sábado, 4 de janeiro de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Psicodrama da Loucura.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Psicodrama da Loucura.

Nota... Nada há ver com o livro de José Fonseca, Psicodrama da Loucura, que correlaciona à teoria psicodramática de J. L. Moreno à filosofia dialógica de M. Buber, apresentando o hassidismo (Movimento religioso do Século XVIII), como gênese dessas ideias. O Autor a partir daí expõe uma visão de loucura e sanidade.

Ontem escrevi aqui: - Sou lucidamente insano, malucamente calmo. Sou lágrima, sou sorriso. Pureza e pecado. Sou silêncio contido, palavras abstratas. Sou eterno no amor e efêmero na mágoa. Sou tudo ou nada! Sou assim mesmo? Às vezes me sinto louco e volto no tempo ao lembrar-me do Zé Pontes, um velho carpinteiro da Comissão Executiva do Grupo Tapajós, meados de 1961 lá pelos lados de Melo Viana, município de Coronel Fabriciano Minas Gerais. Não tinha esposa filho e ninguém a orar por ele. No escotismo o acolhemos e ele vivia dizendo: - Chefe sou louco, alucinado, sofrendo revoltado, pensando em afogar minhas mágoas. O mundo para mim Chefe começou a desandar, só desgraça na ressaca do dia a dia... Eu e o Chefe Carlos um irmão escoteiro que mora hoje lá no céu, o levamos para ser escoteiro e nestas horas de loucura o levávamos para a sede, dava a ele um Bumbo e ele sorrindo ficava batendo sem parar. Bum! Bum! Bum!

Zé Pontes mudou, virou outro homem no dia que fez a promessa e olhe até chorou. Insistiu para fazer um CAB (Curso de Adestramento Básico) em Belo Horizonte. Aprovamos. Voltou entusiasmado, querendo o mundo escoteiro mudar. – Chefe Vado, Chefe Carlos, o Chefe Floriano é meu novo Deus Escoteiro. Ele sabe demais. Contou história de Baden-Powell histórias do escotismo mineiro, brasileiro, contou histórias incríveis e reais. No Curso as noites de Conversa ao Pé do Fogo, dizia que se pudesse faria um novo escotismo, iria criar tantas coisas que Baden-Powell iria aplaudir. Gente fina o Zé Pontes, já deve ter ido para o céu. Mais velho que eu 12 anos. O vi pela ultima vez na estação de Ipatinga após ser demitido da Usina Siderúrgica de Minas Gerais (Usiminas) chorando feito uma criança. Um homenzarrão, alto e forte vestido de escoteiro a chorar naquela gare barulhenta das máquinas da usina do outro lado da cerca. No vagão na janela nos despedimos e eu me pus a chorar também...

Tenho lembranças alegres, outras tristes, passados aventureiros, passados que nem quero lembrar. Agora nos meus quase 79 anos ao lembrar-se do Zé Pontes e suas lembranças do Grande Chefe Francisco Floriano de Paula eu também se pudesse iria tudo mudar. Qual mudança? Loucura, insanidade só em pensar. Se Zé Pontes ainda vivesse e estivesse ao meu lado diria: - Chefe desculpe, se eu fosse o Senhor iria esquecer-se de tudo, viajar prá outro mundo, ser outro escoteiro daquele que a gente não esquece jamais. Sabe Chefe, a vida é um jogo e hoje tem de saber jogar. Isto não é para mim, se fosse tinha caído na real. Sei que errar é humano qualquer um, comete um engano. Mas quem se arriscaria a passar a esponja no quadro sujo de giz? Cada um é um louco em potencial. Agarra-se a uma Antipose, um planeta independente perdido em uma galáxia qualquer. Dizem que lá o mundo se tornou um lar adotivo de escoteiros onde se pode viver fazendo o escotismo que acredita conforme prescreveu o fundador.

Meto-me no livro de José Fonseca, criei na minha mente um Psicodrama Escoteiro da Loucura. Já não sou mais o mesmo. Alguns dizem que sou esclerosado, outros insano, e até mesmo um que disse ser eu um velho senil, gagá caduco caquético e amalucado. Será que tenho direitos? Dizem que como cidadão brasileiro se puder contratar um caro e bom advogado eu tenho. Mas calma ainda piso na trilha do saber. Ainda conheço meu passo escoteiro meu passo duplo e sei contar de um a cem, motivo pela qual não vou me perder. Faço meu azimute, olho na prismática o rumo ENE e me ponho a acompanhar o sol que vai se por. E se vier à noite as estrelas e constelações me darão o caminho a seguir. Mas a pergunta é uma só, quantos chefes aventureiros, adultos uniformizados estarão presentes em um Jamboree no lado escuro da lua irão participar? Mais que os jovens meninos e meninas? Não sei. Só sei que vi fotos, vi trens, aviões e ônibus levando todos para matar seu prazer... E “Eureka!” não vi meninos e meninas. E raivosamente me pergunto: Já foi criado a função de Chefe Escoteiro Turista?

E finalmente, chegando aos meus escoteiramente, lembro-me do Zé Pontes, na sombra da minha varanda, um fantasma navegante perdido na imensidão da noite escura sorrindo a perguntar: - Chefe, onde estão os escoteiros? É um Jamboree Lunático só de chefes? Já foi criado a função escoteira de Chefe Turista? Aquele que nunca foi e nem sabe quem é? E eu na minha insana loucura, comprei uma desavença, um nó górdio dos leitores revoltados com minha explanação e sem me dar o direito as minhas explicações, o nó sinceramente nem sei como desmanchar.