HOTEL ESCOTEIRO

HOTEL ESCOTEIRO
cada foto tem uma história

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Apenas uma jornada de primeira classe.


Conversa ao pé do fogo.
Apenas uma jornada de primeira classe.

        Poucos podem lembrar. Mas tivemos uma época que as provas escoteiras eram espetaculares, não que as de hoje também são. Mas pergunte quem já foi um Escoteiro Segunda Classe ou um Primeira Classe, pois para ser um deles você tinha quer ser um mateiro e um grande Escoteiro. Mas a Primeira Classe? Se alguém a tivesse na manga da camisa todos admiravam. Ali estava um autêntico exemplar de um grande Escoteiro. Ele sabia tudo, nada escapava e no campo podíamos ficar tranquilo. A sua sagacidade, os seus conhecimentos e a suas experiências eram para poucos. Outro dia comentando com um amigo Escoteiro de hoje falei da prova de Jornada, condição para chegar a Primeira Classe. - Chefe, hoje não podemos mais fazer uma jornada. A criminalidade Chefe é enorme. Já pensou deixar dois jovens sair por aí em uma estrada ou trilha solitária, onde irão dormir em local pré-determinado, onde estarão sempre sozinhos? – Não dá Chefe, não dá. – Eu ficava pensando quando me diziam isto. Onde foi parar o escotismo aventureiro? Onde foi parar nossa máxima de fazer fazendo? Como entender Kipling que dizia: - Quem ao crepúsculo já sentiu o cheiro da fumaça de lenha, quem já ouviu o crepitar do lenho ardendo, quem é rápido em entender os ruídos da noite;... “Deixai-o seguir com os outros, pois os passos dos jovens se volvem aos campos do desejo provado e do encanto reconhecido...”. Outro dia comentei com um Chefe amigo – Meu caro ainda fazem atividades aventureiras? Ele sorriu e disse – Claro que sim Chefe! – É Mesmo? Retruquei – Eles hoje acampam nas mais altas montanhas? Eles viajam pelas campinas verdejante? Eles já arvoraram uma bandeira em uma vale distante? – Ele me olhou calado, pensou e disse – Não dá mais Chefe, não dá mais...

         Tenho um amigo escoteiro de outra cidade, entusiasta, bem preparado e o considero grande Escoteiro. Um dia disse para ele – Sabe Chefe, no passado você chegava a uma tropa ou uma Alcateia e sabia só de olhar o seu conhecimento técnico e como eles desenvolviam suas atividades. Nos lobos só de ver quantos duas estrelas tinham já se podia imaginar. Nas tropas se encontrasse dois ou três primeiras classes então era para ficar admirado. Seria uma tropa para ninguém colocar defeito. E as estrelas de atividade? Hoje são de pano, comentam que as de metal produzem acidentes. Bah! Usei as minhas em lugares inimagináveis, meus amigos também e nunca vi nada disto. Mas era bom olhar para um jovem, se tinha estrelas feitas de metal com o fundo amarelo, marrom/grená, verde ou vermelho. Chefe era azul. Era só ver um Chefe com estrelas amarela de lobo, verde de Escoteiro, marrom/grená de sênior e vermelha de pioneiro e a gente sabia que ali tinha um bom mateiro, um bom Chefe Escoteiro. Conhecia-se o valor da Alcateia e das tropas só de olhar. A gente sorria de orgulho.

        - Chefe ele me dizia – Hoje também é assim, são distintivos novos. Ah! Tentei aprender e reconhecer, mas estavam meio misturados com as especialidades. Elas hoje estão em profusão, sempre um ou outro com dez, vinte e até quarenta eu já vi. Precisa a UEB copiar com urgência a BSA com a faixa de especialidades que eles usam. Agora com as estrelas de pano a cor é meio apagada é difícil reconhecer quem possui um, dois ou dez anos de escotismo. Ainda dá para reconhecer um Lis de Ouro, um Escoteiro da Pátria. Mas e uma primeira classe? Ou uma eficiência II? Ave Maria! Era encontrar um e ficar orgulhoso. Ali tinha uma bela patrulha escoteira e no campo só podiam tirar nota dez. Hoje? Quem sabe existe tropas de grande qualidades e a gente não vê? Entristece ver alguns sem promessa tentar acompanhar quatro ou cinco jovens iguais a ele. Quem sabe ainda encontro uma tropa de elite como já vi tantas por aí. Tropas com patrulhas antigas e membros participantes com dois três anos de atividade. Deve ser horrível acampar nos moldes de Giwell com patrulhas incompletas, patrulhas amadoras nas técnicas escoteiras.

         Quem sabe é por isto que algumas tropas não conseguem fazer um perfeito acampamento de Giwell e os jovens são levados pelo Chefe a atravessar a corda que ele esticou, ou jogar todos no barro para fazer um “rastejo” a moda índia ou militar. Mas a primeira classe, ela sim dava um toque profissional ao escoteiro. Ali você sabia que ele acampou com mais um em uma atividade aventureira longe da sede. Você confiava que ele sabia seguir um mapa, um percurso de Giwell, era bom no passo Escoteiro ou no passo duplo, sabia orientar por bussola e estrelas, orientar pelas árvores, pelos pássaros ou animais. Você sabia que ele era um perito em sinais de pista, um perfeito Sinaleiro e cozinheiro. Você sabia que ele sempre tinha um sorriso nos lábios, que olhava para você de igual para igual. Vi muitos substituindo o Chefe Escoteiro quando ele faltava por algum motivo. Hoje? Hoje é diferente, o Escoteiro acampa de olho na internet. Faz pioneiría com o Chefe na frente dele fazendo também. Cozinhando com o Chefe ali na cozinha falando e falando. Como fazer um escotismo aventureiro assim?

          Perigo? Não dá mais? Os pais são outros? – Chefe se acontece alguma coisa eles metem advogados em cima da gente! Verdade? Caramba! Que pais são estes que não colaboram na formação escoteira fazendo do seu filho ou da sua filha alguém que se pode confiar? Nunca vi isto na minha vida escoteira. Até que vá lá uma autorização por escrito dos pais, mas a parafernália burocrática que fizeram acontecer não dá para entender. Ok! Sei que cada um tem uma explicação, mas meus amigos chefes, os jovens ainda sonham em serem heróis, em ser um explorador das montanhas em fazer construções impossíveis, em atravessar rios e florestas, em descobrir cavernas, em ser um Sinaleiro, em buscar no escotismo o que poderia ser encontrado. Os que pensam ao contrário poderiam ver que muitas das provas de hoje são encontradas por eles nos meios sociais da internet, no seu celular, no seu colégio. O escotismo não, no escotismo devíamos dar a ele o espírito de aventura, a vontade de viver na natureza, o desejo de ser um herói.


         Penso que os que mudaram o programa Escoteiro não o conheceram profundamente. Não tiveram a oportunidade de ser um segunda classe, um primeira classe ou um portador da eficiência II. Em nome dos princípios modernos chegaram à conclusão que os jovens precisam de outro programa. Fico pensando por que não criaram os programas que achavam válidos, mas deixassem permanecer a nomenclatura antiga? Nada é imutável e eu acredito que os tempos são outros. Mas não gosto destes tempos. Já não vejo tantos com aquele espírito aventureiro, espirito mateiro, um daqueles que você dizia; - Neste você pode acreditar. Sei que não tem volta, não vai ter o passado no presente. Mas por favor, façam do Escoteiro e da escoteira alguém forte, alguém que sabemos que irá andar com as próprias pernas. Chega por favor, daquele Escoteiro “manteiga” onde tudo se derrete neste medo do passado onde só o presente é válido. Ah! Quem conhece a capa do caderno Avante com a escoteirada na montanha, bandeira desfraldada, sabe o que estou dizendo, e quem sabe ainda teremos o gosto da aventura de volta?