HOTEL ESCOTEIRO

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cada foto tem uma história

domingo, 27 de maio de 2012

Escotismo é só para ricos?


"O resultado final e o objeto da riqueza é produzir o maior número possível de criaturas humanas de pulmões sadios, olhos brilhantes e coração feliz." (John Ruskin).

Escotismo é só para ricos?
                                  
     Não. Escotismo é para todos. Seja rico, remediado ou pobre. O método Escoteiro que BP nos deixou não diz que somente ricos podem dele fazer parte. Nem tampouco remediados ou pobres. Já me disseram uma vez que muitas vezes estão tentando fazer um escotismo com austeridade demasiada. Quando BP assentou as bases do escotismo, ele nasceu entre meninos pobres e, se economicamente os rapazes melhoraram desde então, ainda existem rapazes tão pobres como naquela época que precisam do Escotismo.
    Claro, olhando para os gastos atuais tais como atividades distritais, regionais ou nacionais, uniformes, sede Escoteira, material de Patrulha, taxas e taxas cobradas nos preocupamos e alguns então dizem que não tendo condições não dá para fazer escotismo. A própria taxa anual da UEB que anexada à taxa regional pode ser considerada alta, mas existe planos para que o Grupo possa ficar isento desta taxa. Um bom número de grupos escoteiros conseguiram e hoje são devidamente registrados sem nenhum ônus.
     Eu tive a oportunidade de passar por grupos escoteiros, onde as condições financeiras se dividiram em ricos, remediados e pobres. Asseguro que é bastante possível fazer um bom escotismo nas classes menos favorecidas sem reclamar da falta de condições financeiras para que tudo corra bem e a contendo. Infelizmente muitos organizam grupos escoteiros sem pensar que o crescimento deve vir paulatinamente. Acham que é mais impressionável para a comunidade reunir uma grande quantidade de jovens, formar muitas matilhas, patrulhas e depois se dão conta que para fazer um escotismo autêntico sem verba suficiente não é possível e aí desistem ou passam a direção para outros. Difícil consertar o erro do passado, mas não impossível.
       Muitos que insistem em continuar se apegam a todos eles e ficam reclamando das dificuldades de manutenção. Sabemos que não houve estrutura de montagem inicial, os pais não participam e a comunidade não colabora. Desta maneira só podem fazer escotismo dentro de certas limitações. Ficam sem uma boa uniformização, falta de acampamentos e as reuniões de sede não sendo acompanhadas por atividades ao ar livre fazem com que muitos desistam, pois entraram pensando em encontrar tais programas e não encontraram.
        Sempre aconselhei aos escotistas que estavam começando que se contentassem no inicio com poucos. Criar primeiro uma estrutura para que o Grupo Escoteiro fosse crescendo paulatinamente. Até mesmo dei alguns exemplos que vi em boas tropas escoteiras e alcateias formadas em uma comunidade sem nenhuma condição financeira e conseguiram fazer um ótimo escotismo. Quando iniciaram conseguiram “amarrar” os pais na ideia Escoteira, e eles se imbuíram que está ali para ajudá-los e que quem precisa do escotismo são eles e não você. Isto já é meio caminho andado. Fazer isto com seis a oito jovens, futuros monitores, preparando tudo devagar, visitar os pais frequentemente e engajá-los no crescimento do grupo tudo se torna mais fácil.
        Três ou quatros pais, mesmo os mais humildes, visitando o comércio com hora marcada, (pedido antecipadamente), conversando naturalmente sem se mostrarem muito humildes ou arrogantes, mostrando as vantagens que o escotismo pode trazer para o bairro e pedindo uma colaboração anual pequena (em torno de cem ou duzentos reais, é perfeitamente possível engajar vários comerciantes na ideia). Não receber nada na hora. Deixar que o futuro sócio (ele passa a ser membro do grupo como sócio) escolha o mês e o dia para ser cobrado.  Claro, tudo feito de maneira correta, com apresentação de contas, e convidando-os sempre a visitarem o grupo e neste caso apresentá-los a tropa formalmente, palmas escoteiras, quem sabe um lenço no pescoço e pronto. Estes fatos não podem parar. Para isto você está contando com estes pais e instruindo sempre. Claro sempre motivando.
        Se desde o primeiro dia você conquistou cada pai para trabalhar ao seu lado, pois agir com meia dúzia de pais é muito mais fácil e anualmente fazer com eles uma atividade de domingo completo, quem sabe com atividades escoteiras pais e filhos juntos, visitá-los pelo menos uma vez a cada dois meses. Se tiverem telefone manter contato frequente garanto que tudo vai fluir e mesmo não sendo um grupo rico em breve terão todas as necessidades cobertas. Importante à seriedade com os valores, a prestação de contas. Exigir sempre a Nota Fiscal, ter um bom financeiro para dirigir mesmo simplesmente. Sempre a disposição de qualquer adulto que quiser ver. Já vi grupos com uma arrecadação anual de mais de quarenta mil reais por ano. Tudo no comércio de bairro. Pouco? Muito para quem não tem nada. Sabendo fazer uma lista das necessidades e comprando aos poucos esta quantia supre razoavelmente qualquer Grupo Escoteiro com até 60 membros.
        No inicio é fácil acampar com uma patrulha. Garanto que vão aparecer algumas mães para doarem panelas, frigideiras e caldeirões. Mesmo que bem velhas e usadas serão uma ajuda inestimável para os acampamentos por patrulha. Sempre comentei que a alimentação deve ser simples. Chamava de ração. Uma listinha para cada um (que guardava em casa) e mesmo que as mães reclamassem era melhor que uma taxa que não podiam pagar. Saber o cardápio, (simples) onde uma panela e um caldeirão eram suficientes para prepara-los. Cada jovem sabia o que devia levar de casa. Uma caneca de arroz, uma de macarrão. Um vidrinho ou latinha com óleo, açúcar, sal, café e quem sabe, uma linguiça, batatas e pronto. E os lambaris brigam para serem fisgados em qualquer riacho por este Brasil. Um manjar dos deuses pra ninguém botar defeito.
        Cortar em tamanho adequado lonas que são vendidas por preços ínfimos, ensinar os jovens a fazer uma armação, atrás e na frente uma parede de galhos e lá estava uma bela barraca. Lembre-se estamos falando de um grupo que começou com poucos. Quem sabe um comerciante doa um facão, outro uma machadinha? Alguém tem uma enxada pequena usada em casa sem cabo (no campo se faz) – Pioneirias? Cipó meu amigo. Fácil de usar. “Embiras” também são ótimos substitutos para ao sisal.  
        Se você conseguiu formar uma equipe de pais (seis a oito) e fez o dever de casa com eles não vai se decepcionar. Se semestralmente ou anualmente você ou um pai for ao comerciante agora já amigo com uma prestação de contas e este comerciante irá acreditar mais e não deixará de visitar o Grupo Escoteiro periodicamente. É Nesta visita procure fazer tudo para ele deve se sentir em casa. Lembre-se que ele pode contar para outros negociantes seus amigos. Elogiar, dar valor e já vi casos que ele aumentou a doação anual. Feito isto o Grupo Escoteiro irá crescer com os pés no chão. Tendo uma estrutura com poucos agora é hora de crescer paulatinamente. Lembrar-se que é mais importante à qualidade que a quantidade. As sessões devem ficar completas dentro das possibilidades. Os novos pais devem também saber a importância no grupo como os mais antigos. Aumentar o número de sócios beneméritos é função dos novos pais.      
         Lembramos que viver de mensalidade é irreal. Pode até funcionar em alguns grupos, mas a dor de cabeça é grande. Muitos pais não pagam, outros atrasam e tem aqueles que pagam e cobram porque só eles estão pagando. A mensalidade tem de existir. Mas quem paga são os jovens com valores adquiridos com seu trabalho individual. Dos jovens não os pais. Quanto? Dois ou cinco reais. Eles devem ganhar trabalhando. Isto não é difícil. Com os vizinhos ajudando em limpeza, no comércio ajudando a empacotar compras diversas, se oferecendo para lavar veículos. Enfim tem muitas coisas fáceis para ganhar dois ou cinco reais por mês. Claro, é uma taxa simbólica, mas que todos devem pagar. E isto deve ser ensinado para o lobinho o Escoteiro e todos os membros do grupo.  E deve ser considerado como ponto de honra. Lembre-se você começou com poucos e os que estão chegando estão vendo como as coisas funcionam.
           Sabendo trabalhar devagar, olhando cada passo a ser dado com atenção à possibilidade de sucesso é grande. Ninguém será dispensado. Não importa se é pobre ou o rico. Bem trabalhado o uniforme será vendido ao jovem humilde que não tem condições de comprar. Vendido? Sim. Por um preço simbólico pago com taxas mensais. Quem sabe um dois ou cinco reais por mês. Nada de graça. Ele deve saber que seu trabalho é importante e que não existem “almoço grátis” conforme dizem por aí. Com isto aprende que o trabalho dignifica o homem.
            Utópico? Você acha? Posso provar que deu certo. Mas se você tem uma estrutura enorme, se os pais dos meninos a maioria não colabora, não comparece se você sozinho é o faz tudo, se tira valores do seu bolso (prejudicando sua família) então tem razão em ficar reclamando que o escotismo é só para ricos. Mas se você é daqueles que não sabe trabalhar em equipe, que não sabe valorizar os outros, que vê nos pais uma fórmula de solução para ao grupo e fica reclamando que eles não se interessam, são distantes e que não acreditam que precisam de você para ajuda-los na formação do filho, então você está totalmente equivocado com o que faz. Valorizar sempre. Criar um grupo de amigos e não de inimigos no Grupo Escoteiro. Envolver muitos, não importa quantos ou o que irão fazer. No inicio é um trabalho árduo. Visitas, telefonemas, atividades sociais em casa de um deles com revezamento (cada um leva salgado e bebida). Arregimentar outros para ajudá-lo. Uma andorinha só não faz verão e você deve saber disso.
              Mas lembre-se, esqueça esta “montanha” de convites de distritos, regiões, UEB porque se for levar alguns e não levar todos além de estar errado vai haver desistências, se sentirão culpados por serem pobres, preferencias que na verdade não houve, mas acreditarão que sim. Sempre coloquei para mim que ou vão todos ou não vai ninguém. Se o Grupo Escoteiro que você participa já tem uma boa estrutura material, se o engajamento dos pais é bom, se a comunidade acredita que o escotismo ali é serio e excencial aos jovens do bairro, então você pode programar a presença de todos em uma atividade distrital, regional ou nacional. Isto é bem possível se programado com boa antecedência.
              O importante em qualquer Grupo Escoteiro é saber trabalhar em grupo, prestigiar os pais, os sócios beneméritos, os chefes auxiliares, e não esquecer nunca, os responsáveis onde estão atuando. Seja o mais humilde faxineiro ao presidente da diretoria. Se a sede é cedida por alguém, seja uma igreja, comercio, um clube ou outro lugar, prestigie o responsável. Faça uma boa politica sem imposições. Dê valor e relevo individual e coletivo, haverão frutos.  Mas se você é daqueles secos (risos), que acham que todos precisam de você e você não precisa de ninguém, que eles tem a obrigação de emprestar o local, que os seus auxiliares não precisam ser reconhecidos, então você está no lugar errado. E não adianta reclamar que os pais não são presentes, os chefes não ficam por muito tempo, que você confiava e sua confiança foi destruída então meu amigo o errado no Grupo Escoteiro não são eles. É você.
           Pode-se perfeitamente fazer um escotismo em comunidade pobre ou onde financeiramente deixa a desejar. Sabendo fazer, sabendo ser um líder e ir aos poucos crescendo, não querendo ser grande de um dia para o outro o sucesso é garantido. Eu já fiz assim e sei de muitos que também fizeram. Copiando John Thurman, chefe de campo de Gilwell Park em 1957, ele escreveu:
          Sem dúvida, Baden-Powell tocou o dedo em algumas das mais formidáveis ideias e práticas que levam os rapazes a segui-las com entusiasmo, e nos métodos, e modo de manejar e guiar os rapazes. É por isso que devemos nos manter o mais possível dentro da simplicidade, da alegria e do entusiasmo que ele inspirou. Os únicos capazes e possíveis de pôr o Escotismo a perder são os próprios chefes e dirigentes. Se nos tornarmos arrogantes, complacentes e a nos fazermos passar por demasiado auto-suficientes, então - e apenas com essas coisas - poderemos arruinar o Movimento.

"A pobreza não tira a nobreza a ninguém, a riqueza sim."
 (Giovani Boccaccio)