HOTEL ESCOTEIRO

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cada foto tem uma história

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A Legião dos Esquecidos.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
A Legião dos Esquecidos.

            Estou à procura deles. Alguém sabe onde estão? Porque os procuro em todos os lugares e não consigo encontrá-los? Agora são outros? Não tem rostos? Não tem nomes? Desapareceram no tempo? Deixaram de ser alguém como nós? Foram esquecidos na memória e ninguém mais lembrou que eles um dia foram como nós? Saudades. Muitas saudades. Difícil não relembrar os momentos vividos um dia. Se eles foram bons ou maus não importa, o que importa na verdade é a essência que ficou e marcou. A Organização peca. Eu sei que ela não é consciente e nem viva. Eu sei que ela é inanimada. Não aproxima de ninguém. Se hoje eles não estão mais ao lado dela para ela sim, eles se tornaram uma Legião de Esquecidos.

            E foram tantos e tantos. Os jovens que um dia pensaram em ficar para toda a vida. Os entraves aconteceram e eles se foram. E aqueles que deram o que tinham e não tinham pela organização? Eles fizeram parte da história e a organização esqueceu. Eles sempre diziam que não era para ela e sim para colher flores colorida nos jardins da juventude. Ah! Foram pessoas que passaram e se foram. Tiveram seus momentos e de repente viraram lembranças. Ações que foram geradas no calor de um ideal e hoje, delas os acontecimentos se acabaram. Mas a organização é implacável. Tem as suas convicções e dela não abre mão. Ela vive o sonho de seus devaneios de altivez de pensar que eles aqueles que são a Legião dos esquecidos não tem mais serventia para ela. Afinal eles não saíram por livre e espontânea vontade? Será mesmo? Quantos se foram sem dizer adeus? Ela sabe que tem sempre uma Legião dos presentes que dá força para ela continuar. Quem sabe um dia eles irão para outras plagas e ficaram também no limbo da Legião dos esquecidos.

            A organização não lembra que eles um dia foram presentes sacrificaram o que podiam e não tinham acreditando que ela, a organização estaria sempre ao seu lado. Não foi assim. Nunca foi. Já disse a organização nunca se interessou por eles. Interessa sim pelos vivos presentes nas fileiras do altar que jazem nos escaninhos da organização. Ela se sente bem com a fila que se forma, da reverência que se faz, do sim e o não sem discordar. Ela gosta disto. Sua disciplina é ferrenha. Para ela todos os momentos que eles viveram intensamente acabaram se transformando em memórias tristes que ela faz questão de apagar e esquecer. Pergunta-se a organização o porquê ela não os procurou? O porquê ela não mandou pelo menos uma carta, pequena, simples, sem afetação, com poucas palavras escritas – Obrigado! Você me fez feliz um dia. Quando quiser as portas estarão abertas! Mas Não. Nem isto ela fez e sabemos que ela nunca o fará.

           Para ela, esta Legião dos Esquecidos não existe mais. Não trazem dividendos. São ignorados, não existe gesto de nobreza, não importa o que eles fizeram, sacrificaram os seus que viviam ao seu redor, fez-se dos seus proventos uma doação sem volta. Se ele ficou sem dormir para domar o vento e não importa. O que ele fez para que o vento soprasse com carinho aqueles que estavam ali a dormir sob as estrelas foi esquecido. Ele deu tudo que tinha e nunca foi agraciado, pois ele pensou que seu trabalho era acima da burocracia. Um dia ele achou melhor partir. Tentou ao seu modo achar o caminho a seguir. Ele não acreditava que todos os momentos vividos intensamente acabariam se transformando em apenas memórias tristes ou quem sabe alegres. Para ele agora não vale a pena lutar. Lutar por um ideal. Não o da organização e sim daquele que criou o espirito aventureiro, que pensou que o amor, que a força de um ideal nunca seria esquecido. Pensou que ali estava o verdadeiro caminho do sucesso para formação de caráter. Esta sim foi sua paga quando ali estava sem um retorno da organização que só sabia exigir e não dar nada em troca. Ah! Ela não, mas os jovens foram marcados para sempre em seu coração.

            São tantos, são milhares, estão por aí espalhados nesta terra imensa, que Cabral nos deixou. Eles hoje vivem com suas memórias ainda vivas de um passado. Uma poetiza sintetizou tudo sobre eles. O tempo. O tempo passa tão rápido. O tempo deixa para trás, os momentos vividos. Os bons e os sofridos, mas que jamais são esquecidos. Não há volta, não existe convite de retorno. A Organização não se presta para isto. Ela não importa de quem chega e de quem se foi. Claro, já foi dito e falado, ela não é consciente e nem viva e por isto segue seu caminho sem volta. Não haverá medalhas, não haverá um agradecimento, não existe nos escaninhos de seu ser qualquer menção a ser lembrada dos que se foram. Para ela eles são a Legião dos Esquecidos.

             Ah! Organização. Não precisava ser assim. Esta legião dos esquecidos podia voltar. Tantas coisas a ajudar. Quem sabe um sorriso furtivo ajudaria? Quem sabe uma palavra de carinho? Porque não apagar esta insensatez, esta frieza e pensar que dar as mãos seria melhor? Sei que não. Não adianta remar sua própria canoa. As águas revoltas e os turbilhões da vida levaram a canoa e ela se foi para sempre. A organização esqueceu-se dos remos, agora ela tem quem rema para ela, sempre será assim, com rumos definidos que não comportam em suas fileiras esta Legião dos Esquecidos. E eu fico aqui matutando, e copiando Estefani Moury, que dizia, - E eu continuo olhando as estrelas e lembrando-se do seu sorriso, dos momentos com você vividos que nunca mais voltarão! 

“Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo. Gênero não me pega mais. Além do mais, a vida é curta demais para eu ler todo o grosso dicionário a fim de por acaso descobrir a palavra salvadora. Entender é sempre limitado. As coisas não precisam mais fazer sentido. Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. Porque no fundo a gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro”.