HOTEL ESCOTEIRO

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cada foto tem uma história

sábado, 3 de janeiro de 2015

Fizeram-me de gato e sapato. Tem vingança?


Conversa ao pé do fogo.
Fizeram-me de gato e sapato. Tem vingança?

              Tentava me esconder atrás de árvores e me descobriram. Saltei uma enorme cachoeira mergulhando em águas poluídas e me acharam. Pulei sobre um penhasco dentro de um regato de águas profundas e lá estavam eles. Segurei nas garras de enormes gaviões morcegos e mesmo assim não conseguia fugir deles. Será possivel? Eu não merecia isto. Fiz tudo pelo escotismo em toda minha vida, agora me crucificam deste jeito? Nem me avisaram que fui condenado pela Comissão de Ética e todos foram a favor sem me dar nenhuma chance? Esperava pelo menos que me dessem tempo para me armar. Precisava de uma bom Rifle Assault AK-47, ou quem sabe a lendária pistola colt 1911, calibre .45? Quem sabe se eles me vissem com um Lança-Foguetes MI 36AT-4 em iria me safar desta perseguição implacável? Não sabia. Os homens de preto da Direção Nacional não perdoavam. Tudo começou quando disse que nem morto iria vestir a tal vestimenta negra que impuseram a todo mundo. Logo o telefone tocou – Velho! É você? – Sou eu sim. – Sou o Presidente Geral do Escotismo, vou lhe dar um ultimatum, ou você coloca a vestimenta ou vai com ela para o diabo que o parta!

              Deus do céu! E agora? Tinha que fugir, afinal era um profundo conhecedor de locais inóspitos, montanhas inacessíveis, gigantescos penhascos intransponíveis, conhecia com a palma da mão todas as grutas e cavernas das mais simples com cobras venenosas as mais perigosas com os famosos morcegos negros de dentes cariados. Uma dentada e sem dentista era morte certa. Mas a turma de negro era das boas. Lembrei-me do jogo da Serra do Espinhaço. Vai ter espinhos assim na Tonga da milonga do cabuletê! Foi lá que fiquei preso por dois dias comendo frutinhas venenosas o que me transformou no Super Homem que sou hoje. Não disse nada no telefone. Já tinha metido o pau tantas vezes nesta vestimenta que agora perdi a vontade de criticar. Só disse pelo telefone: - Não vou colocar esta vestimenta, nem morto! Gritei a ultima palavra e desliguei o telefone. Comecei a receber e-mails ameaçadores – Vais morrer Velho Escoteiro decrépito e amaldiçoado. Nada vai te salvar. Não adianta seus 66 anos de escotismo, está condenado ao fogo do inferno! Só tem uma saída, compre logo a sua vestimenta, aquela da camisa solta com bolsinhos gigantes e calcinha curta, e quero ver você de meinha branca seu babaca!

              Pensei logo em mandar um e-mail para Bilbo Bolseiro, um Hobbit meu amigo há séculos. Lembro-me dele quando me convidou para uma tarde com Baden-Powell em seu chalé no Quênia, e nunca esqueci o panorama maravilhoso. BP tinha um sorriso encantador e ele conversava animadamente com Bilbo. Acho que foi ele que disse que “eu não sei metade a metade tão bem quanto eu gostaria, e eu gosto menos da metade do que vocês merecem”! O cara era bom. Ele podia me ajudar a encontrar o Mago Gandalf e iriamos jogar pó na turma dos homens de preto da liderança Escoteira nacional. Se pelo menos quando fugi tivesse levado minhas armas tudo bem, mas não levei nada, mal deu tempo de colocar minhas cuecas e nem meu fabuloso uniforme caqui eu coloquei. Ele sim poderia fazer mágicas e me levar pelos ares longe daquela turma que só queria me ver com a vestimenta que detestava!

              Tentei voltar a respirar, pois o ar me faltava. Eles me encontraram. Eram mais de vinte. Uns com camisa para fora, outros de calça curta, outros de compridas, meias de todo tipo, uns de tênis, outros de sandálias, e cada um com cada chapéu esquisito que fazia medo. Não tremi, enfrentei todos como um Velho Escoteiro faz. Levantei-me. Olhei nos olhos de cada um – Quem quiser morrer primeiro que se aproxime! – Nem terminei de falar e caíram sobre mim como abelhas no mel. Malditos. Vestiram-me aquela coisa horrenda! Tentei desvencilhar e nada. E foi então que o grande e belo mago Gandalf apareceu com aquelas barbas enormes, com seu sorriso mateiro, soltando faíscas no ar – Chefe! Ele gritou, vista logo seu adorado caqui, eles quando o virem orgulhosamente com ele irão correr como o diabo correr da cruz. Só vi as peças no ar em minha direção. Como o Super Homem Velho Escoteiro o vesti com galhardia. Quando coloquei o chapéu tremi de emoção. Meus velhos tempos de homem mau voltaram. Agora sim era um Escoteiro badeniano.

           Comecei a gritar Anrê, gritei em alto e bom som o grito da minha patrulha Escoteira – “Comemos e bebemos, a Deus agradecemos” adorava este grito. Eles se assustaram. A turma dos dirigentes de preto gritaram de medo a mais não poder. Afinal quem pode com um caqui badeniano? Dei uma bela gargalhada. Só vi quando eles corriam feito uma gazela pela trilha do Cavalo Morto. O Mago Gandalf sorriu e disse – Precisando é só me chamar. Sou assim com Baden-Powell. Ele é um cara legal. E Bilbo Bolseiro sorria deu as mãos a Gandalf e partiram. Enfim mantive meu palavra de usar meu caqui até morrer. Comecei a sorrir, do sorriso virou uma gargalhada e uma voz me dizia para acordar. Abri os olhos. Era a Celia. Minha princesa veio me salvar. Era só um sonho, mas que passei apertado passei. Espero nunca mais sonhar assim, ainda bem que no sonho era amigo de Bilbo Bolseiro e o Mago Gandalf. Quer saber? Nem assisti bem todos os filmes de O Hobbit, Bilbo Bolseiro e nem sei por que eles me salvaram no sonho.
                   

 Nota – Apenas um conto para divertir. Nada contra a vestimenta. Claro que nem morto vou usar, mas você meu amigo novo no escotismo ou não se adotou este uniforme que a UEB diz chamar vestimenta, conte com meu apoio. Não é porque não gosto dele que vou desmerecer os meus amigos e amigas que gostam. Afinal o que seria do azul celeste se tem tantos para gostar do roxo? Risos. Abraços fraternos aos caqueanos e por que não os de negro cinza?