HOTEL ESCOTEIRO

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cada foto tem uma história

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A História do Kim


A História do Kim
Extrato do livro "Escotismo para Rapazes", de Lord Baden-Powell 
Palestra de Bivaque Nº1 - "As aventuras de Kim”.

“Um bom exemplo daquilo que um Escoteiro pode fazer encontra-se na história do Kim, da autoria de Rudyard Kipling”.

Kim, ou, para lhe darmos o nome completo, Kimball O’Hara, era filho de um sargento de um regimento irlandês da Índia. O pai e a mãe morreram-lhe quando era criança e ele ficou entregue aos cuidados de uma tia. Por companheiros tinha só rapazes indígenas e pôde, assim, aprender a falar a língua deles e a conhecer todos os seus costumes. Ele e um velho sacerdote ambulante tornaram-se grandes amigos e juntos percorreram todo o norte da Índia. Um dia, Kim encontrou por acaso o antigo regimento do pai, em marcha, e quando fazia uma visita ao acampamento foi preso por suspeita de furto. Encontraram-lhe a certidão de nascimento e outros documentos e o pessoal do regimento, vendo que ele lhe pertencia, tomou conta dele e mandou-o educar. Mas, todas as vezes que conseguia ir passar férias fora, Kim vestia-se à moda indiana e andava entre os indígenas como se fosse um deles.

Passado tempo conheceu um certo Lurgan, negociante de joias antigas e de curiosidades, o qual, devido ao conhecimento que tinha dos indígenas, pertencia aos serviços de informação governamentais. Este homem, descobrindo que Kim conhecia tão bem os hábitos e costumes indígenas, viu que ele poderia vir a ser um elemento valioso dos serviços de informação. Deu-lhe por isso lições sobre a maneira de observar e fixar pequenos pormenores, coisa muito importante na preparação de um explorador.

Preparação de Kim
Lurgan começa por mostrar a Kim uma salva cheia de pedras preciosas de variedades diferentes. Deixou-lhes ver durante um minuto, depois cobriu-as com um pano e perguntou-lhe quantas e que qualidade de pedras vira. A princípio Kim não conseguia lembrar-se senão de algumas, e não sabia descrevê-las com exatidão, mas com alguns ensaios não tardou há fixar tudo muito bem. E o mesmo se fez com muitas espécies de objetos. Por fim, depois de ter aprendido muitas outras coisas, Kim foi nomeado agente do serviço secreto, e recebeu uma senha secreta – a saber, um medalhão ou distintivo para trazer ao pescoço e uma curta frase que, dita de certo modo, indicava que ele pertencia ao serviço.

Kim nos Serviços Secretos
Uma vez que Kim viajava de comboio encontrou um indígena que estava muito ferido na cabeça e nos braços. Explicou ele aos outros passageiros que tinha caído de uma carroça quando se dirigia para a estação. Mas Kim, como bom escuta, notou que os ferimentos eram fundos e não apenas esfoladelas, como seriam se tivesse caído do carro, e não o acreditou.

Enquanto o homem apertava a cabeça com uma faixa, Kim reparou em que ele trazia um medalhão como o seu, que por isso lhe mostrou. O homem introduziu logo na conversa algumas palavras secretas e Kim respondeu com os devidos termos. O desconhecido retirou-se depois com Kim para um canto e explicou-lhe que estava a desempenhar uma missão secreta, e fora descoberto e perseguido por inimigos que quase o mataram. Provavelmente sabiam que ele ia no comboio e, portanto, haviam de telegrafar aos amigos ao longo da via férrea a preveni-los da sua ida. Precisava de comunicar certa informação a um oficial da polícia e evitar que os inimigos o apanhassem, mas não sabia como havia de consegui-lo, se estes estivessem já prevenidos da sua vinda. Kim resolveu-lhe o problema.

Há na Índia muitos mendigos sagrados que vagueiam pelo país. São tidos por muito santos e toda a gente os ajuda e lhes dá esmolas e de comer. Andam quase nus, cobrem-se de cinza e pintam na cara certos sinais. Kim lembrou-se, por isso, de disfarçar o homem de mendigo. Para isso, misturou farinha e cinza que tirou de um cachimbo, despiu o amigo e esfregou-o todo com a mistura. Também lhe aplicou nas feridas, de modo que estas não se notavam. Finalmente, com o auxílio de uma pequena caixa de tintas que trazia consigo, tacou-lhe na testa os sinais apropriados, e puxou-lhe o cabelo para baixo, para lhe dar o aspecto desgrenhado e hirsuto do de um mendigo e cobriu-lhe de pó, de modo a que a própria mãe não seria capaz de reconhecer o disfarçado.

Daí a pouco chegaram a uma grande estação. No cais descobriram o oficial da polícia a quem se devia fazer a comunicação. O mendigo disfarçado foi de encontro ao oficial, que o descompôs em inglês. O mendigo respondeu-lhe com um rosário de insultos na língua indígena, no meio dos quais introduziu as palavras secretas. O oficial logo percebeu por elas que o mendigo era um agente. Fingiu que o prendia e levou-o para a esquadra policial, onde lhe pôde falar à vontade e ouvir o que ele tinha a dizer-lhe.

Mais tarde Kim conheceu outro agente dos serviços – indígena educado – e pôde prestar-lhe valioso auxílio na captura de dois oficiais que faziam espionagem. Estas e outras aventuras de Kim merecem bem ser lidas, porque mostram quais os valiosos serviços que um jovem explorador pode prestar ao seu país em ocasiões de emergência, se estiver devidamente preparado. 


A moral dessa história, caro leitor, é que hoje em dia precisamos ficar atentos a todas as conquistas humanistas, as quais permitem que a educação seja inclusiva, ecumênica, antirracista ou etnocêntrica, e instauradora da noção de que não há povos ou culturas superiores ou inferiores; mas, ao mesmo tempo, nunca devemos deixar que se perca o crescimento da imaginação e da sensibilidade que o desejo pela aventura carrega consigo. Os Grandes Jogos mudam, mas os pequenos Kims, cada um na sua medida, sempre estarão aí para o que der e vier.