HOTEL ESCOTEIRO

HOTEL ESCOTEIRO
cada foto tem uma história

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O dia “D” de Tunico Pratifunha.


O dia “D” de Tunico Pratifunha.

Era a última pessoa que eu queria encontrar. Bem ali na esquina da Rua Garça, lá estava ele, com seu jeito bonachão, adorava glosar as pessoas, se sentia o dono do mundo quando desfazia de alguém. Não éramos amigos apenas vizinhos. Nunca disse para ele que era Escoteiro e ele nunca perguntou até o dia que me viu de calças curtas. Pôs a mão na boca como a segurar o riso. Parei a sua frente. – Vai rir ou vai aplaudir? Falei. Ele tentou ficar sério, mas não conseguiu. Sua gargalhada ressoou pela Rua Bem Ti Vi do começo ao fim. As janelas se abriram e as Marias Lavadeiras sorriram leve quando me viram de olho inchado e roxo. Ainda bem um pouco de privacidade e respeito. Pensei em dar uma boa “porrada” em Tunico Pratifunha. Só seu nome era de matar. Eu com um nome desses teria ido parar na Líbia e me alistar na legião estrangeira, pois na Al-Qaeda ou no Estado Islâmico seria morto no primeiro dia. Tentei ser um cavalheiro, mas não adiantou. Ele pulava e urrava como um boi sonso que comeu Lobrobô do mato misturado com urtiga.

Bem aquela foi uma dele. Agora eu sem meu amado e querido uniforme caqui de calças curtas e chapelão seguia pela rua para comprar o pão nosso de cada dia. Adoro pão quentinho com manteiga de Minas. E lá estava o Tunico Pratifunha. Deveria ter colocado meus óculos escuros, mas o dia estava nublado e meio escuro era melhor não. Afinal via bem com um olho e o outro não. Logo o outro, valha-me Deus. Minha operação de catarata na semana que vem foi prás cucuias! Ele me olhou, rodopiou, deu sua célebre gargalhada e disse: - Foi soco? Nossa Que “socasso”! – olhei para ele pensando de novo em lhe dar uma “porrada”. Infelizmente não sou o chefão de outrora, bom de briga, um soco um dente dois socos oito dentes. Agora era de paz, pois bastava alguém me encostar à mão e eu caia feito abobora madura. – Não Tunico, falei. Levei uma queda! – Al-Qaeda? – Queda! Queda! Repeti varias vezes. - Tombo, eu escorreguei e meti a testa no cimento da calçada! – Pobre calçada ele disse.

Olhei para ele, o Talzinho sempre me tirava do sério. Velho Escoteiro, com dentes caindo, andando meio torto, voz sumida e tossida, ar rarefeito preferi seguir em frente. Já foi a época que não levava desaforo para casa. Que o Diga o Escoteiro Chefe do Passado, aquele mocinho que me deixou sozinho acampado no quintal da UEB e levou todo mundo para o hotel duas estrelas. Fiquei danado. Subi no palco onde ele dirigia uma sessão e disse poucas e boas. Ele me olhou atarantado pensando que diabos eu era e o onde pretendia chegar. Comprei minha passagem de volta e nunca mais o vi, pois achei que fui grosso e ele merecia as minhas desculpas. Olhei de novo para Tunico Pratifunha. Ele com aquela cara de besta que Deus lhe deu, dava risadas e completou: Se quiser faço uma vaquinha para consertar a guia e o cimento da calçada, afinal você é um Escoteiro e não vai querer manchar sua dignidade!

Dei meia volta, mesmo respirando forte, fungando voltei rápido a minha casa. Desci até o porão e peguei meu bastão de peroba rosa, duas e meia polegada de diâmetro, ponteira de aço, um metro e setenta de altura e voltei para encontrar o danado do Tunico Pratifunha. Subi a rua não tão “pressamente”, mas fazendo o possivel para não mostrar que não estava com nada, não aguentava um sopro, mas minha dignidade escoteira não podia ir “pru brejo”. Ele me viu com o bastão, ficou surpreso. Achou mesmo que ia tomar uma bastonada. Cheguei perto dele e disse: - Reze, peça a Deus que seu olho não fique igual ao meu, pois vou lhe quebrar este bastão na testa! – Levantei o bastão, ele pedindo perdão, prometendo ir a Curitiba dizer ao CAN e ao DEN que eu era valentão e merecia um aplauso.

Cai da cama e me esborrachei no chão. Celia veio correndo. Marido, o que houve? Estava a brigar com alguém? Que isto, você agora não é de nada, esqueça o passado, pois hoje você já era! Seus sonhos precisam mudar. Que tal sonhar com uma chegada ao céu? Uma viagem em Xangri-lá? Que tal um sonho de lindos acampamentos lá em Gilwell, não é você quem diz que lá tem a grama mais verde e linda? Quem sabe sonhar com boas atividades mateiras e aventureiras daquelas que você fez e nunca esqueceu? – Olhei para ela. Tinha razão. Briga e sopapos não resolvem nada. Quem bate se sente forte e quem apanha não concorda com o valente. Ambos continuam os mesmos, portanto é melhor um abraço. Levantei, sai pela rua à procura de Tunico Pratifunha. Iria dizer para ele que tínhamos que parar com os desentendimentos a nossa conversa tá muito diferente. É hora de encarar a crise frente a frente quero muito me acertar contigo, vale a pena acreditar te dar carinho e te abraçar, não é melhor assim?

Depois de muito rodar foi que descobri que ele era um sonho uma miragem, nunca existiu. Quem sabe o criei pensando que precisava disto para sentir a vida voltar? Ah! Meu olho inchado, minha cara de Velho carcará, ainda bem que aprendi a sorrir, pois sorrir sempre foi o melhor remédio. Afinal a vida é para quem topa qualquer parada, e não para quem para em qualquer topada! – Falou papudo?