo que tinha ao perder a visão e nunca mais teria nada na vida. Seu cantar era choroso por não poder mais ver a floresta, as campinas e as águas cristalinas do Riacho dos Anjos. Ele agora nunca mais poderia voar pelos céus. Uma tarde a mãe de Zito Francesco foi à casa do Monitor a procura dele. Sumiu e nem avisou aonde ia – Não sei Dona Mercedes. Ela procurou o Delegado Tonhão. Cidade pequena impossível sumir assim. Uma semana, um mês, dois três. Zito Francesco o Escoteiro nunca mais apareceu. Quem sabe estaria ligado ao sumiço do Pássaro Preto do Barbeiro Tobias? Ninguém sabia explicar. O pássaro desaparecera da noite para o dia de sua gaiola azul.

               Enfim a vida passa, as nuvens passam, e as histórias continuam a ser contadas. Muitos juraram que o viram com o Pássaro Preto na Floresta Negra. Reviraram a floresta e nada. Outros estranharam porque uma nuvem de pássaros pretos saia pela manhã e voltava à tarde para a Floresta Negra. À noite ninguém se arriscava a entrar lá. Histórias, ah! Quantas histórias fizeram de Zito Francesco.

              Veio o outono e a patrulha Pico da Neblina passou por Barra da Garça. Seguiam para o Pico do Jaú acampar com uma Patrulha desta cidade. Ficaram uma noite na cidade. À noite na sede escoteira outras patrulhas se juntaram a eles e ficaram noite adentro contando causos e causos. São coisas de Escoteiros quando se encontram pela primeira vez. Foi Neco Sartano Sub Monitor da Gralha quem contou a história de Zito Francesco. Dois anos sumido. Evaporou-se. Nunca mais ouviram falar dele. Corria um boato que ele virou um fantasma da Floresta Negra. A conversa foi até lá pelas tantas. Dormiram no salão da sede. Bem de madrugada partiram. A patrulha decidiu passar pela Floresta Negra para tirar tudo a limpo. Tem fantasma? Vamos lá!

              Tinham tempo. Perder um ou dois não faria diferença. Partiram cedo. Tralhas amarradas nas bicicletas e lá foram eles. Após o Morro do Sultão avistaram a Floresta Negra. Não era grande, mas era linda. Montaram um acampamento na clareira do Sargaço. Era notável o silencio da floresta e nenhum cantar dos pássaros nativos. Quando a noite chegou ouviram um pio angustiado de um Pássaro Preto. Choroso, plangente e tristonho se fez ouvir. Ficaram estáticos. Ninguém falava nada. Milhares de pássaros pretos começaram a cantar acompanhando a melodia triste de quem já não enxergava mais. Foi então que viram um vulto brilhante e logo desapareceu. Devia ser Zito Francesco. Assustados nem dormiram naquela noite e partiram tão ao amanhecer. De novo aquele silêncio de quando chegaram. Ninguém dizia nada e pedalando não viram um menino com um pássaro nos ombros seguindo suas pegadas para onde foram.

              Nunca mais esqueceram aquela noite. Nunca esqueceram o canto de morte e choroso. Seria Tiger Joy o pássaro Preto cego? Ou seria Zito Francesco que incorporou o pássaro para poder sentir sua dor? Ninguém soube explicar. A lenda foi contada por muitos anos. Verdade ou não, isso aconteceu no passado. Hoje não sei.  

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Velhos escoteiros... Para que servem?




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Velhos escoteiros... Para que servem?

Dei um salto no tempo... Cheguei à terceira idade, e o pior cheguei como Escoteiro. Isto é bom ou é ruim? Platão na sua sabedoria escreveu que devemos temer a velhice, porque ela nunca vem só. Bengalas Chefe Vado são provas de idade e não de prudência. Pois é, mas adoro minha bengala, ela me abre alas, me dá privilégios e ninguém se incomoda quando espero no Posto de Saúde, ou no pronto socorro eu posso dormir sentado escorando nela sem ninguém para me acordar. Leonardo da Vince que como eu ficou velho me disse em um acampamento: Vado Escoteiro o conhecimento torna a alma jovem e diminui a amargura da velhice. Colhe, pois, a sabedoria. Armazena suavidade para o amanhã. – Ele já naquele século devia imaginar que um dia teríamos o Google para dirimir dúvidas, ensinar, lembrar e recordar frases dele e de diversos sábios do passado.

Mas estou ficando cada dia mais esclerosado, decrépito, cocoroca e caquético. Como dizia meu compadre Chefe Wander hoje lá no céu: “Chefe Vado tem gente que gosta”... Ele se referia aos Chefes que de uma maneira geral diziam sempre o que o jovem quer o que devemos dar a ele e coisa e tal. Ele tem razão. Alguém perguntou? Ouviu eles mais que falou? Que adianta martelar que são os jovens a razão de ser do escotismo? Que adianta expressar, exprimir, cavaquear aos ventos do sul, do norte, do este e do oeste que eles podem dizer o que é bom, o que não é e o que gostariam de fazer? Não condeno afinal hoje o escotismo é outro. Moderno, novas técnicas de educação e coisa e tal. Já deve ter alguém de alto coturno a escrever como erudito pensador pedagogo suas novas teorias da formação escoteira segundo ele e não Baden-Powell. E eu um velhote escoteiro ultrapassado que um dia foi lobo/escoteiro/sênior/pioneiro/Chefe e o diabo a quatro, sou um peixe fora d’água na nova metodologia que trazem os novos tempos modernos.

Jacques Rousseau na calada da noite na subida do Morro da Onça Pintada sussurrou ao meu ouvido: - Vado Escoteiro, na juventude deve-se acumular o saber, na velhice fazer uso dele. – Bonito isso! A Infância é a idade das interrogações, a juventude a das afirmações e a velhice a das negações. Fico olhando de soslaio na janela das redes sociais onde o escotismo moderno vai parar. Sem ofensas meu nobre amigo Chefe, arauto professor e erudito pensador das novas técnicas de ensino e formação educacional da juventude. Que não me venha Gabriel Garcia Marques me dizer que o segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão. Pode ser...

Mas sem desmerecer os “çabios” escoteiros da atualidade, mexo, sacudo bamboleio pensativo se eles tem razão. Perscruto no meu passado se haviam tantos chefes que me ensinavam, me adestravam, faziam palestras, mostravam seus saberes aprendidos ou no que fizeram nos seus tempos ditosos no escotismo. Será que eles podem afirmar que tudo que disseram os resultados foram surpreendentes? Quantos jovens que viveram escotismo por vários anos hoje sacodem seus velhos tempos vociferando que valeu? Mas e a porta do marketing que hoje quase não existe, a volta da evasão que bate solta nas Unidades Locais (puxa! Antes era Grupo Escoteiro, agora é UL. Bom demais!). Será que o jovem é tão servil assim? Aceita o que lhe impõe, não sabe o caminho a seguir, converge sempre na trilha do Chefe e ninguém lhe disse que se um segue um cego cai no buraco e outros também vão cair?

Estes pensadores dos velhos tempos não me deixam descansar. La vem Marcel Proust me afirmar que acontece com a velhice o mesmo que com a morte. Alguns enfrentam-nas com indiferença, não porque tenham mais coragem que os outros, mas porque têm menos imaginação. Batuta o pensador. E eu um reles chefete enfiado na idade que dizem da razão, me escondo atrás daquele menino, que no alto de sua sabedoria, saiu e voltou a sua velha Patrulha radicada por anos no bairro onde mora. Lembro-me dele sorrindo e pensando: Aqui eu tenho voz e voto! Ele sabe que ali é melhor que sentar em cadeiras, ver o quadro negro e um Chefe falando, e falando e falando! Perguntei a ele e me respondeu: - Chefe Vado Escoteiro, cansei, falam demais, se mostram demais. Nem fotos nossas eles tem para avultar. Tem sim deles, dos cursos, das insígnias, das promoções, das festas de adultos voluntários, uma plêiade só deles afinal Chefe, eles precisam disto. Muitos não foram escoteiros e aqui é o lugar deles para escoteirar...

Não me esqueço de antigos chefes que conheci que me diziam: - Não faça se eles podem fazer; Deixo-os caminhar com as próprias pernas, ensine aos lideres e os lideres que se virem com os demais, desde é claro que seu olho passeia nos tempos de antes e no depois. Não gosto de magoar e nem mostrar que sou um professor. Sinceramente sou um zero a esquerda pedagogicamente. Gosto do velho mote Badeniano: - “Só se aprender a fazer fazendo”. Estes supimpas inventores da metodologia moderna precisam ver para crer... Se deu certo! Piso no meu direito com o esquerdo (quase caio ao chão), fazer experimentos com jovens? E se der errado? De quem é a culpa? Alguém será levado aos tribunais da razão?

Não adianta, abro uma página lá está o chefão, abro outra e lá vem muitos chefões. Bolas! E as fotos dos jovens? Eles existem ou não existem? Tem fotos de acampamentos, atividades mil, um sorriso, uma vontade de dizer: “Amo você escotismo”, afinal só os adultos de hoje sabem o que é melhor para os jovens? Nem me venha com seminários, Indabas, assembleias para discutir sobre eles se não se dignaram a ouvi-lo se é isto que eles querem. Nem vou falar do sonho escoteiro, do herói da selva, dos bandeirantes exploradores do Brasil. Nem vou falar que eles ainda entram no escotismo esperando ter voz, aprender fazendo, morando na floresta, sorrindo, batendo pratos, lavando panelas, pulando no riacho e gritando a Deus e ao Mundo! – “Isto é bom demais”.

Mas sei que vem o retorno. Irão dizer que estou velho, esclerosado, que estou enganado e que meu escotismo não foi melhor. Engano sei que hoje muitos acham que o seu é o melhor. Agora eu só pergunto quantos jovens você tem em sua alcateia, sua tropa escoteira, sua tropa sênior com pouca evasão? Quantos alcançaram o Cruzeiro do Sul, o Lis de Ouro, o Escoteiro da Pátria e a Insígnia de BP? Quantos pergunto, e não é um ou dois por ano, pois isto é minoria. Temos aqui nas redes sociais um plêiade de bons chefes, que demonstram seus conhecimentos nas diversas duvidas que surgem, alguns eruditos no que diz BP em seus alfarrábios, será que toda essa sabedoria tem lugar em suas sessões?  

Como dizia o humorista João Canabrava, fecho a conta e passo a régua. Paro por aqui. Não antes de ler Sêneca que na calada da noite na subida do Pico dos Marins bateu nas minhas cotas e disse: - Vado Escoteiro, quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a. Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem. Mesmo quando tenha alcançado o limite extremo dos caos, estes ainda reservam prazeres. E viva Marco Aurélio, que ninguém sabe onde foi e onde agora deve morar!

terça-feira, 3 de março de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro “Gagá”. “A morte lhe cai bem”.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro “Gagá”.
“A morte lhe cai bem”.

             Juro por Deus que não sei como fui parar em Curitiba. Dizem que é uma linda cidade, mas o frio lá é de lascar. Meu pulmão reclama e diz que vai parar de me dar ar para respirar. Mas lá estava eu, na sede da UEB, ou melhor, EB (até hoje não sei por que da mudança, o U era União e como apareceram outras associações Escoteiras não bem vindas, não havia mais razão de ser União, ou existe outra explicação?) – Bem pelo menos não fui de boa vontade. Detesto empáfia, corro de vaidade e soberba. Altivez arrogância e presunção eu passo longe. Não que lá na sede central da EB tem gente assim. Soube que tem muita gente boa, trabalhadora e honesta. Afinal é a terra do Moro um juiz que hoje é ministro e que moralizou o Brasil. Continuando, não fui por cortesia. Fui obrigado. Ameaçaram matar meu papagaio meu louro que amo e adora as empadinhas da Célia se não acompanhasse os dois profissionais escoteiros que trabalham lá. Eram jovens simpáticos, não os meus tipos de Chefe, mas dava para o gasto. Um deles com um bastão maior que o meu e o outro com seis apitos pendurados no pescoço e oito tacos enfiados em um cadarço. Se ele começasse a apitar seria um inferno na minha rua.

             Com a dinheirama que eles tem em caixa nem de avião fomos. Riram na minha cara dizendo: - Avião só os diretores internacionais e você é um reles chefinho velho esclerosado, senil caduco e abilolado. Levaram-me em um fusca Velho, verde e amarelo que queimava óleo “prá dedéu”. A viagem foi um inferno. Levei meu aparelho de inalação e queria a toda hora parar em um posto para inalar e ir “pru miguê”. Eles achavam que eu estava fazendo pirraça. Meus aparelhinhos pulmonares não ajudavam. Enfim dois dias de viagem para fazer 400 quilômetros. Fusca é fusca e eu já tive um, mas aquele era um fusca de araque. Achei a sede nacional bonita. Bem cuidada. Pudera a dinheirama entrava a rodo. Eu sabia das taxas de tudo. Perguntei se havia taxa para entrar (eu estava duro). Afinal o Edir Macedo cobrava no seu novo templo para entrar e seria mais um dinheirinho prús cofres da EB. Eles fecharam a cara e me jogaram em uma saleta. – Aguarde! “A Comissão de Ética” já vai chegar. O que? Comissão de Ética? O que eu fiz? Sou inocente. Juro por Deus e Nossa Senhora! Sou apenas um Velho Chefe Escoteiro Gagá e dizem que pé de chinelo dos bons! Eles nem respostas deram.

            Ouvi vozes em uma sala ao lado. Quem seria? O DEN? O CAN? Este povo não trabalha e só faz reunião? – Uma voz disse: - Precisamos aumentar as mensalidades e taxas conforme o dólar! – Outro disse, nem pensar, o dólar sobe e desce e não podemos arriscar. Nosso caixa está ficando baixo! E o Euro? Ou melhor, a Libra? – Bah! Então eram assim as decisões? Não prometeram transparência? Eu sabia que isto nunca existiu na UEB, Cacilda, esqueci, agora é EB. – Outro disse: Ele já chegou? – Um dos profissionais escoteiros disse sim. Tente usar a técnica da CIA ou da KGB nele. Se não der certo veja o manual do Mossad (serviço secreto israelense). – Minha nossa! Seria eu? – Bem não demorou e entrou um deles. Vestido com o indefectível vestuário, calça bombacha presa com embira, tênis branco, camisa fora da calça para esconder o barrigão e a falta do cinto. Com aquele ar de Velho Lobo todo poderoso me olhou de alto a baixo. Pensei comigo: - Atuo como o Velho Vado Escoteiro bom de briga, ou fico naquela de santinho do pau oco?

            Ele sentou a minha frente. – Chefe anda dizendo que seus escritos são melhores que da EB, diz também que é de graça que você faz por altruísmo, comenta sobre patrulhas, monitores, comenta sobre Baden-Powell como se fosse o tal. E termina dizendo: - Tudo de graça! Olhei para ele e não disse nada. – Sabe que está tirando o pão da EB? Se continuar assim acaba com o glorioso Paxtu. E o leite das crianças? Nossa cantina tem tudo, os melhores livros escritos por gente que sabe o que queremos. Precisamos vender. Já temos mais de quinze funcionários para atender a todo Brasil. E vem você com esta conversa mole de PDF gratuito, como se você fosse o papa do escotismo! Agora vem com um papo que nosso vestuário é caro, é mal feito, desbota, pega fogo facilmente e não tem uma boa confecção.

          Afinal o que pretende? Acha que este caqui fajuto que veste serve para alguma coisa? Se ele custou noventa reais e daí? Nossa vestimenta tem 19 tipos, cada um com um preço. Com quaisquer trezentas a quatrocentas pilas você adquire um. Compra quem quiser! – Olhei para ele. Ele me olhou. – Quem quiser? Perguntei. Ele virou a cara. – Continuei compra que precisa, não tem outro lugar para vender e nem pode fazer! – Ele se levantou e gritou: Entre a comissão! A técnica da CIA e da KGB e do Mossad não adiantou. Mande entrar também um soldado graduado do Estado Islâmico. Se possivel aquele que usa a espada para decepar pescoço de Velhos Chefes Escoteiros fajutos!

           Meu Deus! Onde estava? Na Síria? No Iraque? Em Fallujah? – Tentei fugir e não deu. Um deles disse? Amarre-o bem. Use um nó de escota, outro de arnês. Se precisar um volta do fiel triplo. Nas pernas um nó de frade e outro de volta da ribeira bem apertado. Para ele não fugir, faça um Balso pelo seio com alças corrediças e termine com um nó górdio para ninguém o soltar. Leve-o na Ponte das Bandeiras sobre o Rio Tietê. Cubra-o com folhas de bananeiras e enfie em sua goela uma porção de abobora seca. Depois jogue-o no rio. Deixe que as piranhas nos livre dele! – Chefe Presidente Doutor Mortalha, no Tietê não tem Piranhas! Disse um membro da Comissão. – Então faça-o viver o som da mata ouvindo o rio feder em seus ouvidos. Faça-o cantar embaixo d’água no meio da sujeira. Dizem que lá tem capivara e Jacaré, quem sabe eles o comem vivo? – Minha Nossa Senhora! B-P que me proteja. Morro gritando ou morro como herói? A porta abriu. O Presidente entrou. O presidente da EB e não o Bolsonaro aquele que fala pelos cotovelos. – Cala-te ele gritou. Morra como homem! - Chefe Doutor Presidente, eu sou só um Velho Escoteiro e olhe fajuto mesmo! Ele sorriu. Aquele sorriso que só os chineses com Corona Vírus sabia como fazer. Parecia o Roberto Alvim Secretário da Cultura quando destilava vocalmente o discurso de Joseph Goebbels ministro do ditador Adolf Hitler.

          Eu educadamente gritava e como gritava. Berrava: - Tietê não! Me leve para o Rio Doce em Governador Valadares ou o São Francisco ou o rio das Velhas lá em Pirapora. Lá eu conheço as barrancas, as fazendas os peixes e as embarcações. Eles riam a valer. – Célia como sempre a me salvar – Marido! Marido! De novo não! Precisa acabar com estes pesadelos infernais! Acorda! Acorda! – Minha linda Célia sempre me salvando. Levantei suado. Não sei por que dormi com meu caqui querido. Celia preciso a partir de hoje só dormir com meu bastão de ponteira de aço ao meu lado. Ela sorriu aquele sorriso que só ela sabe dar. Acalmei. Escotismo? Bom demais, mas sempre digo Vado Escoteiro, fale menos e escreva mais!

domingo, 1 de março de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Os ventos da modernidade.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Os ventos da modernidade.

Há tempos um Chefe Escoteiro gentilmente me respondeu a uma afirmação minha de que no meu tempo o escotismo era melhor. – Chefe, ele disse, “cada tempo é um tempo, o meu o seu e o do escoteiro de hoje são os melhores. Cada um vê ao seu modo o escotismo que pratica e de uma maneira sincera ama o que faz”! Concordei com ele. Às vezes ficamos presos a uma filosofia que criamos e não nos afastamos dela. Se perguntarmos aos jovens Wesley, Robson, ou ao Jonathan aqueles meninos ingleses que sonhavam ao ler o primeiro fascículo do Scouting for Boys o que achavam das sonhadas aventuras que realizavam nos bosques nas cercanias de Londres, eles iriam dizer: - Foi o melhor escotismo que fizemos!

Se pudéssemos voltar no tempo, lá por volta de 1907/1910, e pudéssemos perguntar ao jovem Aurélio Azevedo Marques, o primeiro Boy Scout Brasileiro como foi o seu escotismo, sem sombra de dúvida ele iria dizer: - Igual eu nunca vi! E assim sucessivamente escalando décadas de escotismo em nosso país cada um ao seu modo irá dizer que sem sombra de dúvida o seu foi o melhor escotismo que existiu. Tivemos no passado ótimas literaturas escoteiras para nos despertar o sonho da aventura. O marco delas foi o Guia do Escoteiro do nosso querido Velho Lobo, Almirante Benjamin Sodré. A partir daí uma nova visão aconteceu aos olhos dos rapazes escoteiros do Brasil que praticavam o escotismo. Os desenhos encantavam. As provas eram desafios que todos queriam fazer. O livro correu de mão em mão e eu sem me colocar no topo dos admiradores do Velho Lobo, li o livro em 1951 em uma noite e sem dormir fui para o Ginásio com um sono atroz!

Os anos passam cada um vê uma descoberta particular ao entrar no Movimento Escoteiro, falo para os rapazes e moças de hoje, pois faz somente trinta e poucos anos atrás que as garotas, vulgarmente chamada por nós de pirralha fedelha adentraram no escotismo. Quando era um fedelho miúdo nunca pensei que isso iria acontecer. – Valha-me Deus! Uma moleca pirralha na Patrulha Lobo? Nem pensar. Ali era lugar de homens, durões, viajantes das estrelas (em sonho), caminheiros das trilhas que cercavam a nossa cidade. Lembro uma vez que Zé Raimundo mais conhecido como Fumanchu nosso cozinheiro, enfrentando a fumaça do seu fogão a lenha de barro, me olhou e disse: Queria ver a Toninha aqui no meu lugar! Toninha era sua namorada e vivia dizendo que um dia seria escoteira.

Ainda lembro os antigamentes que dizem foram substituídos para melhor. Melhor? Melhor era o fogão de barro, feito de barro branco ou vermelho retirado cuidadosamente das margens dos Rios Corrente, ou Rio do Pó. Fumanchu era mestre. Olhava o barro, mexia, rabiscava para ver se tinha um cisco uma pequena folha, um pedrinha solta... Exigia os troncos verdes para barrear. A mesa tinha que ficar firme, afinal cair na hora que a boia estava pronta era um Deus nos acuda! Até ali ascender o fogo exigia um palito! Sim um palito e sem direito a dois! Valha-me Deus se perdesse o primeiro... E foi então que fomos acampar em Conselheiro Pena, um novo Grupo, meninada bonita, filhos do prefeito, do juiz, do delegado e dizem que tinha um que era filho do Conego local... Rarará... Cala-te boca!

E não é que eles tinham um fogareiro a gás para cozinhar? Onde se viu isto gente? Fogareiro? Gás? E os lampiões a gás eram demais. A gente olhava e os olhos coçavam de tanta luz! Darci Bereba jurou que nunca ia abandonar seu lampião a querosene. O meu vermelho achava que nunca ia aposentar. “Necas de catibiriba”! Gostava dele, uma luz gostosa, calma, não dava dor de cabeça, não havia perigo de explosão, não quebrava camisinha e nem o vidro local. Hoje dizem que ninguém mais usa. Bem cada um é cada um. Agatão no banquete de Platão tirando onda de pensador disse: - O que não se tem ou o que não se sabe, também a outro não poderia dar ou ensinar.

Bem, mas o pior estava por vir.  Orelhudo sem avisar, me aparece com um rolo pequeno de sisal. Vado! Tente com ele pioneirar! É melhor que cipó! Olhei, toquei de leve e perguntei: - Onde arrumou isso Orelhudo? Ele ria e ria. Quer saber, demorou anos para usar o tal de sisal. Afinal conhecia cipós pelo nome simplório de matuto, cozido, mexe-mexe e nunca estudei os nomes científicos dele. Dizem que tem dezenas de espécies não só no Brasil como no mundo. Com o tempo só de olhar sabia qual o melhor para dar uma amarra, ou para fazer uma rede simples, ou uma costura de arremate. Convenhamos que não era tão rápido como o sisal,  mas a Patrulha enquanto lá estive nunca pôs a mão em um sisal.  

Dizem que hoje você no seu celular entra no Paxtu e compra o que quiser. Lembro que fiquei quase quatro meses juntando meu dinheirinho na graxa de sapato na esquina da Rua Peçanha com a Minas Gerais. Quando voltava do ginásio um dia, vi na portão da minha casa, mamãe e minhas irmãs rindo e batendo palma. Chegou Vado, chegou, Tia Cota voltou do Rio de Janeiro e Trouxe seu chapéu e o disco do Trio Irakitan! Minha nossa! Foi o mais belo dia de minha vida. E a carrocinha? Gente, a Patrulha deu duro para fazer. Juntou dinheiro, pagou ao Norberto sem dedo o melhor Marceneiro do bairro com a condição que durante quinze dias ajudarem a ele na confecção. Que festa! Nem imaginam a primeira vez. Na estrada do Dendinho indo acampar no Córrego dos Pintos eis que uma roda quebrou o eixo! Não tinha como. Deixamos a carreta escondida em um matagal próximo e levamos a tralha no lombo! Eita saudades dela...

Mas convenhamos, cada um tem sua história para contar. Seja ontem ou hoje o nosso escotismo sempre foi o melhor. Melhor para mim, para ele e para os que ainda irão nascer e serão os futuros escoteiros do Brasil. De uma coisa me orgulho, não conhecia Televisão, rádio sim, mas dava tempo? Necas, nosso negócio era escoteirar. Era ter um feriado, um fim de semana sem obrigação e lá íamos nós com nossas mochilas, ração A ou B ou C não importa, onde ao chegar Zé do Monte pegava os saquinhos da ração, juntava em sacos maiores e sua intendência toda proza já tinha pronto duas ou mais prateleiras bem feitas e que a chuva caia, que os bichos cheguem, mas ali nada iria ficar fora do lugar.

Coço a cabeça e penso, qual seria a história que meu trineto vai me contar lá em Capella quando ficar velho como eu? Dos seus velhos tempos? Dos seus acampamentos nas estrelas? E em Marte ou na Lua arvorar onde a Bandeira Nacional? Não sei, mas eles os futuros escoteiros viajantes das estrelas terão suas tralhas modernas, onde com um simples botão tudo vira um acampamento dos bons. Às vezes penso que no futuro como na Nave Interprise, os escoteiros terão em suas sedes um Holodeck ou Holosuite, tipo holografia como forma de registrar imagens em três dimensões e ali montar florestas, rios, picos, chuva, sol lua estrelas e acampar! E eles como você e eu ou mesmo o Aurélio o primeiro escoteiro do Brasil com certeza irão dizer: NO MEU TEMPO ERA MELHOR!