HOTEL ESCOTEIRO

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cada foto tem uma história

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A embriaguez da primavera. Parte III.


A embriaguez da primavera.
Parte III.

-"O amanhã é nosso. Somos do mesmo sangue, tu e eu... Boa caçada!" Disse Kaa... - As estrelas desmaiam, concluiu o Lobo Gris, de olhos erguidos para o céu. Onde me aninharei amanhã? Porque dora em diante os caminhos são novos”.

– Porque não morri nas garras dos dholes, gemeu Mowgly. Minha força esvaiu-se e não foi veneno. Dia e noite ouço um passo duplo no meu caminho. Quando volto à cabeça sinto que alguém se esconde atrás de mim. Procuro por toda parte atrás dos troncos, atrás das pedras, e não encontro ninguém. Chamo e não tenho resposta, mas sinto que alguém me ouve e se guarda de responder. Se me deito, não consigo descanso. Corria corrida da primavera e não sosseguei.

Banho-me e não me refresco. O caçar enfada-me. A flor vermelha está a ferver em meu sangue. Meus ossos viraram água. Não sei o que... – Para que falar? Observou Baloo. Akelá disse que Mowgly levaria Mowgly para a alcateia dos homens outra vez. Também eu o disse, mas que ouve Baloo? Bagheera, onde está Bagheera esta noite? Ela também sabe disso, é da lei.

– Quando nos encontramos nas Tocas Frias, homenzinho, eu já o sabia, acrescentou Kaa. Homem vai para homens, embora o Jângal não o expulse. – A Jângal não me expulsa, então? Sussurrou Mowgly. O irmão Gris e os outros três uivaram furiosamente: – Enquanto vivermos ninguém ousará...

Mas Baloo interrompeu: – Eu ensinei-lhe a lei, disse. A mim cabe falar, embora meus olhos não vejam a pedra que está perto, enxergam tudo que está longe. Rãzinha toma teu trilho, faz teu ninho com esposa do teu próprio sangue e de tua raça; mas quando necessitares pata, olho ou dente, lembra-te, senhor do Jângal, que todo o Jângal acudirá o teu apelo. – Também o Jângal médio estará contigo, disse Kaa. Falo por um povo muito numeroso.

– Ai de mim! Exclamou Mowgly em soluços. Eu não sei o que sei! Não vou, não vou, não quero ir, mas sinto-me arrastado por ambos os pés. Como poderei deixar de viver estas noites do Jângal? – Ergue os olhos, irmãozinho, disse Baloo. Não há mal nisso. Quando o mel está comido, abandonamos os favos. – Depois que soltamos a pele velha, não podemos vestir de novo, ajuntou Kaa. É da lei.

– Ouve querido de todos nós, disse Baloo. Não há aqui, nem haverá palavra que te detenha entre nós. Ergue os olhos! Quem ousará interpelar o senhor do Jângal? Eu te vi brincando no pedregulho, lá embaixo, quando não passava de pequenina rã; e Bagheera, que te comprou pelo preço de um touro gordo, viu-te também. Daquela noite do “Olhai, olhai bem ó lobos!”, só ela e eu restamos de testemunhas; Raksha, tua mãe adotiva, está morta, teu pai adotivo está morto; a velha alcateia daquele tempo não existe; tu sabes o fim que teve Shere-Kahn e viste Akelá acabar entre os dholes, que nos teriam destruído se não fosses tu. Só vejo ossos, velhos ossos.

Hoje não é o filhote de homem que pede licença a sua Alcateia, é o senhor do Jângal que resolve mudar de caminho. Quem pedirá contas ao homem do que ele quer ou faz?

– Bagheera e o touro que me comprou! Respondeu Mowgly. Eu jamais... Suas palavras foram interrompidas por um rumor nas moitas próximas. Lépida, forte e terrível como sempre, Bagheera acabava de saltar para dentro do grupo. – Pelo que acabas de dizer, disse ela, estirando o corpo, não vim. Andei em caçada longa, mas agora ele está morto na relva, um touro de dois anos, o touro que te vai libertar irmãozinho!

Todas as dívidas assim ficam pagas. Além disso, minha palavra é a palavra de Baloo. A pantera lambeu os pés de Mowgly. – Lembra-te que Bagheera te ama, disse ela por fim, retirando-se num salto. No sopé da colina entreparou e gritou: Boas caçadas em teu novo caminho, senhor da Jângal! Lembra-te sempre que Bagheera te ama.

– Tu a ouviste, murmurou Baloo. Nada mais há a dizer. Vai agora, mas antes vem a mim. Vem a mim, ó sábia rãzinha!

– É difícil arrancar a pele, murmurou Kaa, enquanto Mowgly rompia em soluços com a cabeça junto ao coração de urso cego, que tentava lamber-lhe os pés.

– As estrelas desmaiam, concluiu o lobo Gris, de olhos erguidos para o céu. Onde me aninharei doravante? Porque agora os caminhos são novos...


FIM

Nota final: -  E Mowgly chega à idade adulta. Quase todos os que conheciam na selva já estão mortos. Os que sobraram estão pouco se importando com sua crise existencial, já que é primavera e todos estão ocupados com seus afazeres. Entediado, deprimido e irrequieto, Mowgly vaga pela floresta sem saber o que lhe acomete. Quer conhecer mais? - Não esqueça, o Livro da Selva é o livro de cabeceira dos chefes de lobinhos. E segunda feira próxima peça o BLOCO 27 Lobinhos em ação II com estas três partes da Embriaguez da primavera e de novas aventuras de Mowgly o Menino da Selva no meu e-mail.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A embriaguez da primavera. Parte II.


A embriaguez da primavera.
Parte II.

A EMBRIAGUEZ DA PRIMAVERA

“O homem ao homem! É o desafio do Jângal!
Já parte aquele que foi nosso irmão.
Ouvi, então, julgai, ó vós, gente da Jângal
Respondei: quem irá detê-lo então?

O homem ao homem! Ele soluça na Jângal!
O nosso irmão se aflige dos males supremos.
O homem ao homem!  Nós os amamos na Jângal!
Esta é o sua trilha e nós não mais o seguiremos.
Do Livro da Jângal de Rudyard Kipling.

– Dorme, disse a mulher. Foi algum chacal que uivou para os cães. Escondido nos arbustos, Mowgly tremeu. Aquela voz, ele a conhecia. Mas para melhor se certificar, gritou baixinho, surpreso de ver como a língua dos homens lhe vinha fácil:
– Messua! Messua! - Quem chama? A mulher indagou com voz trêmula.
– Nathoo! Respondeu Mowgly, pois fora esse o nome que lhe dera Messua quando o encontrou pela 1ª vez. - Vem meu filho. Ela o acolheu, deu-lhe de beber e comer e apresentou-lhe o irmãozinho. Cansado Mowgly deitou-se e mergulhou em profundo sono.

Quando acordou Messua sorriu e serviu-lhe outra refeição. Nesse instante irmão Gris chamou-o lá fora. Era hora de ir. Messua pôs-se ao lado de Mowgly humildemente ele era realmente um Deus da Jângal, mas quando o viu abrir a porta para sair, a mãe que havia dentro dela a fez abraça-lo várias vezes.

– Volta outra vez, repetiu Messua. De dia ou de noite, esta casa estará sempre de porta aberta pra ti. A garganta de Mowgly apertou-se. Sua voz parecia como que arrancada à força quando respondeu: Sim, voltarei! -E agora, murmurou depois que saiu, tenho minhas contas a ajustar contigo, irmão Gris. Por que vós quatro não viestes quando vos chamei, há tanto tempo? – Tanto tempo? Foi ontem, eu... Nós estávamos cantando no Jângal os novos cantos, porque o tempo das falas novas é chegado. Não te lembras? -É verdade, é verdade...

E logo depois dos cantos, segui teu rastro. Passei à frente dos outros e vim até aqui. Mas, ó irmãozinho, que te aconteceu que estás de novo comendo e dormindo na alcateia dos homens? - Se tivesses vindo quando te chamei, isto nunca se daria, respondeu Mowgly, apressando o passo.

E agora como será? - Perguntou o lobo. - Mowgly ia responder, quando uma mocinha trajada de branco surgiu no caminho que levava À aldeia. Mowgly segui-a com os olhos por entre os talos de milho até que seu vulto se perdeu ao longe. -E agora? Agora não sei... Respondeu finalmente, suspirando. Porque não vieste quando te chamei? Nós te seguimos, murmurou o lobo. Nó te seguimos sempre, exceto no tempo das falas novas.

-E me seguireis na alcateia dos homens também? - -Não o fizemos na noite em que os de Seeonee te expulsaram do bando? Quem te despertou quando dormias nas roças? -Sim, mas me seguireis de novo.

– Não te segui eu esta noite? – Mas me seguireis sempre, sempre, sempre e outra vez, outra vez e outra vez, irmão Gris? O lobo calou-se por uns instante. Quando abriu a boca foi para dizer a si próprio: - A pantera negra falou verdade... ... Que o homem volta sempre para o homem, no fim Raksha, nossa mãe, também disse. E Akelá também na noite do ataque dos Dholes, acrescentou Mowgly. E também Kaa, a serpente da rocha, que possui mais sabedoria do que todos nós.

-E tu irmão gris, que desses tu? Eles já te expulsaram uma vez. Eles te feriram nos lábios com pedra. Eles mandaram Buldeo matar-te. Eles queriam lançar-te na flor vermelha. Tu e não eu, disseste que eles eram muito maus e insensatos. Tu, e não eu, eu sigo meu próprio povo, foste admitido no Jângal por causa deles. Tu, não eu compuseste cantos contra eles, ainda mais amargos que os nossos contra cães vermelhos.

– Para! Que estás dizendo? O lobo gris ficou uns instante calado, depois falou: – Filhote de homem, senhor da Jângal, filho de Raksha, meu irmão de caverna: embora eu fraqueie nas primaveras, o teu caminho é o meu caminho, o teu antro é o meu antro, a tua caça é a minha caça e a tua luta de morte é a minha luta de morte. Falo por mi e pelos outros três. Mas que irás dizer ao Jângal?

Bem pensado. Vai e reúne o conselho na Roca, que quero dizer a todos o que tenho no coração, mas talvez não compareçam: no tempo das falas novas todos se esquecem de mim... – Só isso? Perguntou o lobo Gris, pondo-se em marcha. Em qualquer outra estação aquela novidade teria reunido na Roca o povo inteiro do Jângal; mas era o tempo das falas novas e andavam todos dispersos, caçando, matando. Para um e para outro, corria o lobo Gris com a nova: – O senhor do Jângal volta para os homens! Vamos a Roca do Conselho!

E ruidosos e felizes os animais respondiam: – Retornará nos calores de verão. Vem cantar conosco. – Mas o senhor do Jângal volta para os homens, repetia. – E daí! O tempo das falas novas perde alguma coisa com isso? Desse modo, quando Mowgly, de coração pesado chegou à Roca, onde anos atrás fora trazido ao conselho, apenas encontrou lobos irmãos, Baloo, que já estava quase cego e a pesada Kaa enrodilhada sobre a pedra de Akelá, ainda vaga.

– Termina então aqui o teu caminho, homenzinho? Perguntou a serpente, logo que Mowgly se sentou. Grita o teu grito! Somos do mesmo sangue, eu e tu, homens e serpentes!

– Porque não morri nas garras dos dholes, gemeu Mowgly. Minha força esvaiu- se e não foi veneno. Dia e noite ouço um passo duplo no meu caminho. Quando volto à cabeça sinto que alguém se esconde atrás de mim. Procuro por toda parte atrás dos troncos, atrás das pedras, e não encontro ninguém. Chamo e não tenho resposta, mas sinto que alguém me ouve e se guarda de responder. Se me deito, não consigo descanso. Corria corrida da primavera e não sosseguei.

Continua...

Nota: - “É difícil trocar a pele”, disse Kaa [a serpente], enquanto Mogli soluçava e soluçava com sua cabeça no dorso do urso cego, e com os braços ao redor do seu pescoço, enquanto Balu tentava debilmente lamber seus pés. - Parte II do Conto A Embriaguez da Primavera do Livro da Selva. Amanhã a Parte III. A última.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

A embriaguez da primavera. Parte I


A EMBRIAGUEZ DA PRIMAVERA – PARTE I.
Nota para os leitores: - Por favor, não esperem algum impressionante e nem excepcional desta publicação. Este é apenas um condensado do conto A embriaguez da primavera. Não sou um emérito conhecedor do Lobismo e li apenas quatros vezes o Livro da Jângal. Tenho Rudyard Kliping como um grande mestre na arte de Contar Histórias. Para os que ainda não possuem suas publicações eu sugiro que as tenha, pois elas nos dá uma tremenda força em nossa atuação junto aos jovens. Aguardem para breve a Parte II.

A embriaguez da primavera.
Parte I

O abutre Chill conduz a noite incerta
E que o morcego Mang ora liberta -
É esta a hora em que adormece o gado,
Pelo aprisco fechado.
É esta a hora do orgulho e da força
Unha ferina, aguda garra.
Ouve-se o grito: Boa caça aquele
Que a Lei d Jângal se agarra”.

Canto noturno da Jângal.
Kipling.

Dois anos depois da morte de Akelá na grande luta com os dholes, Mowgly completou 17 anos. Parecia mais velho porque o intenso exercício, a forte alimentação e os banhos frequentes lhe haviam dado força e desenvolvimento acima da idade. O povo da Jângal, que já o temia pela astúcia, passou a temê-lo pela força.

Um dia estavam Mowgly e Bagheera na encosta do morro frente à Waingunga. Era o fim do inverno. Sentado, Mowgly contemplava o vale semi-desperto. Um pássaro lá embaixo trinava as primeiras notas, ainda incertas, do canto que iria entoar na primavera. Embora esse canto ainda fosse só um ensaio, a pantera reconheceu-o.
-Eu não disse que o tempo das falas novas vem próximo? Relembrou ela. É Ferao, o pica-pau escarlate. Ele não esqueceu. Ora, eu também preciso recordar o meu canto e pôs- se a ronronar para si própria.

– Não há nenhuma caçada para hoje, observou Mowgly. – Irmãozinho, estarão teus dois ouvidos tapados? Isto que canto não é palavra de caça, mas canto que quero ter pronto para a primavera.

– tinha me esquecido. Reconheço muito bem a chegada das falas novas, estação em que tu e os outros correreis para longe, deixando-me sozinho, respondeu Mowgly queixoso. Vós debandais e eu, Senhor da Jângal, tenho que viver sozinho.

Até aquele ano Mowgly se deleitara com o retorno das estações. Era ele quem, antes de todos, descobria o primeiro olho da primavera e as primeiras nuvens da estação. Sua voz era ouvida em todos os lugares, a fazer coro com os outros animais. Como para todos os outros, a primavera era para ele o tempo de correr, só pelo prazer de correr do anoitecer ao amanhecer e voltar ofegante, rindo-se, cheio de flores raras.

O povo da Jângal está constantemente ocupado na primavera; Mowgly via-os sempre rosnando, uivando, gritando, piando , silvando, conforme a espécie de cada um. Suas vozes mostram-se diferentes então; e por isso a primavera no Jângal é chamada o Tempo das falas Novas.

Mas naquela estação o humor de Mowgly estava mudado, quando tentava responder algum animal as palavras embaraçavam-se lhe nos dentes, uma sensação de pura infelicidade o invadiu da cabeça aos pés.

– Comi bem, disse o rapaz a si próprio, bebi bem, minha garganta não arde nem aperta. - Mas tenho o estômago pesado e tratei mal a Bagheera e outros. Ora me sinto quente, ora frio; ora nem quente nem frio, mas apenas furioso contra não sei que. Ah-ah! É tempo de dar minha carreira. Esta noite cruzarei as montanhas; sim darei uma corrida de primavera até os pantanais do norte, ida e volta. De muito que caço sem esforço, isto me enerva.

- Como não encontrou nenhum de seus irmãos lobos para correrem juntos, Mowgly saiu sozinho, aborrecido por isso.

Assim correu ele aquela noite, ás vezes gritando, ás vezes cantando; correu até que o cheiro das flores o visou que estava próximo dos pantanais e longe, muito longe da sua Jângal. Avistou uma estrela bem baixa e olhou pelo canudo da mão.
– Pelo touro que me comprou é a flor vermelha, a flor vermelha que deixei pra trás de mim quando me mudei para a alcateia de Seeonee. Agora, que a vejo de novo, dou por fim a minha corrida.

Mowgly correu descuidadamente pela relva úmida até alcançar a cabana de onde vinha à luz. Uns cães latiram. Ele emitiu um profundo uivo de lobo que fez os cães calarem. A porta da cabana abriu-se e uma mulher espiou no escuro. Dentro, uma criança começou a chorar.

Continua...

Nota:  “A minha força se foi de mim, e não é veneno nenhum”. Assim Mowgly conta para os poucos amigos que atendem seu chamado. “De noite e de dia eu ouço passos me seguindo. Quando viro minha cabeça, é como se alguém houvesse se escondido naquele instante. Vou olhar atrás das árvores e ele não está lá. Grito e ninguém grita de volta; mas é como se alguém tivesse ouvido e guardado a resposta. Deito, mas não descanso. Corro a corrida da primavera, mas nada me aquieta. Tomo banho, mas não fico frio. A flor vermelha [o fogo] está nos meu corpo, meus ossos são água – e – eu não sei o que sei”. – Amanhã a Parte II. Boa caçada.

terça-feira, 25 de julho de 2017

"O Livro da Selva", de Rudyard Kipling.


"O Livro da Selva", de Rudyard Kipling.

- Nota: A partir de amanhã dia 26 de julho, darei início a publicação de uma das principais aventuras de Mowgly do Livro da Selva. – “A Embriaguez da Primavera”. Sei que todos aqueles amantes de Kipling e atuantes ou não de Alcateias de Lobos já conhecem de cor e salteado, mas tem muitos que ainda não. Serão três publicações uma em cada dia. No final os interessados poderão pedir em PDF à publicação que colocarei com satisfação no Imbox de cada um. Enquanto isto um preâmbulo do livro da selva:

- O livro de Rudyard Kipling é composto por sete contos diferentes, todos eles tendo animais como protagonistas. Concentremo-nos, porém, nas três primeiras narrativas que têm como principal figura o pequeno Mowgly, uma criança humana. É neste conjunto de contos que Kipling melhor explora a principal temática do livro: o código de conduta dos animais, pois também eles se organizam e têm valores morais e regras de coexistência.

- O primeiro conto, "Os Irmãos de Mogli", começa com a surpreendente chegada de um bebé humano a uma toca de lobos. Corajoso e expedito, o pequeno ser consegue calmamente escapar das garras do tigre coxo, o fanfarrão Chery Kaan, e do mesquinho chacal Tabaqui. O Pai e a Mãe lobos, habitantes da toca, têm crias recém-nascidas e sensibilizam-se com a audácia e vitalidade do pequeno "cachorro de homem". Protegem-no de Chery Kaan e insistem em mantê-lo na alcateia Seeonee.

- Mas para tal é necessário que o conselho dê consentimento, o que acaba por acontecer graças às intervenções de Balu, o urso pardo, e de Bagheera, a pantera negra, que intercedem a favor do pequeno Mowgly. Ao longo do conto, Mowgly vai aprender as regras da Selva, segundo os ensinamentos rigorosos de Balu - que admira a inteligência e a perspicácia do seu pupilo, mas que é rígido na maneira de ensinar -, e enfrentar um dia-a-dia de felicidade, mas também de perigo. Para tal, a presença de Bagheera como sua protetora incansável vem a revelar-se fundamental.

- Chery Kaan não desiste de tentar capturar Mowgly e a alcateia deixa de ver com bons olhos a presença de um ser humano entre os animais selvagens. No final, quando Akela, o chefe da alcateia, começa a ser contestado por ser um líder enfraquecido - e por Chery Kaan fomentar a sua contestação... - Mowgly vê-se obrigado a abandonar a sua família adotiva e a regressar ao meio dos homens. Porém, não o faz sem que antes exija o respeito dos que tentaram traí-lo, sem que registre a lealdade dos que nunca o abandonaram e, acima de tudo, sem que garanta a segurança do velho Akelá.

- Má experiência entre os humanos O segundo conto relata um episódio em que Mowgly é raptado pelos loucos macacos da tribo Bândarlogue, coisa que acontece ainda algum tempo antes de o pequeno humano abandonar a alcateia. Os Bândarlogue são os únicos animais da selva que não merecem o respeito, nem tão pouco a atenção, de todos os outros animais. São disparatados, vaidosos, não têm líder nem leis, julgam-se superiores e não respeitam as regras dos outros. Balu proíbe Mowgly de ter contato com esta tribo. Mas, quando o faz, já é demasiado tarde, pois Mowgly já terá sido assediado pelos macacos, que acabam por raptá-lo e levá-lo para as Moradas Frias, uma aldeia abandonada já fora da selva.

- Balu, Bagheera e Kaa, uma piton que é o único animal que os Bândarlogue temem, veem-se obrigados a lutar pela vida de Mowgly e pelas suas próprias vidas. Mas a batalha termina com uma farta recompensa para Kaa. No terceiro conto sobre a vida de Mowgly, o pequeno homem já é um habitante da aldeia. Contudo, Mowgly não se sente confortável entre os homens, pois foi criado entre animais, os quais têm regras diferentes. Além disso, os homens nem sempre respeitam os animais como deveriam. Durante a estadia na aldeia, Mowgly toma conta de gado, aprendendo a conduzir manadas.

- A dada altura, o lobo Irmão Cinzento encontra-se com Mowgly para alertá-lo sobre as intenções de Chery Kaan, que planeia capturá-lo, agora entre os Chery Kaan. É então que Mowgly cumpre uma promessa antiga: ele próprio acaba por capturar o tigre, contando com a ajuda da manada, de Akelá e do Irmão Cinzento. Mas, por causa da forma como Mowgly controla os animais e comunica com eles, a aldeia acusa-o de bruxaria e o expulsa. O pequeno regressa à selva onde constitui uma "tribo" própria, juntamente com aqueles que sempre lhe foram leal.

- “O Livro da Selva" foi escrito por Rudyard Kipling em 1894. Anos mais tarde, em 1907, o mesmo Kipling tornava-se no primeiro escritor inglês a receber o Nobel da Literatura. A habilidade com que o livro é escrito, a inteligência das histórias e um profundo conhecimento do mundo animal - ao qual não será alheio o facto de Kipling ter nascido em Bombaim, na Índia, e ter vivido durante muito tempo em território indiano - oferecem uma deliciosa leitura sobre o reino dos bichos, que também sabem comportar-se e organizar-se, fazendo uso de regras e de códigos de conduta. Haverá até situações e personagens em tudo semelhantes às que existem fora da selva, no mundo dos homens...


Boa Caçada e Melhor Possível!

Nota: - Se você ainda não leu ou não está lembrando do que Kipling escreveu no seu livro da Selva sobre a “A embriaguez da primavera” – A partir de amanhã irei publicar em três capítulos um condensado que tenho certeza vai lhe dar maior conhecimento na sua lide Escoteira voltada para os lobinhos. Melhor Possível. 

domingo, 23 de julho de 2017

Se arrependimento matasse...


Se arrependimento matasse...
Todo mundo sempre tem uma história para contar.

                      Nestes dias friorentos não tenho tido ideias para escrever. Tenho quatro contos iniciados e nenhum terminado e outros para serem melhorados. Vamos ver se a partir de segunda as ideias aparecem, pois se não meu estoque vai acabar. Quando as histórias surgem elas vem aos borbotões. Fico animado. Escrevo sem parar. Hoje fiquei sentado em frente a esta maquinha infernal e depois de duas horas vi que meu traseiro pediu para levantar e ir andar. Começou a doer. Ele não me dá ordens, mas me lembrei de um fato que tive pena dele. Não foi fácil e apesar de que todos nós escoteiros temos espírito de aventura sempre sonhamos com alguma coisa diferente e quando acontece o arrependimento bate forte. Nas novelas, nos livros que lemos a realidade é bem diferente.

                     Eu tive a felicidade de ser gerente de uma fazenda no norte de Minas. Foi a melhor época de minha vida e da família. Ar puro, dois rios ribeirinhos, uma imensidão de terra e dez mil cabeças de gado para cuidar. Dormia às sete da noite e levantava às cinco da manhã. Um ano que labutava naquela lida e fiquei sabendo que um fazendeiro próximo tinha uma “vacada” Nelore para vender. O preço convidativo. Aconteceu de o diretor passar um fim de semana conosco. Autorizou. De carro fui conhecer a boiada. Vi que valia a pena comprar. A seca andava forte na região por isso o preço mínimo. Tínhamos ainda bons pastos e muitos silos de ração. Depois de adquirirem peso ganharíamos um bom dinheiro. Comecei a pensar a grande aventura que seria de levar um gado a grandes distâncias. Tinha lido muito sobre isto.

                   Manezinho o Chefe dos Vaqueiros desaconselhou. – Se o senhor contratar uns seis caminhões em menos de seis horas eles estarão aqui na fazenda. Trazer uma boiada hoje não é fácil. Vamos demorar uns cinco dias. – Seu Osvardo, o senhor já reclama de ficar em uma sela por mais de duas horas pense que serão mais de cinco dias. São mais de 170 quilômetros. Não adiantou. Minha vida de escoteiro não podia deixar de lado aquela aventura que nunca tinha feito. Organizamos tudo. A boiada não era grande. Umas duzentas e oitenta cabeças. Raimundinho que morava na beira do rio das Velhas disse conhecer uma picada que poderia diminuir em mais de oito léguas a viagem. Ele entrou na “comitiva”. Éramos seis. Sarduá disse que tinha experiência de rancho. Iria ser o cozinheiro. Um dia e meio estaríamos na fazenda do Arlindo. Mandei avisar de nossa chegada. Em dois dias estaríamos retornando com a vacada.

                   Saímos da fazenda com as mulheres e filhos dando adeus. Sentia-me importante. Eu tinha uma égua que nos dávamos muito bem. Até hoje não me esqueço da Ventania. Todo “posudo” dei adeus para a Celia e os meninos. Foram dias no lombo da égua. Meus amigos, a aventura se transformou em um pesadelo. Um dia abotoado em uma sela dura foi à conta. O trazeiro doía horrivelmente. Fiquei de bico calado, mas a vaqueirada ria a valer. Na volta pensei que não aguentaria. Foram mais três dias e meio de suplício para retorno. Virava o trazeiro para um lado, virava para outro e nada. Forrei a sela com minha manta, fiz um travesseiro de capim, mas não adiantava. Quando atravessamos a porteira da fazenda gritei para o Manezinho para prender o gado na curralama da larguinha. – Amanhã vamos fazer o que precisamos disse.


                  Tomei um banho, e fui direto para a cama. Dormi gemendo deitado de bruços com o trazeiro para cima. Celia passando água com sal. Foram quatro dias de sofrimento. Mas não dizem que devemos aprender a fazer fazendo? Risos. Até que sim, mas eu nunca mais iria inventar moda. Dizem que para ser um vaqueiro ou cavaleiro é preciso criar calo na “bunda”. Três anos depois os calos apareceram. Me adaptei a andar a cavalo sem nunca mais reclamar.  Chega por hoje, um dia conto mais, pois tenho histórias de lá para dar e vender. Eita vida gostosa da boa. Dois rios, o Das Velhas e o Velho Chico, peixes, carne, plantações e o ar puro que me ajudou muito na minha vida ontem e hoje. Enfim nada que é bom dura para sempre e eis que o destino me trouxe a São Paulo. Acho que aqui ficarei até o meu fim.

nota: - Procurei um conto escoteiro para publicar. Tinha alguns, mas não eram tão bons para tão exigentes leitores que passam longe de um comentário. Assim peguei nas minhas páginas da vida um conto real, nada escoteiro de um dos meus melhores tempos neste mundo de Deus. Cinco anos em uma fazenda. Cinco anos de felicidade. E são tantas histórias para contar...

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Deixe o frio me levar.


Conversa ao pé do fogo.
Deixe o frio me levar.

                       Tem gente que gosta tem gente que não. Eu por exemplo nunca me adaptei a ele. Fiz escotismo em terra quente, calor gostoso e o frio não era assim tão frequente. Mas hoje não. Tem vez que o frio é de lascar. Vem com tudo, não perdoa. Entra pelas fresas das janelas, por baixo da porta e sem um bom aquecedor você só tem uma solução se enrolar em tudo que é felpudo. Aqui em Sampa passei por gostosas fases de frio em acampamentos. E quem não passou?

                      Mas olhe de todos os acampamentos friorentos eu tive um que nunca esqueci. Foi demais. Por volta de 1970 eu era Comissário Regional em Minas, DCB (Diretor de curso Básico) e empolgado em dar uma guinada no crescimento quantitativo e qualitativo no escotismo estadual. Não media sacrifícios. Viaja por cidades, por arraiais, de ônibus, de bicicleta, de carro de amigos, pois eu não tinha. Quem pode contar aquelas divertidas viagens nunca vai esquecer. Lembranças do meu amigo Marcial e Vander. Este último um companheirão com sua Rural cruzando estrada de terra asfalto e até abrindo trilhas por onde muitos juravam que ele não iria passar.

                     O Sul de Minas naquela época era pobre em grupo escoteiro. Acreditava que se organizasse um bem estruturado em alguma cidade de lá tudo poderia evoluir melhor. Escolhemos uma que mesmo não sendo central tinha tudo para ser um polo escoteiro no futuro. Havia interesse das autoridades, de pessoas bem relacionadas no meio educacional e assim começamos a visitá-la, dando palestras, cursos preliminares, Indabas e o Grupo começou a dar seus primeiros passos. Deixo aqui em OF o nome da cidade e do grupo assim como seus chefes e colaboradores.

                     Os voluntários já preparados precisavam de um cursos Básico de Lobo e Escoteiro. A cidade não tinha estrutura para montar um curso no campo como se previa. O de lobo sim, mas o de escoteiro não. Naquela época os CABs eram ainda aplicados em cinco dias em regime de campo. Nós tínhamos na região um material razoável. Poderia ser no Zoológico ou então em outro próximo a capital, distante uns 120 km, área muito boa, pertencente ao estado e que estava sempre a nossa disposição.

                     Montamos o curso em julho de 1970 ou 71 não me lembro bem. Tive a sorte de contar com o Chefe Padre João Fagundes DCIM (falecido) de Juiz de fora na equipe. Sem esquecer o Blair o Wander e mais dois IMs. Sem comentários os preparativos e as inscrições. Vieram do grupo em formação dezoito e mais doze de outras cidades. O curso começou de vento em popa. Havia um senão, um frio de rachar e nossas barracas eram feitas de Paraquedas, boas para chuva, mas péssimas para segurar o frio.

                     No terceiro dia a temperatura caiu para mais ou menos quatro graus negativos. Ensinamos e mostramos como fazer um fogo espelho e na chefia fizemos um como exemplo. Quem já fez sabe que ele é sensacional e mantem a barraca quente por toda noite. Algumas patrulhas fizeram seu fogo espelho duas não. Eram exatamente a maioria daquela cidade do sul de Minas. Na manhã do quarto dia, quando da alvorada as seis, notamos que os chefes da cidade em questão não compareceram a chamada para a física. Foi então que soubemos que eles pela madrugada se foram.

                   Motim? Revolta? Eu nunca tinha ouvido falar nisto. Abandonar um curso de Chefes? Não desistimos e o curso continuou. Para completar duas Patrulhas os dois IMs se ofereceram para participar como cursantes. Sei que passar a noite em uma barraca sem a devida proteção não é fácil. O curso até que foi razoável. Temperatura abaixo de zero sempre. Mas as dificuldades são para nos ensinar ou para fugir? Fiquei nos primeiros dias descontente e contrariado, mas havia outros que precisavam de ânimo e a equipe não fugiu a sua responsabilidade.

                   Uma semana depois nos mandaram uma carta explicativa. Sei que tudo foi obra do novo Comissário Distrital um Diretor de um colégio local que não estava preparado para a vida de campo. Peguei o ônibus em uma sexta à noite e fui lá. Valeu. Eles estavam abatidos, avergonhados e arrependidos. Isto não desanimou a ninguém. Quatro meses depois fizemos outro curso. Tempo mais quente e curso quente demais. O Grupo cresceu e se tornou um distrito modelo. O tempo passou. Sei que lá ainda existe não só um, mas dois grupos irmãos.

                   Aprendi muito nos meus cursos do passado, onde valia mais a amizade e compreensão do que a exigência de uma norma que muitos acreditam existir para viver e participar de cursos escoteiros. Quantas vezes nestes cursos ficávamos até meia noite, uma da manhã em volta de uma fogueira conversando sobre escotismo? Quantas vezes mudamos o programa por descobrir outra fórmula para aprender fazendo? E quando os cursos chegavam ao fim, em carreata íamos para uma pizzaria ou um boteco tomar umas cervejas e contar causos e causos?


                   Pois é. Eram outros tempos. Dávamos valor à fraternidade, a simplicidade de um Diretor de Curso e um aluno ainda desabrochando para o escotismo. E o frio? Puxa vida! Mata do Tenente, Vale do Sino, Serra da Piedade, Serra do Cipó, Pico dos Marins, Caparaó, Itatiaia e aqui em Sampa São Lourenço da Serra Sitio da Viúva, Mata da Anhanguera, Serra do Mar, quantas saudades. Contavam que muitos pela manhã não conseguiam lavar o rosto. Tudo gelo. Quem esteve lá sabe como foi. Risos.             

nota  - O frio está de rachar. Eu não gosto de frio. Vivi aventuras enormes acampando com temperaturas baixas. Muitas abaixo de zero. Hoje não. Resolvi escrever uma das minhas histórias verídicas. Boas lembranças. E você? Não tem nenhuma história de acampamento com frio abaixo de zero para nos contar? Se tiver comente. Afinal nós escoteiros sempre temos uma história para contar.

domingo, 16 de julho de 2017

“Operação Mata Pato”


Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
“Operação Mata Pato”

                         O sol estava se pondo e o calor atravessava a aba do meu chapelão Escoteiro. Nunca o abandono principalmente agora que estava na pele de quando fui um grande Agente Secreto Escoteiro. Não esqueço o dia que desceu do trem em minha cidade um homem estranho, alto, forte com um chapéu rosa esquisito na cabeça, de sandálias camisas e bermudas também rosa. – Que isto? Eu pensei. Só poderia ser um espião da KGB ou um alto dirigente do Escotismo Brasileiro. Dizem que eles têm dois estilos. Um circunspecto sério, caladão e só andam na sombra da noite. O outro espalhafatoso, querendo se mostrar diferente para tapear agentes secretos sérios como eu. Dei voz de prisão ao espalhafatoso.

                       Afinal eu estava uniformizado garboso com meu caqui e de calças curtas, com meu chapelão (Cacilda, ele não sai da minha cabeça) e minha faca alemã na cintura. Ele me olhou e deu belas gargalhadas. Tirou do bolso uma identidade. Era o novo Juiz da cidade. Sorri seco e pedi desculpas. Ainda bem que ele fora Escoteiro. Estava eu a cumprir uma missão em Piquitiba, cidade famosa por ser a sede da Lava jato e agora da operação Mata Pato. Mineiro do sul do trópico de capricórnio, eu me orgulhava de ser um autêntico Arabutáneo, nome retirado de uma arvore mais bonita que o Pau Brasil. Arabutâ tinha mais de 300 mil escoteiros e se orgulhava de sua disciplina. Não havia perdão para os faltosos. Se errou escoteiramente o pau comeu.

                      Eu sabia que naquele mato não saia pato isto é coelho e quem abusava ia passar uma temporada vendo o sol nascer quadrado nas masmorras de Piquitiba. Mas eu era um valente. Sempre fui. Na minha infância enfrentei bandidos e peguei um jacaré pelo rabo só para ver quantas voltas em torno de si mesmo ele aguentava sem ficar tonto. Não foi difícil encontrar a sede nacional. Eu sabia que estava sendo julgado no tal Conselho de Ética. Tudo porque recebi o certificado me nomeando para a Academia Escoteira de Letras. Eu era agora um imortal por ser um fajuto escritor de contos escoteiros. Só pode ter sido falsificado diziam. Dois diretores um Italiano cheio de sorrisos e outro sulista trovador e tocador de guitarra haviam me nomeado sem mesmo ter autorização dos Valentes Chefes de Piquitiba ou me perguntar se queria.

                     Recebi pelo correio o fardão. Iria ficar supimpa com ele, mas só o usaria se pudesse no dia posse usar meu chapelão Escoteiro e por baixo meu uniforme caqui. Bem agora precisava saber se iam melar minha posse. Só em Piquitiba poderia saber. Era uma sede simples e quem via não comentava que o Tal fora Temer da presidência um dia foi lá e ficou fã da oligarquia rica e já famosa. A porta estava aberta. Olhei e vi uns dez funcionários jogando dominó e outros tirando um cochilo. Não havia nenhum profissional Escoteiro lá. Quem trabalhava mais era o pessoal da Cantina. Vendiam a rodo a tal nova vestimenta escoteira. Era dinheiro entrando a rodo. Dizem que breve vai custar mais que um salário mínimo nacional.

                    Aproveitei que não prestavam atenção em quem entrava e corri até a porta das escadas que levava ao porão. Minha nossa, levei o maior susto. Se ali era a academia só vi calabouços pintados de verde e amarelo e muitos desenhos da nova flor de lis estilizada e os novos lenços para embelezar os chefes que assumiam o poder. Ser preso junto a estes desenhos seria o fim do mundo. Todas as celas cheias de chefes escoteiros. Vi que a maioria era velhos escoteiros como eu. Perguntei a um porque estava preso – Chefe! Não quis mais escrever SAPS. Eles souberam e me trancafiaram. Outro com aquela cara de B-P perdido no tiroteio em Mafeking disse não aceitar as mudanças do uniforme. Ele era um caqueano e não arredava o pé! Havia dezenas deles. Em um canto muitos confabulavam como sair dali. – Tomou papudo! Quem fala muito dá bom dia ao cavalo, pensei eu.

                       Cheguei a um salão azul que deduzi ser onde se reuniam. Na mesa oval topei com a gang da liderança. A mesa parecia com a da Távola Redonda. Pelo menos ali não havia um Rei Arthur e sua espada mágica. Poucos falavam. Só um era o dono de tudo. Velhos conhecidos do CAN do passado. Grudavam mais que chicletes. A mesa cheia de papeis, fotos minhas espalhadas por todo canto. Um vociferava: Temos que acabar com a raça deste maldito Velho Escoteiro! Outro dizia: Mil dias de prisão em solitária! Um lá do norte mais calmo dizia que devíamos respeitar opiniões. Coitado, foi massacrado. Um mineiro de fala mansa que dei credito para sua eleição e me arrependo até hoje riu e não intercedeu por mim.

                        Eu sempre dizia que eles não tinham a maioria. Afinal eram eleitos por menos de 0,01% do efetivo nacional na Assembleia Nacional. O Chefão da Comissão de Ética torcia as mãos. – Deixa ele comigo, vou mostrar com quantos paus se faz uma pioneira, isto é uma canoa! – O líder quatro tacos sorria de alegria e prazer. Já sonhava com seu quinto taco e quem sabe chegaria a seis como foi B-P. Havia muito tempo que não trancafiavam um Velhote Escoteiro. Precisavam de um para dar exemplo e os demais dizerem SAPS sorrindo! Ouve um zumbido atrás de mim. Virei-me e vi mais de vinte Politicamente Corretos com aqueles bastões usados em jogos de basebol batendo nas mãos e dizendo: - Agora vais pagar por tudo Velho Escoteiro duma figa. Vamos moer você de pancada!

                       Um deles tirou o cinto para me dar uma cintada. A fivela entortou. Era a tal pirata falsificada e material de segunda mão que não valia nada. Outro tirou um chapéu de pano da cabeça, vendido para aumentar o caixa mostrando uma careca enorme com oito fios de cabelo. – Vais me pagar pelos seus contos envenenados seu Velho chato de galocha! – Tremi na base. Não havia como escapar. Ninguem ia me socorrer. Uma figura de um Velho de barba branca com um sorriso legal me disse: Chefe faça como eu, enfrente os inimigos de frente. Eu fiz por merecer na guerra do Transvaal. Não corra! Não mate! Não morra! E viva Gilwell Park!


                     Comecei a berrar feito um louco. Tentei me desvencilhar e nada. Um deles falou baixinho no meu ouvido: Diga que vai usar a vestimenta e eles te perdoam. Olhei para ele com os olhos chamuscando de raiva. Mate-me, me enforque, corte minha cabeça com uma espada, mas se tiver de morrer será com meu caqui de quem nunca me separarei. Levei uma porretada na cabeça. - Acordei com a Célia me chamando. – Marido! Outra vez? Quando vão parar estes seus pesadelos escoteiros? Putz Grila! Ainda bem que era um sonho, mas que pesadelo Deus do céu. Prometo nunca mais fazer isto e ser um escoteirinho obediente e disciplinado. Rarará!

Nota: - Este é um dos meus contos sem eira e nem beira, só para divertir e daqueles que não passam de uma hipotética ilusão da realidade, misturada com utopia freudiana, que se diverte com os nossos dirigentes Escoteiráticos, e que não deve ser levada a sério. Na ultima vez que publiquei algum assim, um dos meus mais respeitados amigos disse que nunca mais iria ler estas mal traçadas linhas. Eu sempre digo, não gostou? Escreva para B.P. ele é o único culpado deste velho xexelento ainda estar aqui! Kkkk.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Uma crônica sem segundas intenções.


Uma crônica sem segundas intenções.

              Atualmente sigo diversos escotistas em suas posições no Escotismo, sua validade, seus métodos, e principalmente sobre os novos tempos. Falam sobre Homofobia, direitos humanos e tantos outros que fico com receio de dar meu “pitaco“ e não ser entendido. Não sou como aqueles Macacos Sábios, aqueles que ilustram a porta do Estábulo Sagrado de um templo do século XVII no Santuário Toshoqu no Japão. Dizem que suas origens são baseadas em um proverbio japonês. O primeiro Mizaru o que cobre os olhos, o segundo Kakazaru o que tapa os ouvidos e Iwazaru o que tapa a boca dizem que poderia ser traduzido como não ouça o mal, não fale o mal e não veja o mal.

               Eu sou um velho ultrapassado. De origens simples, sem ter nenhum pedágio em universidades e nem mesmo tenho o dom de definir estas novas ideias que estão dando um novo ar aos jovens nos dias atuais. Li em Veja que há uma guerra de algumas cidades onde os vereadores decidiram que as escolas não podem ensinar sobre homossexualidade. Sempre acreditei que os pais é que são os responsáveis mas não discuto a posição deles e dos que são contra tais atitudes. Eu sou um Chefe ultrapassado. No tempo é claro. Aprendi que a educação informal ou não é competência da Escola mas outras são dos pais. Eles sim é que devem opinar se a matéria é própria para a educação dos seus filhos.

               O escotismo está vivendo uma nova era. Os novos querem ter a liberdade de discutir e mostrar que na formação escoteira muitos dos dogmas proibidos no passado devem ser revistos e até mesmo alguns defendem que a orientação do Chefe é primordial para isto. Na mesma Veja desta semana há um artigo sobre o sistema educacional onde um articulista defende ideias do passado na formação do jovem. Ele claro comenta as ideias de um pedagogo que discorre com sobriedade sobre o ensino de hoje. Li e gostei. Afinal eles copiaram o método escoteiro principalmente de dar ao jovem um aprendizado mais aberto, mais simples, com jogos, com aprender fazendo, com liberdade de discutir entre eles sob a supervisão de adultos temas interessantes que hoje são proibidos.   

                Alguns amigos que respeito são contra meus arroubos do passado. Não gostam quando não só eu e também outros antigos comentam que o tempo deles é o melhor. Eu não vou a tanto. Meu tempo foi “supimpa” mas o tempo de um jovem de hoje que ama o escotismo também o será. Sinceramente se eu tivesse a vivacidade e a elasticidade de um jovem Chefe, eu gostaria de chefiar uma tropa na metodologia Badeniana. Aquela onde a aventura, a liberdade de ser um herói, de atividades aventureiras tudo feito entre eles com a minha supervisão sem ser o dono da verdade e atuando mais como um irmão mais velho. Sem complicar é claro. Iria com eles vivenciar um escotismo campeiro, deixar que errem mas sempre mostrando como melhorar.

               Se um Chefe leva seus jovens a uma passeata LGBT e se isto foi discutido e autorizado pelos pais não sou contra. Eu nunca faria isto. Minha visão é outra e mesmo sendo arcaica seria a do meu aprendizado e vivencia escoteira. Ainda sou daqueles que certas discussões e aprendizado pertencem aos pais. Me seguro até hoje que a formação escoteira existe para auxiliar, repito “auxiliar” os pais, a escola e a religião. Sei que  esta ultima já vem sendo discutida em sua validade, mas pelo que vejo são poucos que agora entram nesta seara. Se entretanto os pais concordam porque eu não deva concordar?

               Se eu fosse um jovem Chefe, meu escotismo seria o mais arcaico possível. No bom sentido é claro. Esta nova metodologia que estão a dar aos  chefes nos cursos de formação tem sua validade mas a maior é a liberdade de agir, adestrar, vivenciar e ouvir e acompanhar o crescimento do jovem sem estar sempre mostrando o caminho que  ele deve seguir. Se alguns querem ter a liberdade de promessar sem serem obrigados a dizerem o obvio tenho lá minhas dúvidas. Seria correto que se alguns querem e outros não querem haver uma separação? Onde está o direito de um e o do outro? Danado de tema difícil de resolver.

               Mas não se preocupe os novos lideres modernos que me leem. Sei que o mundo está mudando e temos que mudar com ele. Quem sabe sem desmerecer os velhos tempos que teve muita coisa boa. Quando Chefe tive a honra de ter em minha tropa o menor número de evasão. As patrulhas mantinham sua técnica e vivência por muitos anos. Sei que o importante são os resultados. Que eu saiba dos que foram meus escoteiros não tive políticos famosos, grandes empresários e outros em diversas posições na sociedade brasileira. Pelo menos até hoje ainda não soube de nenhum remanescente do escotismo que colaborei. Mas sei que tem muitos que ainda levam a sério o caráter, a honra à ética ou como se diz os antigos: - Briosos Brasileiros exemplo para a nação.  

              Respeito o novo programa de jovens, respeito à nova maneira de se apresentar. Se amo meu caqui curto e meu chapelão, não posso desmerecer a quem gosta de se vestir dentro da modernidade que acredita. Se o publico irá compreender e aplaudir quem sou eu para desmerecer. Se os currículos dos cursos de hoje são os ideais para dar ao Chefe condições de liderar e se os resultados existem, não há o que discutir. Só não sou aquele que bate palmas sem ver se acetamos. Que os adeptos de novas tecnologias, novas formas de crescimento, novas formas educacionais e ou mesmo a aceitação de temas que muitos não gostam possam defender suas posições sem ferir direitos de ambos os lados.

                Eu sou um Velho Escoteiro. Meu tempo já passou. Fico calado quando a interpretação de certos temas de outros irmãos escoteiros. Não se discute aquilo que está dando resultado. Precisamos ver se o objetivo vai ser alcançado. Eu ainda continuo no método de B.P. aceitando sim algumas poucas mudanças na maneira de formar. Assim como os novos tem seus direitos eu também tenho os meus. Afinal não sou tão importante assim para que desmereçam meus sonhos, minha vida escoteira, minhas saudades dos velhos tempos. Fico com B.P ao dizer que se os novos resultados vão fazer a todos felizes, eu também tenho que ficar feliz.

Chefe Osvaldo   

nota: - Como sempre aqui estou eu escrevendo sobre a modernidade do escotismo. Queira ou não isto é uma realidade. Como não estou ombreando na lide de uma sessão escoteira não posso dar “pitacos” sem saber se os resultados são alcançados. A validade só é completa se o escotismo mostrar que o ponto certo da formação do jovem foi alcançado. Já é hora de se mostrar onde eles (os resultados) estão.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O Escotismo segundo Baden-Powell.


O Escotismo segundo Baden-Powell.

Nós do Movimento Escoteiro temos que ser capazes de explicar, claramente, a finalidade do Movimento Escoteiro, não apenas aos pais ou responsáveis, mas, especialmente às crianças e jovens. Para estes, a explicação está inserida no programa escoteiro, ao qual devemos dedicar muita atenção e estudo, disciplina e organização.

- Devemos tornar o escotismo ainda mais atraente, sem desculpas que os shoppings, o videogame e uma série de outros fatores que afastam as crianças e jovens do Escotismo. Quem experimente atividades atraentes, progressivas e variadas, tem tudo para gostar. E quem gosta, fica. Fica e trás outros para compartilhar desta experiência.

- Quanto à conduta, se não somos capazes de dar o exemplo da Lei e da Promessa, não deveríamos tentar passar estas normas de conduta para crianças e jovens. Não estamos aqui falando em conhecer ou em “saber de cor”. Mas, de seguir os preceitos éticos e morais da Lei Escoteira, fazendo com que, diariamente, a Promessa seja cumprida por nós mesmos. Senão, como posso pretender ensinar aquilo que não vivencio.

- No livro “Lições da escola da vida”, Baden-Powell indica quatro pontos necessários para fazer um plano de discurso, de livro ou de uma atividade. Segundo B-P, estas são as bases para o sucesso de qualquer projeto.
a) Saber claramente sua finalidade e saber expressá-la;
b) Que seja atraente;
c) Formular uma lei que lhes sirva de linha de conduta; e
d) Formar uma organização conveniente sob a liderança de chefes competentes.
Foi exatamente isso que ele fez com o Movimento Escoteiro.

Amizade - “A amizade é como um boomerang, tu dás a tua amizade a um dos teus companheiros, e depois a outro e a outro ainda e eles retribuem-te com a sua amizade. Assim, a tua amizade e boa vontade iniciais vão-te fortalecendo à medida que vão sendo transmitidas aos outros, e acaba por regressar a ti, em retribuição, tal como o boomerang regressa à mão de quem o lança”. “Se não tiveres medo das pessoas que encontras nem sentires antipatia por elas, também elas, da mesma maneira, não te recearão nem desconfiarão de ti e terão tendência para gostar de ti e serem tuas amigas”. (Impele a Tua Própria Canoa).

Fraternidade Mundial - “Se todos os homens tivessem” desenvolvidos em si mesmo o sentido da fraternidade, o hábito de pensar em primeiro lugar nas necessidades dos outros, e de subordinarem a elas as suas ambições, prazeres ou interesses pessoais, teríamos um mundo muito melhor onde viver. Um sonho utópico, diriam alguns, mas não passa de um sonho, por isso não vale a pena tentar. “Mas se, ao sonharmos, nunca estendêssemos as mãos para agarrar a substância dos nossos sonhos, jamais conseguiríamos progredir”.


- Aprender fazendo. - Todo o escoteiro tem de começar como Pata-Tenra e cometer alguns erros no princípio. Como disse Napoleão, «Um homem que nunca fez erros nunca fez nada». A criança quer estar a fazer coisas; por isso, encorajai-a a fazê-las na direção correta, e deixai-a fazê-las à sua maneira. Deixai-a cometer os seus erros; é por meio destes que ela ganha experiência. A prova do pudim só se faz quando o comemos. Não faça ele (o chefe) muito daquilo que compete aos próprios rapazes, e assegure-se de que eles o fazem. «Quando quiserdes que uma coisa se faça, não a façais vós» é a divisa apropriada.

Nota: - Alguns trechos que Baden-Powell escreveu e que merecem ser lidos e compreendidos por todos que acreditam que o escotismo Badeniano é o verdadeiro caminho para o sucesso.