HOTEL ESCOTEIRO

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cada foto tem uma história

domingo, 19 de abril de 2015

Conversa ao pé do fogo. O pecado de todos nós.


Conversa ao pé do fogo.
O pecado de todos nós.

              Eu disse para a Célia: - Não vou! – Ela respondeu vai sim! – Célia, o que eu vou fazer lá? Você sabe como vou ser recebido! – Meu marido, você não vai por causa deles, vai para encontrar muitos outros amigos que estão lá e querem conhecê-lo. – Não tem jeito, a Célia sempre me deu ordens e eu as obedeci. Parti rumo a São Bernardo do Campo onde seria o meu calvário. No início da Anchieta encontrei uma passeata da CUT. Pararam-me – Dilma ou Aécio? Perguntaram. Responder o que? Estava de uniforme caqui calça curta e Chapelão – Respondi sorrindo! - Voto no Baden-Powell. O cara da CUT riu. Chamou o Lula. – Presidente! Ele é Escoteiro! – Deixa passar, esta turma é chata, mas não incomoda ninguém! São uns incompetentes, nem pedir eles sabem. Porque não pediram um cargo na Petrobrás? – Agradeci ao Lula. Sua esposa sorriu me olhando enviesado. Atrás de uma árvore escondida vi a Presidente Dilma. Pensei em descer e dar a ela um abraço, mas não iria pegar bem. São tantos chefes no Facebook malhando a coitada que seria melhor ficar na minha.

              A Policia Federal me mandou seguir não sem antes ver meus documentos e ver que não estava fugindo da Lava-Jato. – Quem sou eu moço! Disse. Quando menino me disseram que o petróleo era nosso, mas até hoje não vi nem uma latinha de óleo de graça. – Ele me olhou com aqueles olhos que só enxergam deputados senadores, diretores e gerentes da Petrobrás para levar a Curitiba. – Fugi logo dali. Agora eu tinha certeza, não devia ter vindo à Assembleia Nacional. Mas Célia é Célia. Ela mandou tá mandado. Errei ruas e entrei em um viaduto que não conhecia em São Bernardo. Pudera a última vez que fui lá, tem tempos. Foi em um Congresso Nacional que agora chamam de Assembleia. Wander meu amigo Escoteiro do peito ainda estava vivo. Percival também. Zé Renato hoje afastado se refastelava nas altas esferas nacionais. “Belle époque”! Eu era o Diretor Regional de Adestramento. Hoje dizem ser formadores. Deus do céu! Quantas mudanças.

               Com muito custo avistei o imponente local onde seria o epicentro do sismo que abalaria meu modo calmo de vida. Na porta sorrisos, gente de toda parte. São Paulo é São Paulo. O maior efetivo nacional sempre dá show de comparecimento. Não viram no Jamboree em Natal? 4.300 participantes, 1.600 paulistas! Turma endinheirada! Gosto daqui, pois aqui se faz escotismo para ricos! Como diz aquele comediante no SBT na Praça da Alegria: - Pobre que se exploda! – A UEB adora! Sempre me dei bem com a paulistada. Cheguei aqui em 1977 e estou até hoje. Como criei caso com os donos do poder aqui. Na liderança regional só queriam me ver pelas costas. Kkkkk. Ainda bem que nunca dei as costas para ninguém. Foi aqui que tentei mudar tudo na estrutura Escoteira nacional. Perdi feio. Amigos que se diziam amigos se afastaram. Fui colocado na lista dos mais procurados Escoteiros do mundo. Tive que me esconder. Montei uma barraca nas matas verdes do Brasil no Pico do Jaraguá e de lá avistava o campo escola da Região! Bah! Que saudades.

               Mas vamos cumprir minha sina. Custei horas para achar um estacionamento. Os que tinham vagas custavam os olhos da cara e eu um Velho Escoteiro aposentado e duro não podia pagar. Enfim um flanelinha ficou com dó de mim e por vinte pratas me deixou estacionar meu carrinho. Cheguei à porta do evento. – Olhei e pensei, Vado é melhor dar a volta e ir para seu lar. Aqui não vai dar! – Mas sou insistente, na entrada um Chefe magro, alto, empertigado, com um olhar de tanajura me olhou e perguntou: - Tem celular? Tem inscrição? É lotado na UEB? Tem SIGUE? ´- Putz! Deus do céu. E agora? – Olhei para o chão, um medo danado. Tinha que ter celular para entrar? – Moço doutor Chefe Formador, não tenho nada disto! Falei com uma vozinha de Velho chorão! – Ele me olhou com aquele olhar de  Capo di tutti i capi (Chefe de todos os chefes) e me disse: - Cacilda, o que veio fazer aqui? É chefão por acaso? Foi eleito? É rico? Com os olhos cheios d’água ele me olhou novamente e com pena do Velho Escoteiro disse: - Olhe entre, mas não encha o saco de ninguém, entendeu?

                 Já estava arrependido de estar ali. Era Chefe passando, Chefe correndo, Chefe gritando e Chefe se escondendo em salas secretas para discutem as mudanças dos estatutos. Muitos candidatos ao CAN em rodinhas aqui e ali dizendo: - Se votar em mim, pagarei seu corte de cabelo e uma barraca de “lambuja”, se votar em mim, comprarei um pente de osso de crocodilo para você e mais uma machadinha de Gilwell! Se votar em mim ganha uma passagem de ida e volta ao Jamboree em São Paulo! Um deles me pegou pelo braço e falou baixinho: - Se votar em mim juro que vais ganhar uma vestimenta completa, você pode escolher dentre os dezoitos tipos existentes! – Deus do céu! Onde estava me metendo? Será que ele não sabe que prefiro morrer de cabeça prá baixo a colocar a danada? Perguntei a ele onde estava sendo discutido os novos estatutos. Ele riu e me falou baixinho: - Chefe já tá tudo combinado. Lembrei-me da musica do balanço geral – Já tá tudo combinado, a gente vai curtir um som, a gente vai se namorar, o que rolar vai ser tão bom!

                Achei melhor voltar. Descia as escadas devagar, com calma para não cair. Agora não vou esquecer, preciso comprar uma bengala. Andar sem ela não dá, e ela vai ter inúmeras utilidades. Já pensou quantas bengaladas eu daria aqui nesta cambada? Acordei tremendo. Célia dizendo que ia me levar para o pronto socorro. Outra vez Celia? - É... As coisas são assim para um Velho Escoteiro. Recordar é viver? A primeira metade da vida passa-se a desejar a segunda; a segunda, a recordar à primeira. E assim vai. Belo sonho, belo amanhecer, ou melhor, belo pesadelo e bela dor de cotovelo?

Na noite fria o silêncio.
Na minha mente momentos.
A lembrar dos acampamentos.
O sol, a chuva, o vento.
O vagabundo escoteiro sou eu.
Preciso ir acampar.
Ninguém quer estar mais aqui.

Ninguém quer estar perto de mim.