HOTEL ESCOTEIRO

HOTEL ESCOTEIRO
cada foto tem uma história

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Sonhos utópicos.


Sonhos utópicos.

Será que estamos no caminho do escotismo de B.P? Vez ou outra me pergunto se não é melhor abandonar esta minha luta por um escotismo fraterno, aventureiro e onde o jovem possa ainda manter seu Espírito Escoteiro voltado para os sonhos de ser um herói, um bandeirante na busca do seu conhecimento e fazer seu caminho na busca da paz entre os homens. Ainda existem escoteiros que só pensam primeiro nos outros? Caminhamos nesta trilha? Me lembrei do que Baden-Powell escreveu: - A amizade é como um boomerang, tu dás a tua amizade a um dos teus companheiros, e depois a outro e a outro ainda e eles retribuem-te com a sua amizade. Assim, a tua amizade e boa vontade iniciais vão-te fortalecendo à medida que vão sendo transmitidas aos outros, e acaba por regressar a ti, em retribuição, tal como o boomerang regressa à mão de quem o lança”. “Se não tiveres medo das pessoas que encontras nem sentires antipatia por elas, também elas, da mesma maneira, não irão te recear nem desconfiar de ti e terão tendência para gostar de ti e serem tuas amigas”. (Impele a Tua Própria Canoa).

Vejo tão poucos chefes com altos conhecimentos transmitindo fraternidade. São muitos altos conhecedores do escotismo que ficam no anonimato sem nada dizer. Isto mais uma vez reforça o pensamento de Baden-Powell quando comenta a fraternidade escoteira: - Se todos os homens tivessem” desenvolvidos em si mesmo o sentido da fraternidade, o hábito de pensar em primeiro lugar nas necessidades dos outros, e de subordinarem a elas as suas ambições, prazeres ou interesses pessoais, teríamos um mundo muito melhor onde viver.

Um sonho utópico, diriam alguns, mas não passa de um sonho, por isso não vale a pena tentar. “Mas se, ao sonharmos, nunca estendêssemos as mãos para agarrar a substância dos nossos sonhos, jamais conseguiríamos progredir”.

Com o tempo, você vai percebendo que, para ser feliz, você precisa aprender a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.

Tenham um ótimo dia.

Chefe Osvaldo

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O destino de uma linda árvore frondosa que amei.


Apenas um conto… Nada mais.
O destino de uma linda árvore frondosa que amei.

             Eu a descobri por acaso. Não mais que a um quilômetro da minha residência. No final da Rua dos Afonsos. Nada que uma pequena caminhada para chegar até ela. Vi que era uma linda figueira. Enorme, Copada, uma sombra incrível ela produzia. Estava no meio do nada. Um matagal no final de rua. Apaixonei-me por ela. Durante três dias limpei o mato e o lixo em volta de sua sombra. Alí aprendi a ficar e me esconder do mundo. Pensei em plantar gramas e flores. Até que plantei uns chapéus de couro, lírios, flor de laranjeira, crista de galo e todas se deram bem. Era meu cantinho. As tardes pegava um livro qualquer, jogava nas costas uma cadeira de praia e lá ia eu. Sentava-me, respirava fundo. O ar era desigual. Alí era o paraíso. Sem sons a não ser um vento passante pássaros arredios e beija flores nenhum outro som se ouvia. Então viajava no meu livro em suas páginas mágicas que me levavam a terras longínquas de um mundo fantástico. Li uma dezena de livros acobertados por aquela árvore que passei a amar.

             Minha bela vida de tardes sombreadas durou pouco. Um ano depois quando lá cheguei encontrei uns homens da prefeitura. Faziam medidas aqui e ali. – Oi! O que é isto? Perguntei. - A nova avenida. Isto aqui vai ficar mais agradável. Muitos carros, ônibus, novas casas você vai gostar! Olhei para ele. Coitado. Não sabia que a civilização não trás a felicidade. E minha árvore? Perguntei. Vai ser cortada. Ela fica bem no meio da avenida. – O que posso fazer para vocês deixarem ela viva? – Nada meu amigo. Nada.

             Demorou seis meses. Vi com tristeza em uma manhã de segunda, caminhões, tratores a caminho do meu sonho das tardes assobradadas. Minha árvore ia partir. Ainda bem que estou "Velho". Logo, logo também irei partir. A natureza não é mais a mesma. Não há respeito. Ela é jogada como lixo em todos os lugares. Voltei para minha varanda. Ainda tinha meu canto. Mas que saudades da minha linda árvore que um dia achei que ia durar para sempre!

  • “A árvore que está sendo cortada observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira”.

domingo, 23 de abril de 2017

23 de abril. – Dia do Escoteiro.


23 de abril. – Dia do Escoteiro.

O dia Mundial do Escoteiro é celebrado no dia 23 de abril em homenagem ao padroeiro dos escoteiros São Jorge. Conhecido como um santo guerreiro uma vez que foi soldado de cavalaria, logo cedo ficou conhecido pela sua bravura. Baden-Powell o escolheu para ser nosso padroeiro. Ele o considerava um exemplo e modelo a ser seguido. Afinal São Jorge fez o melhor que pode e, conseguiu superar uma dificuldade que ninguém ousará enfrentar. Costumo dizer para mim mesmo, que entrar para o escotismo é simples e fácil, mas ser um escoteiro não é tarefa para qualquer um.

Força, altruísmo, abnegação, honra, caráter e exemplo pessoal são tão importantes para um escoteiro como respirar. B.P nos deu uma lei para seguir. Saber de cor sem praticar e mesmo reconhecer a força de uma promessa, mesmo ela dizendo fazer o melhor possível não podemos ignorar sua validade. Compete a cada um de nós na vivencia escoteira, sabermos ser corteses, amigos, entender que somos uma fraternidade, nós somos irmãos de ideal não importa qual ideologia tenha sido escolhida. Temos que respeitar e aceitar sempre a todos indistintamente. Aquele que se mete a ser o novo mago escoteiro, que não tem preceitos nem educação no trato com seus demais irmãos seria impossível chamá-los escoteiros.          

Eu olho para mim e digo: - Hoje é o nosso dia. Sei que tem muitos países irmanados no mesmo pensamento. Somos hoje a maior organização de jovens de todo o mundo. Mais de 400 milhões tiveram a honra de passar pelas fileiras escoteiras. Somos um movimento sem igual. Baden-Powell deixou um legado incrível. Foi um homem iluminado e um homem admirável. O pai de todos nós. Nosso líder, nossa trilha, um homem além do seu tempo. Escotismo, uma filosofia rumo à felicidade! 
 Um lindo dia do escoteiro para todos vocês!


PARABÉNS A TODOS OS ESCOTEIROS DO MUNDO E DO BRASIL!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Apenas uma mesa de acampamento.


Apenas uma mesa de acampamento.

                  Era uma mesa simples. Nada diferente de tantas que ele um dia viu outros escoteiros fazerem. Era sua primeira. Teve a permissão de construí-la só. Era um desafio que ele mesmo fez para si. O Monitor lhe disse onde seria o campo da patrulha. Se ele fosse fazer a mesa deveria ficar perto da cozinha. Viu os demais patrulheiros seus amigos planejando e fazendo atividades mil. Sabia que sempre fora assim. Pensou como seria. Quantas achas de madeira, quantos bambus. Multiplicou, fez da álgebra a parte final para não errar as medidas de sua primeira construção.

                  Mãos a obra. Uma machadinha e um facão eram instrumentos preciosos. Proximo ao bambuzal viu dois eucaliptos. Estavam autorizados no corte. Quando o primeiro caiu ele ia gritar “madeira”! Mas sentiu tristeza, pois ela ele sabia que a árvore morrera nas mãos de um Escoteiro. Alguém lhe disse que cortando vinte centímetros acima da terra as mudas ao redor dariam outras três. Não ajudou, mas deu para esquecer a tristeza momentânea.

                   Arrastou-a por trezentos metros. Longe. Não foi fácil. Voltou para os bambus e fez o mesmo. Tirou a camisa escoteira tirou o lenço. Sabia que não se colocava o lenço sem estar uniformizado. O sol a pino, mas não dizem que os Escoteiros não se assustam com nada? Uma estaca e lá esta ele cortando e medindo sua madeira e bambus. Tudo pronto agora era fazer os buracos. Seriam quatro. Quarenta centímetros de fundo no mínimo para que a base fique forte. Uma hora, duas três. Estava agora terminando. Quantas amarras deu? Quantos nós fez? Agora fazia simultaneamente duas costuras de arremate no seu tampo da mesa.

                   O suor não perdoava. Correu até o regato e lavou o rosto, deitou na beirada e bebeu a água cristalina pausadamente com a própria boca. Olhou de longe sua construção. Foi mais perto, pôs a mão na cintura fazendo pose. Olhou de um lado, passou para o outro. Estava deslumbrado com o que fez. Ninguém na patrulha observou ou elogiou. Puderas afinal isto era uma rotina de todos. Pegou a lona, jogou pela viga mestra, já tinha fincado a primeira forquilha. Ele ria da lona torta. Aguarde dona lona, ele disse. Mais quatro espeques. Pronto. Podia chover canivete. Sorriu quando o monitor lhe deu uns tapinhas leve nas costas dizendo – Parabéns!

                   No jantar viu quando todos pegaram seus pratos suas canecas e se dirigiram para a mesa. Ele foi o último. Queria vê-los todos em volta e sentados. Um espetáculo a parte de quem fez. Oraram. “Senhor obrigado por esta refeição, obrigado pela natureza bela que nos deu para viver uns dias, obrigado senhor pela água límpida do córrego, obrigado senhor pela noite, pelos vagalumes e pela Dona Coruja que vai nos olhar com seus olhos espantados”. Amem! Ele baixinho completou: - E pela força que me deu por ter feito a sala de jantar da patrulha. Obrigado Senhor. E ele dormiu tranquilo. Os calos nas mãos iriam fazer efeitos no dia seguinte.


                  Os ossos do corpo doíam e iam piorar, mas ele não se importava. Tinha feito sua parte. Ele não era o único era mais um na patrulha. Dormiu feito um anjo e sabia que este dia seria para ele o inicio de muitos outros que iria mostrar a força de um trabalho em equipe. Amava sua patrulha e por ela daria sua vida. Agora ele sabia como era bom ser Escoteiro e feliz ajudando aos outros e ajudando a sí mesmo!

É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Quanto custa ser um Chefe Escoteiro?


Conversa ao pé do fogo.
Quanto custa ser um Chefe Escoteiro?

                Você tem ideia quanto custa para participar como voluntário no escotismo? Eu sei que tem alguns grupos bem estruturados que assumem todas as despesas. São poucos infelizmente. Mas e os filhos? As mensalidades deles? Nos acampamentos? Também pagas pelo Grupo? Sabemos que os grupos humildes comem o pão que o diabo amassou para que possam atender aos voluntários nas suas necessidades escoteiras. Posso estar enganado, mas só no escotismo o voluntário paga para ajudar. Quem sabe este seja um dos motivos da evasão de adultos. Uma vez perguntei a vários chefes e as respostas me surpreenderam. Não vou repetir aqui todas, mas as principais se referem à tecnocracia de alguns dirigentes, ou mesmo a “arrogância de outros” “ou o profissionalismo de muitos” pensando que os gastos são absorvidos com facilidade pelos chefes escoteiros.

                Pelo sim pelo não alguns sempre afirmam que vale a pena gastar do seu próprio bolso para ajudar e colaborar com os filhos dos outros. Mas conheço alguns que quando chega o fim do mês olham as contas de água, luz, telefone, gás, internet, prestação A, B e C, colégio ou material didático dos filhos e ficam deveras assustados. Sei de outros tantos que estão desempregados. Não irão nas atividades nacionais e regionais programadas, fazer aquele curso, ir ao Jamboree, ao acampamento Contaram-me que em um grupo que os pais perderam o emprego e não podem pagar a mensalidade os meninos foram dispensados.

                Então como ser chefe desempregado? – Sei que existem os Chefes de Grupos que tem uma perfeita estrutura financeira. Sempre dão exemplos como fazem e pagam com prazer as despesas de seus voluntários. Não sei se pagam também as taxas dos jovens. Um deles sempre afirma que arcam com as despesas, viagens e cursos. Afinal a maioria deles tem entre seus associados uma classe média alta e podem ter todas as facilidades que outros não tem. Sei de casos onde ouve separação dos conjugues por causa do Escotismo. Se a esposa, ou a família não participa existe ressentimento. Ver a esposa ou o esposo gastando com o escotismo e sabendo da economia que fazem para arcar com suas necessidades de sobrevivência não é fácil. Mas o menino não tinha condições! Diz o chefe ou a chefe. Tinha de ajudá-lo. E o curso? Precisava fazer. E assim vai. – E tem aqueles que vão para os encontros nacionais e pagam para ser Staff. Ele paga com prazer para ficar a disposição do campo e nem se preocupam se houve despesas de transporte, alimentação ida e volta.

                   Todos nós sabemos que a UEB não aceita nenhuma atividade que dê prejuízo. Não importa qual sempre haverá a taxa dela. Fora do Brasil a taxa é em Dólar. Outro dia li que um chefe dirigente comentou que as taxas são menores que as diárias de um hotel quatro estrelas! Boa essa! Muitos não medem sacrifício. Principalmente se são dirigentes ou formadores não se acanham em aceitar convites, participar de palestras ou mesmo de cursos fora do seu perímetro urbano pagando do próprio bolso. Se você pergunta ele responde: Vale a pena ajudar a juventude do Brasil. Houve uma época que estive na direção escoteira de um estado brasileiro. Lutava para baratear a taxa. Brigava mesmo por isso. Afinal fiz meus primeiros cursos sem ônus, pois a região pagou todas as despesas. Tempo bom que não volta mais.


                  Hoje os profissionais substituíram os amadores do passado. Acho que eu era um amador. Lutava para conseguir auxilio em todos os lugares para ajudar aos jovens a participar de atividades regionais, ou mesmo distritais sem esquecer taxas de cursos com preço simbólicos. A Regional trabalhava com os órgãos públicos, com fábricas para conseguir diminuir as taxas que porventura fossem cobradas. Fazíamos várias atividades regionais e era uma alegria ver as patrulhas chegando completas, cantando, dando seus gritos para um acampamento distrital ou regional. Era diferente, sem tanta pompa de lenços distintivos e o escambal. As patrulhas levavam sua própria tralha, sua intendência e alimentos. Hoje é tudo estilizado. A individualidade prevalece sobre a equipe. Interessante que Baden-Powell quando fundou o escotismo sua preocupação era com os meninos ingleses pobres e humildes.

             Qualquer um sabe quanto pesa as despesas para ser um voluntário. E aqueles que tem dois, três filhos além da esposa participando sabe mais ainda. Não é fácil para alguns cujo salário não dá nem para as despesas familiares. E o pior de tudo que poucos dirigentes se dão conta que podem sim, trabalhar para reduzir custos. Ora bolas, tudo tem que dar lucro? Para que? Para ter um caixa gordo? Despesas existem qualquer um sabe disto, mas vejam bem, as lojas escoteiras são um verdadeiro manancial e o nome escoteiro é um chamariz para muitas empresas. Se você é daqueles que diz: – Eu amo o escotismo, trabalho por ele e acredito que posso ajudar e não reclamo em gastar você não é um bom exemplo. Eu sei que cada um faz o que gosta e eu aceito. Não vou ficar discutindo que não existem almoço grátis. Mas uma boa liderança deve fazer tudo para facilitar a participação dos seus associados em suas atividades.

                    Costumo brincar dando como exemplo o Escoteirinho de Brejo Seco e o seu chefe Zé das Quantas. – Ele na sua simplicidade me diz: - Chefe sou carroceiro, ganho pouco, mas sou honesto e trabalhador. Tenho honra e caráter. Procuro ser amigo dos meus escoteiros e ajudar em tudo que posso, mas não dá para pagar para eles! Parodiando minha Avó, “quem pode, pode, quem não pode se sacode”! Enquanto isto encha os bolsos se quiser ser um voluntário e colaborar para a formação de nossa juventude Escoteira.


Eu não sou pobre, apenas um rico em dificuldade...


Está foto anexa é uma das mais lindas que eu tenho. O sorriso das lobinhas é uma paga por ter sido escoteiro até hoje. Minha alegria em estar junto delas me fazem sim, um Velho Chefe Escoteiro realizado e feliz. Quando chefiava sessões arquei muito com despesas de jovens. Não sou daqueles de bater palmas para dirigentes que não se preocupam com seus associados. Eles são os responsáveis para ajudar os jovens mais humildes nas suas atividades escoteiras. Gosto do primeiro artigo da lei do Lobinho que se aplica bem ao dirigente: - O lobinho pensa primeiro nos outros!

sábado, 1 de abril de 2017

Sustenidos e bemóis, coisas de pardais no ar.


Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Sustenidos e bemóis, coisas de pardais no ar.

“Senhor ajudai-nos a construir a nossa casa Com janelas de aurora e árvores no quintal - Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores E ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores”.

                    A peregrinação me fazia repensar o porquê elevando ao quadrado um sonho abstrato em matemática era como se dirigir ao meu coração que batia calmamente obedecendo às normas surreais de um passeio não programado. Não corria, trilhava o asfalto quente sem eira somente. Pisante macio era como se naquela tarde eu velejava em mar aberto em um céu de brigadeiro. Tarde quente, sol longe do poente. Eu não o via. Estava eu escondido naquela selva de pedra onde se sobressaiam os arranha-céus que queriam tocar as nuvens, mas elas se desmanchavam na poeira do vento amigo. Mente deletéria imaginava como seria fácil ir de encontro ao impossível coisa que não acreditava que pudesse fazer. Sons de veículos passantes, buzinas estridentes, passadas no chão corrente tentando voltar ao lar. Uma gota pequenina de suor correu de mansinho em minha face e se esparramou borrachuda no chão pedregoso. Pensei no homem que faz trabalho penoso, vive do suor do povo. Mentira? Mas não dizem que é fruto de uma jornada, o suor no rosto é custa de muito esforço e grandes penosos sacrifícios?

                  Parei... Eis que sintomaticamente avistei um pequeno parque surgido do nada como se o Mágico Houdini me revelasse que ali era meu lugar. Bonito, resplandecente agora eu ia parquear. Escondido entre as avenidas asfálticas, prédios gigantescos parece que agora encontrei o meu lar. Banco de madeira convidativo, lugar sedutor. Sombra cativante árvores atraentes e áreas esplendidamente vazias. Sentei, me acomodei corporalmente nas curvas gostosas do banco acolhedor. Pensei em voltar meu rosto na direção do sol, e então, as sombras lentamente foram ficando para trás. Amigo, meu objeto direto do desejo de admirar o belo perdido entre as sombras, me alertava que o campo dos sonhos não é onde estamos. Só lá sombras verdadeiras de arvoredo dão as sombras que precisamos. Deixei me levar pelos sonhos. Lembrei-me de Michelle quando escreveu: - Fechei os olhos e me comprometi a sonhar com você. Disse ao sono: venha logo, para que eu possa vê-lo, para que eu possa senti-lo, para que eu possa ter um pouco mais do pedacinho do céu. Logo adormeci. De repente o sol poente estava sumindo.

                            Foi então que me dei conta que era ela que me fazia sonhar. Linda Arvore enorme, verde que te quero verde, uma sombra que se espalhava ao redor do meu mundo que encontrei perdida naquela praça desaparecida entre o os prédios daquela cidade de pedra. Olhei para ela, como era bela, era como se eu disse sem dizer, “eu sei que já faz tempo, mas ainda amo você”! Sombra enorme, vivente, escondida do sol poente braços enormes, me voltei no tempo. Ah! De Camisa de Escoteiro subia como anarquista, explorador, batedor ou pioneiro a descobrir ate aonde ia e onde podia chegar. Elas as árvores que me acolheram sorriam sem me condenar. Venha! Suba você não é um agitador ou um anarquista, aproveite dos meus galhos faça de mim o que quiser... E lá eu ia na correia de mateiro, como bom e valente Escoteiro a explorar as alturas do Jequitibá, da Peroba Rosa, do Pau Brasil e de tantas que se alegraram em me abraçar...

                          Eu absorto naquele lugar encantado, pensativo e concentrado olhava a árvore como se ela sempre fizesse parte da minha vida. A tarde foi se aconchegando no horizonte. Eu me sentia abraçado, amado, e por ela adotado tinha certeza que éramos um só. Eu e a árvore da Praça do arredor. Um bordel de sons começou a se formar. Ventania de revoada, como se fossem trovões tocados ao longe por uma mão invisível naquele céu escuro do alvorecer. Olhei para o céu espantado e vi que a hora tinha chegado. Milhões deles, já iam se recolher. Como se fosse uma sinfonia com sustenidos e bemóis vi que eram coisas de pardais no ar. Nada de novo no front para um Velho que tinha a natureza na alma e viveu tantas sinfonias de rádios de pássaros errantes tocadas em plena floresta do Pica Pau e o Bem ti Vi. Eles foram alcançando os mais altos galhos, os grasnados foram escasseando. Aos poucos o silencio retornou com a brisa fresca do ar. Os pardais dormiam. Hora de partir, levantei tropegamente.

                            Uma partida silenciosa. Não iria acordar a orquestra sinfônica que resolveu se acomodar na mais bela árvore do lugar. Uma duas três passadas trêmulas. Parei. Voltei o rosto para a praça. Tudo quieto, tranquilo, calmo e sossegado. Os pardais dormiam sobre a proteção da árvore da vida. Árvore tão querida que os passantes do dia não sabiam o tesouro que tinham ali intocável, mas que todos podiam usufruir ou desfrutar. Mudei de pensar, sorri ao andar, pensei que nada seria como hoje para mim dora em diante. Pião de madeira... Carrinho de ferro... Tudo era tão solido... Ah! Vida tão cheia de vida, mas que um dia vai acabar...

Gosto quando me falas de ti... e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos
Tranquilos

Gosto quando me falas de ti... e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs...
J.G. de Araújo Jorge.


Um som nostálgico, pardais passam ser dizer aonde vão. Meus pensamentos voam pelo céu. Deu-me uma vontade de sentir sinfonias de pardais a cantar no alvorecer. Nesta hora faço poemas, as poesias vêm com vontade bater na porta do meu coração. Escrevo, uma musica soa em meus ouvidos, fecho os olhos, os dedos se esparramam sobre teclas brancas e linhas negras resplandecentes vão mostrando o que vai por entre meus sonhos. Sou sim, um poeta Escoteiro, um mero pardal no ar...