segunda-feira, 13 de abril de 2020

Uma historia para pensar. Ficção ou realidade?




Uma historia para pensar.
Ficção ou realidade?


... – Dizem que eu floreio muito meus contos. Dizem que nem sempre o que digo é realidade. Pode ser, mas sou franco, o escotismo foi criado para ajudar a juventude mais pobre de Londres e hoje no Brasil para ser um escoteiro tem que ter condições financeiras adequadas se não nunca será. Quem me contestem a minha verdade.

- Zé das Quantas tem 45 anos. Mora em Brejo Seco uma pequena cidade fictícia em algum estado brasileiro. Zé das Quantas é pedreiro e carroceiro. Cidade pequena muitas vezes ele fica semanas sem trabalho. Ganha pouco e sua esposa Maria ajuda fazendo alguma faxina a pedido das damas da cidade. Zé das Quantas tem poucos sonhos e sabe que sua realidade não vai mudar. Além de sua família seu segundo amor é o Escotismo. Diz seu escotismo, mas no seu intimo sabe que não é dono de nada. Já viu outros chefes dizerem meu Escoteiro, meu Lobinho, meu monitor e meu grupo. Ele não, o Grupo e o escotismo são de todos. Para ele o Movimento Escoteiro pertence a Deus e aos jovens. Ele sabe que está ali para servir, ouvir, orientar e fazer dos meninos e meninas pessoas que se pode confiar para que tenham a formação desejada e conviver em sociedade. Foi assim que aprendeu quando menino escoteiro e lendo Baden-Powell o Fundador. O Grupo Escoteiro tem oito anos de atividade e ele recebe pouca ajuda da população. Zé das Quantas é iletrado, um mero carroceiro que muitos julgam ilusório seu papel de educador. Alguns até mesmo preferiam que tivessem uma organização de guardinhas bem mais interessantes para a cidade.

Zé das Quantas um dia recebeu um oficio. Registrado assinou a correspondência que dizia: - A Escoteiros do Brasil vem informar que este grupo está atuando ilegalmente, fora dos padrões e normas do Escotismo Brasileiro. Para evitar problemas maiores sugerimos entrar em contato conosco, pois Grupos Escoteiros e Regiões Escoteiras só podem ser reconhecidos e autorizados a funcionar se cumprirem as disposições contidas no Estatuto e demais regulamentações da EB. – Ele sorriu, já sabia disto, mas desistiu, pois não tinha como pagar o registro, vestuário, distintivos e taxas e nunca poderiam estar presentes nas solenidades pomposas que anualmente realizavam. Ele sabia dos isentos, aqueles que não podem pagar, mas as exigências além de humilhantes eram difíceis de realizar. Desistiu quando deu início ao Grupo Escoteiro e foi pedir uma Autorização Provisória. Achou que seus jovens nunca teriam condição de atender a tantas formalidades. Veio um segundo ofício, desta vez ameaçavam abrir um processo legal nos tribunais.

Zé das Quantas não soube o que fazer. Havia dois meses que não conseguia nenhum pedido de areia ou transporte e estava sem nenhum tostão. Maria conseguia as duras penas colocar arroz e feijão na mesa e não sobrava nada. Decidiram pelo uniforme caqui, mais barato, que muitas mães podiam confeccionar. Era um uniforme durável, que podia passar de pai para filho e muitos que mudavam da cidade doavam para os mais humildes. Tinha orgulho em ver todos uniformizados, com garbo não importando se estava desbotado. Se tivessem filiado a Escoteiros do Brasil teriam que fazer uma Assembleia do Grupo, com todos os presentes inclusive os jovens e votar para escolher o que iriam usar. Assembleia? Poucos pais compareciam, chefes era só ele. Quando fizeram o tal vestuário ele e seus meninos nunca foram consultados. E o preço? Não era o que sempre pensou quando adotou a filosofia escoteira que nem sabia explicar. Ele não se preocupou. Não ligou. Continuou fazendo seu escotismo como gostava e com o velho saber de seu líder Baden-Powell.

- Mosquito tinha doze anos. Sonhava. E como sonhava. Era considerado a mascote do Grupo Escoteiro e recebeu o apelido carinhoso de Escoteirinho de Brejo Seco. Sua avó era cega, recebia do Bolsa Família um dinheirinho que dava para comer arroz e farinha. Algumas vezes feijão. Ganhou seu uniforme de Pedrinho quando passou para os seniores. Pequeno não podia trabalhar. Várias vezes sonhou em ir a um Jamboree. Quando soube da taxa chorou. Nunca poderei ir pensou. Soube que o Grupo da Cidade vizinha tinha ido. Encontrou com Antonio Mauro o filho do comendador. Falou maravilhas. Mosquito queria sentir inveja, mas não sentiu. Sabia que faziam belos acampamentos, belas aventuras e isto não tinha preço. Lagrimas correram quando o Chefe Zé das Quantas leu o comunicado da EB. – Chefe, vamos lutar aqui ninguém vai fechar o grupo. Nós não vamos deixar. Afinal não vai ter golpe!

Uma tarde eles receberam uma visita. Um homem alto bem vestimentado com camisa fora da calça sorriso nos lábios se apresentando como Advogado da EB. Abraçou todo mundo e prometeu ajudar. Pediu que o apresentasse ao prefeito, ao presidente da Câmara dos Vereadores, ele iria dizer a que veio. Ele sabia que aquele Chefe não tinha as condições exigidas para liderar. Zé das Quantas se assustou. Quando o prefeito iria recebê-lo? Nunca. O Argelino da Câmara? Sempre bêbado e nem sabia o que dizia. Tentou explicar e nada. O Advogado partiu e disse que nada poderia fazer. Ele iria receber uma intimação do processo que iriam abrir. – Melhor Zé é fechar seu grupo. Vai evitar dissabores e gasto que vocês não podem fazer. Zé das Quantas abraçado com Maria suspirava. – Mulher, eu amo você, mas amo o Grupo Escoteiro. O que fazer? Não entendo de processo, de leis só entendo do amor que criei entre a meninada e a fraternidade existente entre eles.

 Bem a história termina por aqui. Sei que floreei muito. Criei sentimentos, criei interpretações às vezes dúbias quem sabe falei demais. Desculpem mas dizem que sou um escritor de araque e nem sei dar um sabor as minhas narrativas. Sou culpado por ser sentimental demais. Mas isto é uma quimera? Nunca existiu tal fato? Quem acompanhou várias associações e também alguns chefes ameaçadores em alguma cidade do nosso país, sabe que aconteceu e ainda acontece. A Escoteiros do Brasil atualmente calada não explica as sentenças judiciais que perde uma atrás da outra. Gastou centenas de milhares nesses processos e ainda está sujeita a pagar indenizações vultosas aos que não se sentiram satisfeitos por serem acusados nos tribunais. Penso o dia que estes processos chegarão ao Supremo Tribunal Federal. Televisado para todo Brasil. Belo exemplo de lideres escoteiros que se esqueceram do seu principal artigo da lei: - O Escoteiro é irmão de todos e irmão dos demais escoteiros. Zé das Quantas não vai ver ele mal sabe o que significa a sigla STF Supremo Tribunal Federal. Seu escotismo continua puro conforme sempre acreditou.

Esquecem os donos do poder que precisamos de um marketing perfeito para mostrar o que somos. Atitudes como estas não dignificam a nenhuma associação que preza uma Lei e uma promessa nos conformes do fundador Robert Baden-Powell. Zé das Quantas nem sabe o que é um processo e quem vai pagar as custas de tudo. De uma coisa eu sei, Zé das Quantas e o Escoteirinho de Brejo Seco estarão por aí a escoteirar, fazendo escotismo de qualidade nas montanhas, florestas do Brasil.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Osasco, 10 de abril de 2020. Prezado Senhor Baden Powell.




Osasco, 10 de abril de 2020.
Prezado Senhor Baden Powell.

- Desculpe a liberdade de lhe chamar pelo nome e não pelos títulos que recebeu aí na sua velha e boa Inglaterra. Sei que foi homenageado pela Câmara dos Lords e pela Rainha recebendo os títulos de Lord e Sir pelo seu relevante trabalho junto aos jovens, além do que foi aclamado como herói desta nação pela sua brilhante passagem no exército inglês. Inclusive me perdoe por escrever ao meu amigo diretamente sem usar os transmites legais aí no céu. Mas saiba que não tenho nenhuma pretensão de ser além do que sou. Não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente. Nasci nove horas depois que o meu amigo partiu para a eternidade. Quem sabe nos cruzamos em alguma estrela brilhante no firmamento. Eu completei 79 anos e o Senhor também desde sua partida. Às vezes meu Mestre acho que o conheço de longa data. Li muito ao seu respeito. E desde que entrei para o escotismo como menino que tento fazer o escotismo  “Ipsis litteris” conforme deixou escrito para nós.

O Senhor sabe que já lhe escrevi muitas cartas e sabia que não teria resposta. Costumo ser um fracassado em pscicofonia, clarividência e nada entendo de intuitivo sensitivo. Sou uma negatividade em mediunidade mesmo admirando outro Guru que admiro Francisco Cândido Xavier. Gosto mesmo é de escrever com minha Parker 51 e até hoje uso a tinta da marca Goyana para matar as saudades dos meus tempos de pen pal (companheiros da pena) quando mantive correspondências com diversos escoteiros do Brasil e de outros países. Foi bom e lindo ao lembrar que isso me deu ajudou na especialidade de Escriba do qual muito me orgulho. Ainda gosto de escrever mesmo sabendo que a arte da escrita se transformada em um “elefante branco”. Obrigam-me a usar o e-mail da internet que nem sei se aí no céu existe.  Eu ainda tenho um Computador da Velha Geração, e nele converso, escrevo, conto causos, histórias e a minha maneira dou ideias do nosso bom e velho escotismo. Sei que são palavras ao vento, poucos irão entender aqueles rapazes aventureiros correndo pelos bosques de Londres e arredores. O Senhor sabe o que significou e o que se transformou surpreendentemente se espalhando por todo o mundo. Dizem que somos mais de quarenta milhões e que pelos cálculos de alguns meio bilhão já passaram pelo escotismo deixando um rastro de lembranças e saudade.

Às vezes sinto desejos de poder estar ao seu lado desde que foi promovido a subtenente do regimento e formou na ala direita da cavalaria, apelidada de “Carga da Cavalaria Ligeira” na Guerra da Crimeia na Índia e vê-lo em 1887 participando na campanha contra os Zulus na África. Seria uma honra ter estado ao seu lado nas suas missões como Chefe de reconhecimento no território inimigo na Rodésia e ver que foi nela que muito de suas ideias escoteiras deram início. Foi ali que começou sua amizade com o celebre  escoteiro americano Frederick Russell Burnham que o introduziu ao ponto de ebulição a maneira do Oeste americano de woodcraff (escotismo) e onde através dele usou pela primeira ver o famoso chapéu Stetson usado depois pelos escoteiros em todo o mundo. Já pensou eu estar ao seu lado na campanha contra a tribo dos Ashantis? Eu li que os nativos o temiam tanto que lhe deram o nome de “Impisa”, o “lobo-que-nunca-dorme”, devido a sua coragem, à sua perícia como explorador e sua impressionante habilidade em seguir pistas.

Mas o mais extraordinário seria ver como o Senhor com pouco mais de 800 soldados enfrentar um exercito de mais de dez mil inimigos contando com a ajuda de jovens rapazes em Mafeking. Fecho os olhos para imaginar a luta que empreendeu em nome de sua nação que amou e ama. Já pensou se eu voltasse no tempo e ver o Senhor formar os primeiros escoteiros agrupando os rapazes num corpo especial e sob o comando de um deles, o Cabo Goodyear cumprirem seus deveres com amor disciplina e galhardia mesmo sob o fogo do inimigo. O Senhor confiou nos meninos como se eles fossem homens. Li que foi a mais importante lição que ascendeu sua chama escoteira. Mas Senhor Baden-Powell, como seria estar lá na Ilha de Brownsea vendo o senhor chegar com os vinte e dois rapazes neste primeiro acampamento lembrado até hoje pelos escoteiros e escoteiras de todo o mundo. Conhecer Simon Rodney com seus 12 anos da Patrulha lobo, Donald Baden-Powell seu sobrinho com apenas nove anos o Ordenança de Campo e todos os outros não esquecendo seu adjunto o Senhor Kenneth Maclaren seu amigo de longa data da vida militar.  

Deus meu! Só de pensar em voltar no tempo e ver o Senhor e seus primeiros escoteiros no seu primeiro acampamento seria extraordinário. Vê-lo em ação nas atividades práticas da natureza, os relatórios de observação, as tarefas como saber o que faz o coelho em sua toca, o pica-pau tirar a casca para apanhar insetos no tronco. Como sou sisudo e quase não rio, seria demais conhecer seu estoque de anedotas e sobre os heróis de todos os tempos. E suas noites nos fogos de Conselho? “O Senhor ao apagar dos lampiões ao redor do fogo, contava algumas histórias assustadoras, conduzia o canto Eengonyama e com seu jeito inimitável atraia a atenção de todos”. “Eu ainda posso vê-lo como o Senhor ficava diante da luz da fogueira, alerta, cheio de alegria e de vida, um momento grave, outro alegre, respondendo todas as questões, imitando o chamado dos pássaros, mostrando como tocaiar um animal selvagem, contando uma história curta, dançando e cantando ao redor do fogo, mostrando uma moral, não apenas em palavras, mas usando histórias e convencendo a todos os presentes, rapazes e adultos, que estavam prontos para segui-lo em qualquer direção”. Brownsea... É... Eu daria tudo para ter estado lá! Brownsea onde tudo começou e fez de todos nós um escoteiro!

Olhe Senhor Baden-Powell se pudesse gostaria de ficar aqui escrevendo tudo que li e aprendi no seu escotismo que amo e que irá ficar na minha mente junto de mim e no meu coração. Até fui mal educado por não perguntar ao Senhor se está tudo bem aí no Céu, sobre o Grande Acampamento onde escoteiros se reúnem para ver a lua rechonchuda e estrelas tão perto que dá para pegar e guardar no embornal. Eu sei que o Senhor é uma alma cheia de luz e que deve ter continuado seu trabalho junto aos jovens como fez aqui na terra. Não vou preocupar o Senhor com o Escotismo feito nos tempos de hoje que chamam de moderno. Prefiro deixar em branco, pois saiba que temos muitos bons chefes, altruístas, cheios de luz que se importam com os jovens, conversam com eles, ouvem e seguem muitas vezes suas ideias tão próprias de uma juventude que apesar dos anos pouco difere da sua Velha Londres. Deixo para outra vez contar o que já sabe que alguns se acham donos da verdade, das ideias, fazem e desfazem das tradições, mas eu e o Senhor sabemos que isto é passageiro e faz parte da evolução, já que o verdadeiro sentido do Escotismo permanecerá para sempre.

Aceite, pois meu Sempre Alerta, ou melhor, meu “Be Prepared”, e transmita a lady Olave meus sinceros respeitos, e brevemente quem sabe estarei aí junto ao Senhor cumprimentando a moda inglesa, orgulhosamente uniformizado,  de calcanhar firme, uma saudação impecável e tendo a honra de apertar sua mão esquerda conforme ensinou. Meu anrê, meu bravôo e um grande e enorme Fraterno Abraço!
Do seu admirador,
Chefe Osvaldo Ferraz.   

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. A Promessa Escoteira segundo Baden Powell.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
A Promessa Escoteira segundo Baden Powell.

... – Quem um dia neste belo Movimento Escoteiro promessou? Quem teve esse privilegio e disse em voz alta ou repetiu aquela velha cantilena de “Eu prometo... Fazer o melhor possível”. Saudades que irão marcar o coração para sempre. - A promessa é para sempre dizia o meu velho Chefe. – Você pode sair esquecer, morrer e ir para o céu, mas a Promessa Escoteira estará sempre com você. Já vi tantos promessando e tantos que um dia deram adeus e até hoje recordam com saudades dos velhos tempos da promessa nunca esquecida. Clarice Lispector declamava cheia de vida: - Quanto vejo retratos, quando sinto cheiros, quando escuto uma voz, quando me lembro do passado, eu sinto saudades... Sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei ou cruzei... Sinto saudades da minha infância, do meu primeiro amor, e daqueles que ainda vou ter se Deus quiser... Ela se escoteira poderia completar... Saudades dos meus tempos escoteiros, da minha promessa e de tudo que vivi e amei!

Um dia que nunca esqueci me assustei ao ouvir Tibúrcio, um simples barbeiro de nossa cidade e que poucos se importavam com o que ele pensava. Ao adentrar em sua barbearia antes da reunião nem lembro porque, me vendo uniformizado me olhou sorrindo e disse que um dia também foi escoteiro e fez sua promessa. Como? Pensei. Um simples barbeiro que nunca se apresentou para nós? Ele com seu olhar simples de matuto mineiro me perguntou: - Vado prometer significa o que? Não sabia responder. Ele me deixando aturdido respondeu. – Porque precisamos ter credibilidade. Prometeu cumpriu. Quando dizemos vamos fazer vamos fazer. Palavra Vado é compromisso. E completou, nunca prometa o que não vai cumprir! E eu inocentemente disse a ele que havia no meio disso tudo a palavra “Fazer o Melhor Possível”. Ele na sua calma respondeu: - Fazer o melhor possível pode ser um desafio e tanto, pois se trata de um compromisso em alcançar o que se pode, passo a passo, como um alpinista que galga metros preciosos escalando uma montanha. A responsabilidade pelo fracasso é seu, o mérito pelo sucesso também, pois você sabe o tempo todo que está lidando com algo que pode concretamente fazer ou alcançar.

Quando contei para a Patrulha a conversa com Tibúrcio, todos queriam saber mais, o que ele fez, se sabia nós, amarras, se construiu grandes pioneiras e se aprendeu a cozinhar nos acampamentos. Seriam perguntas e mais perguntas. Hoje me lembrei dele e de Baden-Powell o que ele disse sobre a promessa. Eu sei que ninguém esquece sua promessa. Seja na sede, no campo, com bandeira ou sem bandeira e ate aqueles que fizeram uma promessa no fundo do mar. Mas o que tem de tanto importante nestas simples palavras que Baden-Powell deu para nós na mais perfeita organização de jovens criada por ele e dando tanto espaço de lembranças inesquecíveis? Quantos dizem pela minha honra, pela minha pátria, por meu Deus e emendamos para cumprir minha lei... Minha lei! Tão difícil de obedecer, tão difícil de entender... Alguns dizem que são artigos jogados ao vento, outros que ficam escondidos na parte mais importantes do coração. E tem os amam que guardam na mente na alma e repetem com amor nos dias mais alegres ou tristes de sua vida.  

Vejamos o que escreveu BP. - Em 1902 um menino me enviou uma carta simples. Falava sobre o significado de uma promessa para ele. Percebi que ele definia quem sabe melhor que nós e acredito que ele vai levar a sério aquela promessa. Ele escreveu: - Eu prometo a vocês com o meu coração, nunca tocar em bebida forte ou fumaça. Vou ser um soldado valente e assim vocês irão me tratar carinhosamente. Ele continuava em sua carta que não iria infligir à promessa, pois um Scout a considera um ato solene. Dizia ainda que é fácil manter um juramento quando se acredita nele. Comentou uma parte da promessa que já tínhamos publicado – Fazer o seu dever para com Deus e para o Rei. (ele dizia que esta promessa não era somente para ser fiel, pois devemos ter um estado de espirito para acreditar nela). E completou: - Precisamos fazer algo de bom para alguém todos os dias. E finalmente – Obedecer a Lei Escoteira.

Essas palavras deixadas por Baden-Powell dizem muito. Hoje temos uma promessa pronta que todos os jovens e adultos conhecem muito bem. Mas eu me pergunto – Tem validade? Levamos a sério? Nosso numero de participantes no Escotismo nas mais diversas associações, sem falar nos órgãos superiores, a gente sente a falta de compreensão e respeito que se espera de um membro do movimento Escoteiro para seu próximo. A debandada nestes casos acontecem, mas poucos sabem. A lei e a Promessa tem grande significado para muitos, mas outros não a levam muito a sério. O que adianta citar as vantagens do escotismo e outros tanto exaltando a Lei e a Promessa? Será que ela está incrustada em nossos corações? Será que acreditamos que os demais membros do escotismo são nossos irmãos? Sei que sim para alguns, mas para outros não. Este menino que escreveu para Baden-Powell acredito tinha não só o espírito Escoteiro, mas acreditava que o Escoteiro é puro nos seus pensamentos nas suas palavras e ações.

- A Promessa Escoteira segundo Baden-Powell não tem muito que discutir: - “Prometo pela minha honra que farei o meu melhor possível, para cumprir com meus deveres para com Deus e minha pátria ajudar o próximo em todas as ocasiões e obedecer a Lei Escoteira”.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Os tempos são outros... Será?




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Os tempos são outros... Será?

... – Hoje pensei em deixar meus contos minhas crônicas guardadas no meu baú do esquecimento. Às vezes me sinto motivado outras não. Meu estilo já é conhecido, um velho que escreve do seu tempo sabendo que nos dias atuais é impossível copiar. Tantas coisas para passar adiante e poucos se interessam em ler e comentar. E ainda tenho que engolir sapos, de gente nova, na fralda escoteira que nem mesmo tem aquele cavalheirismo tão esperado de um Chefe Escoteiro para responder. São tantos fazendo escotismo que penso com meus botões se eles estão certos e eu errado. Vem um dizer que se Robert Baden-Powell estivesse vivo, estaria seguindo as novas idéias do Escotismo Moderno. Arre! Arrepio-me quando vejo alguém dizer tal tolice e despropósito que como um velho educado que pareço ser prefiro deixar passar sem resposta.

Engasgo ao ler um adendo de alguém que vem me dizer: - Chefe! (era uma Chefe de Lobinhos). Os tempos são outros. Tudo nesse mundo evolui. - É mesmo? Como sempre corro em sua página, já que não nos conhecemos posso ver suas fotos o que escreve para fazer meu julgamento e quem sabe entender se tem o Espírito Escoteiro. Nada vejo uma pena. Tenho que aceitar as mudanças e até nem discordo que o Escotismo não pode ser feito como antigamente. E ela rebate: - São tempos novos Chefe! A época do Brucutu já passou! Deixe as diligencias nos museus onde o escotismo do passado foi enterrado! Depois dessa não vi nela nada que pudesse alimentar meu sonho escoteiro que é fazer a felicidade dos outros. Ela não pretendia me fazer feliz. Mostrando seu caráter atacou de um modo que nunca esperava de um aprendiz de escoteiro, ou melhor, de Chefe de lobos.

Leio a contra gosto um artigo de um Chefe que acredito ser da velha terrinha, bem escrito, sobre a falência da importância da Insígnia de Madeira. Ele comenta das mudanças e que hoje diferente do passado qualquer um mais dedicado pode chegar lá. Sem sombra de dúvida concordo em gênero numero e grau. Afinal ele está coberto de razão. Quantos artigos já escrevi sobre esse tema? E me pergunto? Resolveu? Sempre tem um ou outro para defender tal modernismo. Outro dia vi uma foto de três que se dizem Chefes, um deles de short sem camisa e sandália, com seu lenço de Insígnia de Madeira colocado n pescoço. Prefiro não comentar. Dá-me asco, repulsa e desgosto de ver tais exemplos. Ele deve ser conhecido em suas lides escoteiras. Mas não é só ele. Já vi fotos de formadores mal uniformizados, que deveriam ser a nata exemplar do garbo escoteiro com o novo vestuário, em uma atividade discutindo sobre a formação de adultos. Eu eim?

Ando meio injuriado com os defensores do escotismo moderno que não se tocaram que somos atualmente um movimento desconhecido pelas autoridades educacionais e até mesmo no seio da sociedade brasileira como um todo. Isto sem esquecer-se dos órgãos de imprensa que desconhecem completamente o que é o que pode fazer o escotismo para a juventude. Muitos dos novos intelectuais Escoteiros repisam minhas palavras ao dizer que no seu habitat são reconhecidos como uma forma de educação extra-escolar. “Putz Grila!” será? Vamos lá, não sou tão ignorante em ver que nos dias atuais dificilmente faríamos o escotismo como no passado. Temos que evoluir. Evoluir? Sim batem palmas a nata escoteira. Crescer, progredir, mas a que preço? Onde estão os ditos Presidentes, Diretores, APFs que não podem dar e ensinar um pouco de respeito pela apresentação escoteira? Isto é moderno? Valha-me Deus.

Às vezes esqueço que sou um velho soldado escoteiro rabugento, cheio de manias querendo que tudo fosse como vivi e aprendi. Opa esqueci-me do lenço. No passado um símbolo do maior respeito. Promessa feita, o Chefe do Grupo (hoje mudaram para Presidente ou Diretor) orgulhosamente o colocava e dizia: Escoteiro, com este lenço você agora representa o Grupo Escoteiro em todo lugar aonde for. Honre seu lenço. Você só o recebia quando da promessa e só o colocava bem uniformizado. Agora não. Quer se mostrar escoteiro? Ponha o lenço em qualquer pessoa, escoteiro ou não, com promessa ou não, de roupa, sem roupa (pelado vale?). Fizeram dele uma metáfora do que nunca foi. Arre! Tremo só de ver e pensar! Mas lá vem um danado de um sabe tudo das coisas modernas retrucando: - Chefe se manca! São os novos tempos! Pelas barbas do profeta!

E a promessa? Promessa? Coração batendo, esperando chegar o grande dia. O dia dele, o jovem. O Chefe dizia: - Escoteiro sua promessa é para sempre! Está preparado? Vibrar em frente à bandeira do Brasil, com o Monitor apoiando com a mão no ombro e o Chefe o encarando: - Conheces a lei? Estás disposto a cumpri-la? E a com a voz tremida dizia a lei de cor e salteado sem repetir como papagaio. E quando chegava a hora, tremendo dizia: - Prometo pela minha honra! Fazer o melhor possível, para... E o Chefe completava: Escoteiro hoje tudo vai mudar em sua vida. - Agora se faz a promessa por atacado. Grupos novos os pais quem sabe autoridades estão ali assistindo, o Chefe posudo gritando: - Levantem a mão direita, meia saudação e repitam comigo: Prometo... ! - Mas é melhor me calar. Sempre tem os eruditos versados na nova pedagogia a me contradizer. Vontade de mandá-lo catar coquinho na mata do tenente, onde existia muitas sumaúmas cheias de espinhos que pareciam pés de coqueiro.

Peço desculpas. Como sempre me reverenciando aos novos pensadores escoteiros. Afinal não sou tão egoísta a ponto de desejar o mal ou o erro de alguém. Se pensarem que estou desistindo é engano. Continuarei com minhas postagem queira elas servir para ajudar queira não.  Não estou na ativa, mal consigo caminhar alguns passos, mas sou da velha guarda e não me calo, não mais fico “abestado” a aceitar com ressalvas. Na minha consciência meu velho e gostoso escotismo não vai mudar. Lenço? Promessa? Lei? Respeito? Uniforme? Exemplo? Eles como dizem alguns amigos, são meu rumo, meu itinerário até quando partir desta para melhor. Dificilmente a Corte Escoteira aqui e em alguns países irão aceitar que as mudanças são válidas, mas que devemos manter nossas tradições ou mesmo programas que deram resultados. Sei que mesmo querendo voltar a ativa não serei aceito. Cuidado dizem! Ele pode trazer ideias ultrapassadas, tentando mudar a nova concepção do novo escotismo e prejudicar o que pretendemos dar a sociedade brasileira em termo de Escotismo Moderno! Ah! Velhos e gostosos tempos de uniforme bem postado bandeiras ao vento para o acampamento nas terras do meu Brasil!

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Conversa ao pé do fogo. Uma questão de caráter.




Conversa ao pé do fogo.
Uma questão de caráter.

- Ouvi de um Chefe Escoteiro o seguinte comentário: - “Conheço uma pessoa que apoia o Escotismo, porém recusa a engajar-se como voluntário porque não quer fazer a Promessa Escoteira, e não tem nada a ver com o texto da promessa, mas porque ela vê que adultos fazem a promessa e não fazem o mínimo esforço por cumpri-la”. Outro Chefe Escoteiro deu sua deixa: - “São muitos que adotam o escotismo como filosofia de vida e que, no entanto ainda não se tocaram no valor da Lei Escoteira”. Mas onde entra a palavra “caráter” no pensamento destes participantes chamados chefes levando em consideração a finalidade da formação escoteira?

Sem querer entrar nas razões de cada um, pois na visão de alguns chefes o escotismo parece obedecer àquela dita já conhecida onde devemos respeitar as opiniões e estas são diversas, vou tentando entender o que querem dizer sem, no entanto cobrar aqueles que estão praticando o escotismo conforme reza os preceitos lógicos deixados pelo Fundador. Li há tempos que caráter é um conjunto de características e traços relativos à maneira de agir e de reagir de um indivíduo ou de um grupo. É um feitio moral. É a firmeza e coerência de atitudes. O conjunto das qualidades e defeitos de uma pessoa é que vão determinar a sua conduta e a sua moralidade, o seu caráter.  

Não posso compreender certas atitudes de muitos que se apresentam como Chefes Escoteiros, fizeram uma promessa, prometeram fazer o melhor possível para cumprir seus deveres para com Deus e a Pátria, e cumprir a Lei Escoteira. É fato que jovens de todas as idades passeiam nas páginas das redes sociais e fico pensando qual exemplo algumas postagens estão servindo como instrutivos para eles. Um emérito pensador escreveu que atitudes de ira, grosseria e palavrões são o oposto de um homem de bom caráter, pois este sabe refrear a ira e controlar a raiva. Se você deseja encontrar um homem de bom caráter, busque observar nele atitudes de bondade, gentileza, gestos de amor e cuidado pelas pessoas a sua volta, pois essas são suas principais características.

No Guia do Chefe Escoteiro B-P diz que “a finalidade do programa escoteiro é: Aperfeiçoar o padrão dos nossos futuros cidadãos, especialmente quanto ao caráter e saúde”, e ao longo de sua obra o fundador do Escotismo enfatiza a sua preocupação com o caráter. No mesmo Guia do Chefe Escoteiro está escrito “Caráter tem mais importância que erudição para se vencer na vida.”. Para fazer o caráter desabrochar, B-P coloca, dentre outras coisas a Lei Escoteira que diz ser “a base que se assenta todo adestramento escoteiro” e então enfatiza que “Se o próprio Chefe Escoteiro abertamente cumpre e executa a Lei Escoteira em todas as suas ações os jovens vão segui-lo rapidamente”.

B.-P coloca o 1º artigo da Lei Escoteira como aquele que se baseia todo o comportamento e disciplina futuro dos escoteiros. O interessante que o nosso Chefe não põe ênfase na primeira parte do artigo primeiro da Lei Escoteira que diz “O Escoteiro é honrado e digno de confiança”. Ainda que uma coisa seja dependente da outra, uma pessoa honrada tem uma só palavra, é verdadeiro. Baden-Powell disse “confiança e crédito são à base de todo o nosso desenvolvimento moral". Uma Tropa pode ter todos os seus membros com as mangas cobertas de distintivos, seus chefes com mais contas no pescoço que o colar de Dinizulu, porém não estar cumprindo a finalidade almejada para o programa escoteiro, a começar do exemplo dos chefes.

Nos EUA a Boy Scouts of America, a associação Escoteira americana, participa de um projeto chamado CHARACTER COUNTS, focado no desenvolvimento de características éticas fundamentais. É hora de o Escotismo pensar mais no fim, os valores positivos, que nos meios que tantos valoram como e rotulam como o verdadeiro escotismo, porquanto baseado unicamente no lado prático do Escotismo para Rapazes, esquecendo-se que Baden-Powell tem outras obras, e que naquela que baseamos este artigo, logo no prefácio ele diz: “O termo Escotismo presentemente significa um sistema de preparação e adestramento de cidadãos, através de jogos, tanto para rapazes quanto moças”.  A preparação do cidadão, e no contexto já explicado com ênfase no caráter, é o fim, os jogos, e demais atividades, são meios. (Parte desse artigo foi copiado do Site Saber e Agir).

Enfim, muito do que se escreve nas paginas das redes sociais deixa aos olhos do publico uma impressão nem sempre agradável das bases fundamentais da formação de um escoteiro e principalmente no que se refere ao exemplo para nossos rapazes e moças. Que cada um de nós medite no que vamos escrever copiar e postar para que possamos de mãos dadas mostrar que somos um movimento único para a formação do caráter e da honra de um jovem que está ao nosso lado na busca do aprendizado para fazermos um mundo melhor. As palavras de Baden-Powell dizendo que enquanto vivermos neste mundo, devemos fazer algum de bom que poderá permanecer após nossa morte, e não se contentar como o que, mas conseguir descobrir o porquê e como, completa o que disse que nosso método de treinamento é o de educar a partir de dentro, ao invés de instruir a partir do exterior, oferecendo a eles jogos e atividades também atraentes e finaliza: - “Educar a moral, mental e física”. Exemplo neste caso é primordial!

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro em quarentena. Afinal para que serve o Escotismo?




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro em quarentena.
Afinal para que serve o Escotismo?

... – Boa pergunta. Quantas vezes somos indagados sobre esta frase? Moço, para que serve o escotismo? A gente olha quem nos “pregunta”, fuça na mente e procura uma resposta de acordo com quem nos arguiu. Se for em tom de troça dá vontade de soquear, se é sério respondemos sério e tem aquele Chefe que em passeio no parque com seus jovens, abre um sorriso, bate nos joelhos e diz: - Pelo amor de Deus! Não sabe quem somos nós? E aí ele começa a palrear esquecendo dos seus jovens e tentando convencer o impoluto perguntador que não existe nada igual ao Escotismo, seu duvida seu moço só entrando para ver e entender! – Tem aqueles mais catedráticos, mensurados na ideologia escoteira que chamam de pedagogia (tão em moda) e vão lá no fundo do site Uebeano e respondem: - Senhor! (tem uns que dizem Sir!) É um movimento onde os jovens são protagonistas. Constroem um mundo melhor. Adoram a natureza. Fazem questão de trabalhar em equipe. Ajuda o próximo. Saiba Sir que o escotismo tem uma proposta educativa própria, mantem os jovens motivados com jogos e atividades! Ufa! Depois dessa ele agora é um mestre escoteiro sem saber!

- Mas tem outros, os mais novos, imbuídos no espírito de fraternidade escoteira, são jovens são senhores e senhoras imberbes com seus vinte quarenta anos, alguns motivados pelo calor da juventude, se orgulhando de seus filhos escoteirando e sorrindo completa, Moço eles adoram. – E vão mais além... Escotismo? Respondem com um sorriso franco, gostoso, ajeitam o lenço e declamam em versos como se fossem Olavo Bilac nos seus tempos a palrear sobre Escotismo... - O Escotismo é um movimento que tem como principal objetivo ser uma atividade educacional voltada exclusivamente para crianças e jovens. E dá aquele sorriso como se agora ele também é um daqueles que pertencem a Grande Fraternidade Mundial. Veja que até agora nenhum falou em Baden-Powell. A maioria já ouviu falar, mas tem alguns que não gostam de Generais, de desfile, de treinos de ordem unida e soube de outros que tremem quando o Monitor diz: - Patrulha firme! Cobrir! Descansar!

- Mas eu gosto mesmo é do Zé das Quantas, aquele carroceiro vendedor de areia retirada do Rio das Velhas, morador de Brejo Seco que adora o Escoteirinho sonhador. Quando vai até Jardim das Piranhas (existe e é no Rio Grande do Norte) para comprar coisas que em Brejo Seco não tem, sempre vai de uniforme. Afinal roupa de missa é prá missa e fora ela só tem o calção que ganhou do Seu Zé Pindoba e a camisa ganha do Prefeito Picolé Azedo. É comum perguntarem a ele o que é escotismo. Ele gosta, ri, olha direto nos olhos (aprendeu que assim há mais sinceridade) e diz: - Moço foi um tal de um General Inglês de nome Baden-Powell (o nome ele sabe, aprendeu e leu) foi em 1909 que ele viu meninos correndo nos bosques de sua cidade por causa dos livros que escreveu chamado de “Aids to Scout” Escotismo para rapazes. Ele dizia que para ser escoteiro tem de cumprir uma lei que é linda demais, a gente faz uma promessa prometendo pela honra para cumprir a lei amor à pátria e a Deus.

E ele continua... Moço o que se precisa saber para ser um bom escoteiro é que acampar é a parte mais alegre da vida de um escoteiro. Viver neste ar livre que Deus nos deu, entre colinas e árvores, pássaros e animais, junto ao mar e aos rios, viver com a natureza tendo sua pequena casa de lona, preparando sua própria comida e explorando a florestas para aprender mais.  Aprende-se a fazer fazendo e se educa a cada dia que vive escoteirando. Isso moço trás saúde e felicidade num grau que nunca se consegue entre tijolos e a fumaça da cidade. Excursionar, e quando penetramos cada vez mais longe, explorando cada dia, novos lugares, é uma gloriosa aventura que nos torna mais fortes e rijos, insensíveis ao vento e a chuva, ao calor e ao frio. Aceitamos moço com uma consciência de nossa capacidade que nos possibilita enfrentar qualquer dificuldade com um sorriso, pois sabemos que venceremos no fim. Aprendemos a armar uma barraca, preparar um abrigo, cozinhar, amarrar troncos a fim de fazer uma ponte ou jangada, e encontrar o caminho a seguir dia ou de noite, em lugares estranhos... Moço, amamos a noite as estrelas e o firmamento.

Era assim Zé das Quantas, afinal pouco leu no site dos escoteiros, das palavras bonitas e da tal Pedagogia Escoteira. Ele poderia se tivesse lido completar dizendo: Moço afinal o que nos faz quando jovens sermos escoteiros é que nossa atividade nos garante a diversão, já que o local onde se pratica o escotismo é em regiões afastadas como se fossem uma selva e ali realizamos nosso desejo de aventura, fazemos brincadeiras e esquecemos das facilidades tecnológicas tão oferecidas a juventude de hoje. Lembrei que há algum tempo um Chefe escoteiro lendo um artigo meu, me disse: - Chefe, não vejo a diferença onde está o escotismo simples de raiz de outrora comparado com o de hoje. Sou novo no escotismo, cinco anos, pedagogo e estudioso da metodologia escoteira. Eu amo o escotismo como qualquer um. Estudei cada livro de Baden-Powell, fiz curso, atuo em um grupo e posso me comparar a um antigo escoteiro, portanto não aceito o termo que diz que o melhor escotismo era o de antigamente. Pensei com meus botões, ele estava certo. Pena que isso foi há seis anos e hoje não está mais no escotismo. Pois é...

Às vezes tento imaginar o novo escotismo e compará-lo ao antigo. Não dá para comparar. Cada tempo tem seu tempo. Cada jovem vive seu momento e o escotismo do jovem de hoje é tão bom como foi o meu do passado distante. Mas este não é o tema que pretendo narrar aqui. O tema é que como dizemos aos convivas cidadãos o que é o Escotismo. Se perguntarmos a cada um dos chefes o que é teremos centenas de respostas. Deixo de lado aquelas padrões, modelos tão sobejamente utilizados. Tive a felicidade de ver muitos sorrindo dizer seu amor ao escotismo que praticam. Nem pretendo discorrer do porque a maioria dos nossos poetas, pensadores, doutores e docentes nos meios educacionais e filosóficos não tem aquela fleuma de outros em um passado distante que diziam que o escotismo é lindo, deveria ser praticado por toda a juventude, mais valorizado e que sua metodologia tem por base o que de mais lindo existe no mundo... “A Fraternidade”.

Não sou um filosofo escoteiro para narrar suas potencialidades competência em formar jovens, de uma maneira diferente de tudo que se conhece. Em um tempo muito distante fui convidado várias vezes para falar de escotismo em diversas cidades mineiras. Eu fechava os olhos e voltava no meu tempo de menino, correndo pelas campinas, marchando em um vale, subindo montanhas e parando a noite, deitava na grama e perplexo com minha pequena compreensão, olhava o brilho das estrelas, assoviava baixinho uma canção e sonhava em voar para além daquela fantástica imaginação. Ah escotismo! Quem é você? O que nos faz assim tão “abobado” a amar algum que mora dentro do coração? Aquele amor de menino imberbe, que cresceu e virou homem continua impoluto, casto nos seus princípios, integro nas suas leis e ainda puro dentro do possível nos seus pensamentos nas suas palavras e nas suas ações.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Meus sentimentos!




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Meus sentimentos!

... – Conforme me informei meus sentimentos tem como sinônimo meus pêsames. Ensinam-me que é um substantivo masculino plural que expressa um sentimento de pesar, dor e compaixão em relação à morte de uma pessoa. Muito utilizado nos dias de hoje, principalmente entre idosos que se arriscam a saírem do seu domínio no seu Campo de Patrulha, se arriscando com um bicho dos “brabos” nas matas do Corona.

- Perdido nos meus pensamentos, hoje meio azombado e cismarento levantei-me calmamente tentando pisar com o pé direito. Não deu. O danado do pé esquerdo enxerido pisou primeiro no chinelo do pé direito. Coisa danada de ruim eu previa que ia acontecer. Foi uma noite cismativa, sonhos que nem sempre mostravam a luz do luar e a suave madrugada com o nascer do sol. Andando aleatoriamente nas nuvens do céu, eis que vi um antigo amigo, de longas eras, de apetitosos acampamentos e grandes excursões. O chamei alegre e ele de cara fechada reclamou severamente dos novos tempos que estavam passando. Escriba! (na Patrulha Lobo fui escriba por bons pares de anos) melhor voltar para a terra. O Grande Acampamento está lotado de chefes europeus e americanos e pressentia que não haveria mais lugar para eu ficar pois os subcampos estavam lotados de todo tipo de escoteiros e velhos escoteiros. Belisquei de leve no braço e vi que estava sonhando. Bom isso, ainda não fui coronado pelos vírus 19.

Sentamos próxima a Estrela Aldebaran uma das mais lindas da Constelação de Touro (nada há ver com a Constelação do Lobo que foi minha Patrulha e esquecida pelos cientistas estelares) e embaixo de um pé de Amoreira ficamos a conversar sobre a nova leva de Escoteiros e Chefes que chegaram e os demais que ainda vão chegar. – Vado Escoteiro, cuidado, tu tá na lista dos chamados. Se arriscar vai pru beleleu e aqui não tem mais lugar! Não vá no papo do Presidente, nem pense que uma voltinha na rua o bicho não vai pegar... Olhei para ele. Tinha doze anos que desembarcou na estrela do Castor da Constelação de Gêmeos por morte morrida e nem pude comparecer ao seu desenlace para dizer que sentia muito sua partida. Costumo palavrear esperando que com isto conforto a ele e aos familiares.

Tentei mudar de assunto. Tínhamos tantas coisas para lembrar. Ele riu e me disse: - Sabe nunca esqueci o “assalto” que fizemos na descida do Morro do Cavalo. Foi demais, encontrar aquele canavial só de Cana Cayana e eu adoro, convidei vocês para cortarmos alguns pés e levar para chupar quando chegássemos a Barra do Cuieté. Ri com ele. Nem cortamos um pé e na cerca apareceu um sujeito mal encarado, com uma carabina no ombro e gritou para pararmos. Quando vimos àquela figura achamos que iriamos ser metralhado sem dó e sem piedade. – Ele em silencio por minutos nos convidou a ir até a casa dele. – Olhe escoteiros, lá tenho uma plantação da Cayana especial. Nem precisa de faca. Você com os dentes chupa até a casca! Ele e eu caímos na gargalhada. E assim foi, ficamos horas a lembrar das caminhadas, do sol, da lua das estrelas, coisas que os bons escoteiros não esquecem jamais.

Mesmo sem relógio vi aparecer no céu a Estrela Dalva, como sempre linda, aparece no Brasil sempre entre quatro e cinco da manhã. Hora de acordar. Ele de novo me disse para me precaver. Vado, aqui não tem mais lugar. Tem gente na fila e a espera leva anos. Infelizmente chegaram há alguns anos alguns dirigentes Escoteiros terráqueos do Brasil e quiseram acabar com os subcampos. Só deixavam entrar quem tinha registro no tal PAXTU. Eu não concordei, mas você sabe não sou convincente e ninguém ligou para mim. Hoje eles tomam conta de tudo. Contei para ele rapidamente como era na terra, agora só gente nova e recebendo uma lavagem cerebral do que será o novo escotismo. E os mais velhos? Ele me perguntou... Alguns saíram e outros concordam com as normativas impostas. Outros se satisfazem com seus cargos, suas medalhas e seu passado de Grande Chefe.   Nos abraços, um aperto de mão esquerda forte, calcanhar batendo “ploc” e um sorriso. Deixou-me próximo ao Céu de Osasco. Ainda fiquei algum tempo entre cochilar e acordar.

Levantei as seis, bem tarde, afinal tinha meus medicamentos para me fartar com meu respirador artificial e fazer alguns trambeques para o corpo não piorar. Na varanda onde aspiro meus medicamentos pulmonares fiquei pensando até quando poderei evitar a pandemia. Melhor não me preocupar, que seja tudo que Deus quiser. Enquanto isso vou até a sala, ligo na Globo News, passo para a CNN Brasil e dou uma voltinha na Band News. Uma hora e estou bem informado. Volto para a varanda pensando até quando conseguirei criar meus artigos, histórias que chamo fruto de minha imaginação. Na calada do meio dia pensei quantos pêsames ainda ia dar. Não é fácil. Uma tristeza só. Já não existem para os que se vão com o vírus um velório onde possamos abraçar os familiares e tentar demostrar nossa compaixão e solidariedade. E o Presidente nem fala nisso.

E perdido em meus pensamentos, sentado em frente ao meu computador, bato na tecla e vou escrevendo sem saber quando terminar. Um sorriso? Um abraço? Um aperto de mão? Um dia sim outro não. Que cada um ponha a mão na consciência e veja até onde chegar. Volto no tempo e vejo Olavo Bilac escrevendo um dos poemas que mais gosto e que recitava nas noites de belos acampamentos noites que não voltam mais: - Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso! “E eu vos direi, no entanto, que, para ouvi-las, muita vez desperto e abre as janelas, pálido de espanto... E conversamos toda a noite, enquanto a Via Láctea, como um pálio aberto, cintila! E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, inda as procuro pelo céu deserto... Direis agora: - “Tresloucado amigo”! Que conversas com elas? Que sentido tem o que dizem, quando estão contigo?” E eu vos direi: “Amai para entendê-las”! Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas!



domingo, 29 de março de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Liberdade de pensamento.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Liberdade de pensamento.

... – Liberdade de pensamento liberdade de consciência, liberdade de opinião ou liberdade de ideia é a liberdade que os indivíduos têm de manter e defender sua posição sobre um fato, um ponto de vista ou uma ideia, independente das visões dos outros. Consta na “Declaração Universal dos Direitos Humanos” em seu artigo XVIII, que expressa que “todas as pessoas têm direito a liberdade de pensamento, consciência e religião”. Os sábios complementam que ele é diferente e não deve ser confundido com a liberdade de expressão. Quanto a esse deixo para meus diletos amigos procurar nas paginas do Google, um mestre na arte de informar e deixar a gente às vezes cheio de dúvidas confusão e dubiedade.

- Como muitos também estou de quarentena sem reclamar. Há tempos me acostumei a ficar na minha barraca, no acampamento onde moro, saindo pouco do meu Campo de Patrulha. O Chefe suspendeu a física das seis, a inspeção das nove e até as jornadas e jogos de pista, sem contar o fogo de conselho que ficou na saudade dos tempos que não voltam mais. Fora o cozinheiro que às vezes me pede para pescar alguns lambaris ou uma traíra para o almoço ou jantar, fico pioneirando aqui e ali, fazendo o que sempre fiz. Sinceramente gostaria de dar um mergulho nas águas claras e límpidas do Rio Doce, mas hoje sei que está sujo barreado e ninguém pode se aproximar. Queria dar uma volta na floresta do Quati, catar coquinho, jabuticabas, amoras, araçá, Gabiroba, Goiabinhas, banana da terra, Cambuci, cereja e tantas outras que na Mata do Tenente era só pegar e por no bornal. Mas os homens do jaleco branco, um uniforme desconhecido da Escoteiros do Brasil e conhecido dos escoteiros idosos que gostam de ficar nas UBS nos postinhos de saúde e unidades de socorro, dizem que não. Eu um amante da Rede Globo (adoro) e demais emissoras sigo direitinho às instruções.

Dando uma de mestre coisa que não sou, leio atentamente pela manhã, antes das estripulias de uma caminhada dentro de casa, algumas flexões e lá vou eu me arriscar a ler noticias e postagens do Facebook, um velho camarada que aceita a tudo e a todos. Lá estão os a favor e os contra do que fazer nesta fase da Pandemia Global. São noticias do Covid-19, das orientações dos entendidos do vírus e como fazer para evitar. Comandantes eleitos em diversos estados brigam para todos ficarem em casa enquanto o Capitão o mandatário supremo discorda. A cambada do poder sabe que menos de 10% da populacho tem alguma reserva na famosa Poupança Brasileira. E a contra gosto vem o Presidente aplaudido por uns detestados por outros dar uma carambola do seu rico dinheirinho do PIB ao populacho trabalhador, mas sempre dizendo para todos voltarem a se esbaldar nas trilhas escoteiras deste mundo perdido chamado Brasil.

Coço meu cangote, pensando que é sinal do corona, que deixei de lado no meu banheiro e troquei por um Lorenzetti garantido por um mestre italiano que se escondeu nas serras de Teresópolis com medo do vírus, não sobe e nem deixa ninguém subir, pois fechou a porta de sua barraca e não abre de jeito nenhum. Diz ele que apesar de ser italiano, é melhor que o Corona que sempre me deixou na mão. E lá vou eu escorregando os dedos na face do meu celular, ainda com medo, pois não sei se ali posso pegar a tal moléstia e de olhos abertos já ensaboado vou lendo sem dar muito crédito a alguns e a outros parabenizando pela brilhante ideia criada ou copiada. São tantas tolices, pachouchada e disparates sem menosprezar a inteligência de muitos que são meus amigos virtuais a quem devo obediência nas palavras e que volto novamente no artigo XVIII da liberdade do pensamento. Serei eu o único que vê o perigo que estamos passando, ou quem sabe estou errado e devo voltar a minha vida errante, cheias de obstáculos e sinais de pista incríveis nas incríveis florestas do meu Brasil?

E lá vou eu pelas trilhas de Derribadinha, atravesso o Rio Doce na minha jangada de piteira, nos meus tempos de criança e vou correndo nas Tabas e Ocas dos Crenaques ou Krenak, conhecidos também como Aimorés a procura do Cacique Itagiba, que um dia sentado debaixo de um Pé de Jequitibá Rosa, sorrindo com aquele ar de sonhador ilustrado comentou: Vado Escoteiro não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência. Olhei para ele desconfiado, a frase não era dele e sim de Leon Tolstói. Quem sabe ele seria um erudito que eu desconhecia? Deixo de lado as lembranças e retorno ao meu campo de Patrulha. Sentado na porta da barraca onde construí uma Poltrona do Astronauta, pilotando uma vara verde em um fogo brando cravado na ponta um pedaço de Paca aquele espécie de roedor da família Cuniculidadae, ainda só, com meu bule esmaltado cheio de café, vou meditando o que leio e o que devo seguir... Eu? Logo eu? Um contumaz mongolão, um rebelde sem causa justificada vou pensando naquele poeta que escreveu:

- Nem quero saber quem foi o inventor do Corona Vírus. Nem quero saber o resto da história. Eu quero mais é que o “Chinês” suma do mapa. Eu quero que mundo fale uma língua só. Não Sei, mas a do coração parece não ser entendida. Epa! Nada disso, precisamos dos chineses, eles compram dedeu do Brasil e nós recebemos em troca quinquilharias vendidas nas lojas de real zero noventa cada uma. Agora eles tem coisas que nem os americanos não tem. Tudo bem ainda não posso comprar um Caoa Chery, um iphone 11, um Galaxi S10 Plus, um... Sei lá! O melhor meu amigo escoteiro é não confundir com os falastrões apelidados de Zero um, Zero dois, Zero três e o Zero Quatro que aprendeu a ficar calado. E para não dizer que eu não falei das flores, vou despistando no pedaço de onde avistava a Cachoeira do Sonho e onde pegava peixes com a mão nos meus tempos de criança dizendo o que disse o poeta: “Fuja dos três acidentes geométricos da vida: Círculos viciosos, triângulos amorosos e bestas quadradas”!


sábado, 28 de março de 2020

Conversa ao pé do fogo. A fantástica “Banda” do Maestro Munir. (qualquer semelhança é mera realidade).




Conversa ao pé do fogo.
A fantástica “Banda” do Maestro Munir.
(qualquer semelhança é mera realidade).

... Nos tempos do Covid-19 uma pequena história para mudar de assunto dos a favor e dos contras de como proceder conforme a Organização Mundial de Saúde ou conforme as razões do Presidente. Que toquem as cornetas para seus mortos!

... Sempre Alerta corneteiro! Toque por favor, para eu dormir o toque do Silêncio. E ao amanhecer o toque da alvorada! Amo ouvir o toque quando a lua cheia rasgava o céu da noite cheio de estrelas ou quando o sol vermelho, escondido pelo orvalho da noite, resolvia aparecer em um céu de brigadeiro. Quantas saudades... Se quiser faça silêncio, vou cantar para você a mais linda canção da alvorada de todos os tempos! Sei que irá adorar! “Amanheceu... O céu é cor de anil! Alerta, Alerta, de pé pelo Brasil"!  

- Quando Escoteiro eu tinha um sonho. Ou melhor, dois, acampar no Pico da Bandeira e participar da Banda do Maestro Munir. Com doze anos um caminhão da prefeitura nos levou até Caratinga. Lá pegamos a Maria Fumaça para Caparaó (Águas que rolam nas pedras). Minha alegria não tinha limites. Afinal estive no Pico da Bandeira. Uma linda história para contar, mas fica para outra vez. Agora precisava entrar na Banda. Osso duro. Munir era magro e alto. Usava o chapéu Escoteiro virado, mas muitas vezes preferia uma boina preta tipo Montgomery. Eu nem sabia quem era esse tal Montgomery. Usava o uniforme caqui curto e uma bota cano longo. Sujeito estranho o Munir. Chamá-lo de Munir era briga na certa. Senhor Maestro Munir! Ele encarava você nos olhos, uns dois minutos, você não sabia onde esconder.

A Banda treinava todas as quintas feiras entre sete e dez da noite atrás do cemitério do Azarão. Um campinho de futebol, próximo à cidade, mas cujo barulho não incomodava os vizinhos. Só os coitados dos “defuntos”. A Banda não era grande, se não me falha a memória tinha quatro tambores, mais quatro surdo mor (daqueles enormes quase um metro de altura) cinco tarois, oito caixas claras, quatro bombos, seis cornetas e três clarins. Clarins? O meu sonho. Um dia iria tocar um. Mas precisava ter curriculum na banda para pelo menos encostar um dedo nele. Munir era severo. Ria pouco. Um olhar dele gelava todo mundo. A Banda dos Escoteiros era famosa. Nas festividades todos aguardavam ansiosos a Banda passar. Em frente ao palanque das autoridades fazia evoluções e depois ia em algumas ruas para saudar os moradores que saiam para aplaudir a Banda dos Escoteiros.

Munir tinha pose dos oficiais ingleses. Aquela fleuma que só os ingleses têm. Com sua varinha, seu chapéu virado, sua bota cano alto a marchar à frente da Banda fazia gestos como se estivesse regendo uma grande orquestra. Ali era o Rei. Exigente o Munir. Marchar bem, com honra, respeito, garbo e boa ordem. Bastava um para destoar e ficar fora da banda por meses. Sua palavra era a lei. Ninguém contestava. Nem mesmo o Chefe João Soldado e o Chefe Jessé. Eu era freguês de carteirinha dos seus treinos. Ficava abobalhado olhando o ribombar dos instrumentos. Trinta minutos de ordem unida. Munir não gritava. Seus gestos eram graciosos. Sabia com perfeição fazer os sinais manuais de formaturas. Apito? Detestava. Na frente da banda um sinal seu bastava. Todos obedeciam: - Em frente marche! Se alguém errasse valha-me Deus! Eu olhava tudo, caixas, tarol, tambores, bombos, cornetas, mas meu xodó era o clarim. Jasiel e Marquinhos eram senhores da banda. Sentiam-se importantes para olhar para mim. Eram seniores corneteiros. Uma dádiva de poucos.  

Só faltava ao treino da Banda quando ia acampar. Este era sagrado. Uma excursão, bivaque, acampamento sempre estiveram em primeiro lugar. Um dia achei em um pé de Manga, um galho que se cortado iria ficar igual a um clarim. Preparei meu instrumento medieval com carinho. Ficava em casa horas com ele na mão. Levava a boca, fingia que tocava, balizava e sorria. Sonhava em tocar a Alvorada, o Silêncio, o reunir, debandar, a saudação à autoridade e tantos outros toques. Decorei todos. A Patrulha me absorvia. Eu amava minha patrulha Lobo. Entre ela e a Banda só tinha uma escolha. A patrulha. Um dia tomei coragem. Procurei o Maestro Munir. Conferi meu uniforme, tinha que estar nos trinques como se fosse uma inspeção. Munir era exigente. Posição de Sentido, meia saudação – Sempre Alerta Senhor Maestro Munir, gostaria de participar da Banda! – Tinha treinado em casa em frente ao espelho como falar com ele. Se errasse ele nem na minha cara ia olhar mais.

Tomei um susto. Ele olhou para mim. Nem piscou. Cara fechada. Ficou também em posição de sentido. Bateu um calcanhar sobre o outro. Plok! Sinal Escoteiro estilo militar. - Quinta! As sete em ponto! Se chegar atrasado não venha nunca mais! – Sai gritando de alegria. Contava para todo mundo. A Patrulha me parabenizou. E agora como você vai fazer? – Fácil disse. Os treinos são as quintas e dificilmente saímos em atividade neste dia. Nos desfiles vão todos. Portanto dá para conciliar. – Não dá disse o Romildo Monitor. Quinta agora não vamos acampar em Bom Jesus? É feriado lá e aqui. Minha nossa! Eu pensei e agora. – Bom Jesus ficava a vinte quilômetros de distancia. Iríamos de bicicleta. Não podia perder meu primeiro dia na Banda e nem no acampamento. Tinha uma menina em Bom Jesus que me olhava e ria. Quem sabe estava ficando apaixonado?

Dito e feito. Na quinta às quatro da tarde voltei sozinho a minha cidade no meu cavalo de aço correndo como um louco estrada a fora. Cheguei no campinho as sete em ponto. Suando, cansado, mas com um sorriso no rosto. Posição de sentido e lá estava eu me apresentando ao senhor Maestro Munir. No primeiro dia só treino de ordem unida. Ele só me deu um tambor pequeno oito treinos depois. Terminando voltei correndo para Bom Jesus. Só três anos após comecei na corneta e depois no clarim. A “embocadura” demorei seis meses para adquirir. Meu sonho na Banda aconteceu. Toquei clarim por muito tempo. Quando servi o exército era com muito orgulho o corneteiro do dia. Nunca faltei a um treino, desfile e nem tampouco nas minhas atividades ao ar livre.

Encontrei Munir anos depois em Colatina. Ele bem velho. Eu com meus trinta e cinco anos. Olhou-me com aquela cara feia, ficou em posição de sentido. “Ploc” ouvi seu calçado bater. Sempre Alerta! Ele disse. Eu fiz o mesmo. Maestro Munir! Que prazer! Já com aquela idade ainda tinha medo do Senhor Maestro Munir. Ele riu. Nunca o tinha visto dar um sorriso. Abraçou-me. – Sabe Vado Escoteiro, eu sempre gostei de você. Nunca o esqueci. Aquele abraço foi demais. Uma alegria, pois nunca o vi dar um abraço em ninguém. 

Os tempos são outros. Muitos sem ter nenhuma base da formação futura dos jovens abominam bandas e ordem unida. As bandas e fanfarras não são como antigamente. Não existem mais os Maestros como o Munir. Sei de muitos grupos escoteiros que venderam ou doaram sua banda. Imposição dos dirigentes? Que pena. Dá para conciliar. Da para treinar sem incomodar. Até hoje olho com saudades os desfiles. Amava a banda dos Fuzileiros Navais. Ainda existem Maestros Munir por aí? Não sei. Mas ainda tenho saudades daqueles tempos, da minha Patrulha, da minha banda do meu clarim! 

quinta-feira, 26 de março de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Paranoia!




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Paranoia!

... – Epa! Fiquei em dúvida... Paranoia com acento ou sem acento? Corro no Google para tirar a duvida. – Lá está: - “Segundo as regras de acentuação do novo acordo ortográfico, foi abolido o acento agudo nos ditongos abertos oi e ei nas palavras paroxítonas”. Muito bom! Melhor assim, pois temos que tomar cuidado com os “Professores do Facebook” que estão prontos a te corrigir com palavras simples ou ásperas. Afinal sou um eterno analfabeto das palavras do alfabeto. Rs.

- Mas vamos lá, estou entrando pouco nas redes sociais. Preocupado. Muito. Há uma espécie de alienação, insensatez, um desvario de alguns poucos “facebocucanos”. De um lado, “Todos os homens do Presidente” (parece que tem um filme com este título) e do outro os “Eu sou contra o Presidente”. Ainda bem que tem os Cavalheiros, as Damas todos repletos na formação escoteira, ou melhor, imbuídos na cortesia, na gentileza e no uso das palavras sem ofender ao oponente. É uma luta sem igual. Por um lado os primeiros dão um viva ao Presidente pela sua esplêndida atuação, por outro lado os segundos duvidam da palavra do presidente. Razões são expostas de ambos os lados. Uma contenda que seria interessante se ficasse restrita na fidalguia escoteira (ela existe?).

Cai no deslize de postar um artigo de um famoso articulista sobre os dizeres do Presidente. Deixei que comentassem e não retruquei. Como é mesmo aquela frase que tantos gostam? – “Me reservo o direito de ficar calado como cantou o Grupo Inglês Depeche Mode na musica Enjoy the silence”. – Emoções são intensas e palavras são banais. Entretanto as lutas linguísticas “batem perna” em todos os cantos. (língua tem perna?) Rs. Me eximo de dizer o que penso. Não vale a pena. Cada um sabe onde enfiar a “viola no saco”. Todas as noites ao dormir tenho sonhos alguns interessantes outros mortuários. Anteontem pensei em me mudar para Fernando de Noronha. Com uma população de pouco mais de três mil habitantes seria fácil controlar o “Corona”. Pensando bem se o turismo dá sustentação à ilha e agora “turiscar” está fora de cogitação, é melhor seguir o conselho do meu Espelho: - “Se cuida meu velho, tu tá mais prá lá do que prá cá”!

Enquanto evito ler a as “escreveduras” dos valorosos defensores e das “agruras” dos acusadores, vou me cuidado e tentando lembrar-me do meu sonho da semana passada. De novo meu espelho a bafejar suas ponderações que às vezes sigo e outras não. – Dizia ele: - Vado Escoteiro, rezar “tu” reza demais, é hora de fazer seu testamento, sua carta de despedida e seu epitáfio em letras góticas para cravar na lápide do seu tumulo. Boa lembrança. Mas o que deixarei para a escoteirada? Minha família sabe que sou um aposentado “duro” sem “Money” e só posso deixar para eles doar umas poucas calças, camisas meias e cuecas furadas. Quem vai querer? Quanto aos meus amigos escoteiros pretendo ser incinerado com meu uniforme caqui, me lenço de IM, minhas duas contas (devolvi duas ao Dono da Formação em 1998), minhas “mixas” medalhas, e mais nada. Meu baú a Wells Fargo levou e os índios Cherokee esganaram o condutor ao ver que estava vazio.

Continuo na moleza de andar pela casa, zanzar na porta, e quando alguém se aproxima ou bate palma dou cinco passos para trás e de longe falo sem voz: Bum dia! Eita quarentena querida por uns odiadas por outros amadas. É por ela que alguns se pegam defendendo seu ponto de vista. O meu é: - Levantar cedo, alguns exercícios leves de velho xexelento, que como dizem por aí... Empregos sim, velhos enterrem na curva do rio enrolado em um lençol ou saco de amianto. Opa! Enterrem? Se morrer do Corona dizem que nem terei exéquias. Meus amigos corneteiros já se foram, não terei direito ao toque do silêncio e serei queimado na fogueira do crematório. As cinzas só serão entregues meses depois. Ainda bem que sempre amei ficar olhando as brasas adormecidas de um fogo de conselho, quem sabe poderei assistir as fagulhas baterem no teto do crematório.

Enfim, meus filhos exceto um que trabalha em casa os demais foram dispensados pela sua empresa. “Daqui a quinze dias nos falamos” disseram os patrões. Portanto não adianta esta alegoria desfigurada de dizer que devemos voltar ao trabalho. Eu todo dia primeiro tiro meus minguados proventos da minha aposentadoria (E o salário oh!). Nem quero saber se a “mula é manca” se eles perderem o emprego a culpa será do Dória ou do Presidente! Opa criei novamente uma celeuma? Nenhum deles tem culpa, a culpa é do Zé das Quantas, aquele Chefe pobretão de Brejo Seco que mandou seus escoteiros para casa e ficou de quarentena sem um tostão. Enquanto isso vamos orar, orar faz bem, não enche barriga, mas nos aproxima de Deus, nos fortalece e nos prepara para enfrentar as dificuldades da vida.

E vou parando por aqui. O Velho Chefe Escoteiro ainda cansado, às vezes senil, sem ar, sem voz e dores aqui e ali. A tosse é velha companheira, amiga escoteira de longa data nas barracas de duas lonas nos acampamentos que fiz quando virei um caminheiro nas trilhas da velhice. Sinceramente não tenho medo do “Corona”. Se ele ou ela vier que venha, sei que entubado terei poucas horas de vida, mas se foi essa minha sina escrita no meu livro da vida, aceitarei sem reclamar. Mas ainda vou viver muito, sem epitáfio, sem carta de despedida. Anrê... Só B.-P. teve este privilegio, só peço a Deus uma coisa, uma “coisita” só, se tiver que ir para o Grande Acampamento que seja uma estadia breve, pois pegarei uma carona no primeiro cometa que passar e me mando para o espaço sideral. E como se estivesse na nave espacial Enterprise direi: - “Espaço, a fronteira final. Estas são as viagens do Falecido Chefe Vado, prosseguindo em sua missão de conhecer novos mundos, procurar novas formas de vida novos escoteiros e novas Associações tradicionais Interplanetárias, para audaciosamente ir onde ninguém jamais esteve.”.