quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Bah! Então hoje é nosso dia?


Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Bah! Então hoje é nosso dia?

Li não sei onde que alguém assim descreveu como foi o início de um Chefe Escoteiro,

Assim é um Escoteiro, no seu modo pessoal de ser:
O Escoteiro é uma espécie zoológica encontrada nas sete partes do mundo, pois até nas terras árticas e antárticas já foi verificada a sua incidência. Os primeiros exemplares apareceram na Inglaterra, no início do século vinte. Do nevoeiro das ilhas Britânicas imigraram para outras terras onde lhes pareceu existir maior espaço para se desenvolver. Nessa mesma ocasião, alguns, de maior fôlego, vieram ter à América do Sul e sua proliferação foi tal que cobriu todo o continente.

O Escoteiro é constituído de três partes: cabeça, tórax e membros. A cabeça tem olhos multifacetados, que giram permanentemente em todas as direções, seja para descobrir um local para sede, um sítio para acampar ou uma boa ação para fazer. Ou outro Escoteiro... Por isso está sempre alerta. O tórax, ainda estreito, contem o coração e os pulmões, estes, utilizados para avivar o fogo na hora de preparar suas refeições. Os membros inferiores são usados para transportar as restantes partes do corpo para excursões e acampamentos; os dois superiores, terminados por numerosos dedos, móveis e bem articulados, parecem providos de um sentido tátil todo especial e têm uma surpreendente resistência muscular, haja vista a quantidade de coisas que neles conseguem pendurar em determinados momentos.

São estes membros que armam a barraca do Escoteiro, quando um repentino acesso de impetuosidade o impele a abandonar as cidades para ir acampar no seio de uma floresta ou nas imediações de um bosque. O Escoteiro comunica-se com as criaturas de sua espécie de várias maneiras, principalmente por sons semiarticulados, um tanto imitativos da linguagem humana e, também, sacudindo seus membros superiores de um modo vivaz, fazendo sinais de comunicação que só eles entendem. Quando usam esse processo de comunicação, os mais variados objetos poderão ser vistos presos pelos seus dedos, desde varas de madeira, chapéus e, sabe Deus o que mais. Às vezes segurando bandeirolas em competições barulhentas.

Em dias determinados, ele assombra florestas, planícies, campos, fazendas, mares e rios.  Os exemplares mais velhos são vistos escalando montanhas e picos. À noite o leva quase sempre a lugares inabitados, pelos quais sente uma acentuada predileção, tal quais os seus alvoroçados amigos, os pássaros. Durante o inverno vive prazerosamente nos desvãos das igrejas, porões, depósitos, enfim, em qualquer lugar e dão o nome de sede. O nome é muito variado: sede, base, gruta, taba, caverna e outros tais, mas o que absolutamente não varia, em nenhuma parte do mundo, é o tamanho do lugar: sempre uma brechinha.

Tão logo o verão dê as suas primeiras manifestações, procura pouso em outras paragens. Já foram vistos em todas as partes do globo, desde as mais profundas depressões até os mais elevados picos. Quase ninguém sabe como ele consegue chegar a esses lugares, Mas ele sabe algo mais importante ainda, que é sair dali quando já está saturado. Podem ser encontrados em todos os elementos que compõe o nosso planeta: terra, mar e ar. Atualmente já começaram a se adaptar em subterrâneos, nas profundidades dos mares e no espaço sideral e estarão em qualquer lugar onde descubram ou suponham existir maravilhas a serem vistas.

Você pode mudar-se para a onde queira: pode desterrar-se na mais inóspita floresta, encerrar-se numa clausura, mas a verdade é que, onde quer que você esteja, será difícil passar muito tempo sem ver pelo menos um exemplar dessa espécie. O surpreendente nestas criaturas é que, ao mesmo tempo em que se adaptam fazem uso das mais recentes conquistas do progresso, conservam em si, vívidas e atuantes, características de todos os séculos, notadamente os hábitos e ideais dos Cavaleiros da Idade Média. São portadores de um impulso irresistível de ajudar todas as criaturas e é tão vitalmente necessário para eles como respirar ou comer.

Onde quer que sejam vistos, estão sempre em movimento, seja passando mercurocromo na asa ferida de um passarinho ou imobilizando uma fratura numa criatura algumas vezes maior do que ele. Por sua própria natureza, são sempre alegres, mas onde quer que encontre dor e sofrimento, hei-los também, tentando amenizá-los. Por todas as pessoas com um mínimo de compreensão, são considerados de grande utilidade e muitos necessários. Sua palavra é a mais confiável que existe. Se ele disse que aconteceu, podem apostar qualquer coisa, pois realmente aconteceu.

Atualmente eles constituem mais de vinte e sete milhões, atuando no mundo inteiro há mais de 100 anos e não existe, praticamente, criatura em nosso planeta que não tenha recebido ao menos uma vez na vida, o testemunho de sua necessidade, seja o sorriso irradiante ou a ajuda espontânea, sincera e desinteressada de um Escoteiro.

E foi assim, que surgiu um Chefe Escoteiro. E se você meu amigo é um deles...

ACEITE MEU ABRAÇO, MEU APERTO DE MÃO E MEU SEMPRE ALERTA PARA SERVIR!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Meus direitos terminam onde começam os seus!


Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Meus direitos terminam onde começam os seus!

                   Está na constituição brasileira? Não sei, mas sempre ouço alguém dizer isto. Estamos passando por uma fase única no escotismo brasileiro. Os direitos parecem pender para um só lado. Já há alguns anos que a União dos Escoteiros do Brasil se julgou a única com direitos a praticar o escotismo em território brasileiro. Afinal tivemos alguns escotistas que não concordaram com os ditames que a UEB passou a direcionar. Estes sabiam que nunca iriam ter voz e voto na associação e assim resolveram sair da UEB, mas continuar como escoteiros. Afinal era um direito não? Mas eis que nossa liderança não concordou com o que os outros estavam fazendo. Abriu ações judiciais contra estas novas associações que estavam surgindo. Suas alegações baseava que só ela tinha uma procuração do escotismo mundial para praticar o escotismo no território brasileiro. Os tempos foram passando e em quase todas as ações que abriu na justiça brasileira não ganhou uma sequer.

                    A última foi contra os Escoteiros Florestais. Eles tinham seus uniformes, suas insígnias, distintivos e literatura própria. A Juíza da ação disse: “Verifica-se que o Decreto nº 5.497 de 23 de julho de 1928 utilizado como fundamento pela parte Autora, para justificar a exclusividade de porte, uso de uniformes, emblemas e etc., caducou, caiu em desuso, não servindo como parâmetro para o pedido da mesma”. Será que desta vez a UEB aprendeu a lição? Disseram-me que cada uma destas ações nossa associação gasta por baixo mais de Cem mil reais. Será que teremos prestação de contas desta futilidade e gasto inútil? Sabemos que existem e vão existir associações não reconhecidas que estão a aparecer tentando fazer o escotismo que acreditam. Não posso julgar se elas fazem o certo ou o errado, mas ninguém pode tentar tirar seus direitos em fazê-lo.

                   Uma vez um Chefe daqueles que chamo politicamente correto, pois não tem nenhum cargo na liderança escoteira nacional me disse que se eu não “gostava” da UEB que procurasse outra associação. Um Zé Mané que começou ontem a fazer escotismo e se acha dono da verdade. Ele como bom estudioso me “instruiu” com uma dezena de artigos dos estatutos que dão o direito a UEB em fazer o escotismo no Brasil. Bem eu não vou sair da UEB, quando em 1947 me tornei um Lobinho foi acreditando nela, usando seus distintivos e literatura. Há tempos não me registro. Não acho que devo. A prepotência da organização chegou a tal ponto que ela não dá a ninguém explicações. Nunca em tempo algum informou seus associados o porquê fazia tais ações judiciais contra outras associações. Claro, sempre tínhamos os politicamente corretos para explicar e isto sempre acontece até hoje. Como diz o artigo do Café Mateiro estas ações custam caro. Comenta ainda o Café Mateiro que os tópicos da prestação de contas nunca nos dão condições de uma leitura detalhada destes gastos.

                    Quando se comenta que hoje nosso escotismo é feito pelo esforço dos chefes e eles praticamente não tem apoio da nossa liderança, lá vem outros mais politizados a dizer que se o Chefe é bem preparado não precisaríamos disto e nossos Grupos Escoteiros teriam uma estrutura impar para fazer um escotismo perfeito. Outro dia comentei que temos um dos menores contingentes escoteiros da América Latina se fizermos uma média com a população brasileira. Lá veio outro a dizer que importa mais a qualidade do que a quantidade. Perfeito. Um sabe tudo. Mas perguntou para ele onde está esta qualidade que ainda não produziu bons frutos? Afinal uma associação que direciona gastos que poderiam ser mais bem utilizados seja na prática escoteira principalmente financiando uma campanha de marketing para pelo menos sermos reconhecidos nacionalmente o que não somos.

                      O que será que o CAN e a DEN fazem quando estas ações se perdem nas entranhas da justiça? Será que não chegaram a uma conclusão que isto não é bem visto, que não é Escoteiro, que demonstra uma utopia do “eu que mando” demonstra prepotência em vez de fraternidade e principalmente levando em conta nosso sexto artigo da lei escoteira? Afinal somos ou não amigos de todos e irmãos dos demais escoteiros? Ou será que escoteiros somos só nós? Esta vaidade de muito dos nossos adultos estão produzindo um mau escotismo principalmente por parte daqueles que estão chegando e já tem em suas raízes a pendencia de conhecer, de saber raciocinar em bases Escoteiras seus conhecimentos. Muitos destes alardeiam suas arrogâncias de líderes que não condizem de forma alguma com a Lei Escoteira.

                   Em vários países do mundo estão a surgir novas associações. Eu já disse aqui e repito Baden-Powell não passou procuração a ninguém. Nestes países a convivência, a aceitação, o livro arbítrio é aceito sem discussão. Afinal escotismo parece demonstrar que devemos ter um pouco de respeito para com o próximo e sempre achamos que um participante do escotismo teria que ser um gentleman, um cavalheiro e respeitar para ser respeitado. Nosso setor jurídico nunca gastou tanto em folha de pagamento e também nestas custas processuais como esta atual gestão (palavras do Café Mateiro). Até hoje não houve sequer uma explicação condizente por parte dos nossos lideres quanto à evasão que a cada ano acontece no escotismo. Dizer simplesmente que ela é proveniente da falta de bons programas, de chefes bem preparados é uma maneira de culpar os chefes e não dando a devida responsabilidade a nossa liderança nacional.

                      Ainda citando o Café Mateiro, tivemos duas grandes evasões no escotismo brasileiro. Uma em 1993 e outra em 2014. Dizem que a primeira foi pela inclusão do Azul-Mescla, e a segunda pela imposição da vestimenta. Não tenho dados em mãos para afirmar. Sem contar que a cada ano estamos perdendo mais e mais escoteiros e escotistas que estão abandonando tudo aquilo que acreditavam. Desistem decepcionados com a maneira de que os lideres conduzem sem qualquer processo participativo, agindo de forma arbitrária em tudo que fazem. Nossa liderança se exime de dar explicações, prefere ser procurada no seu site e nunca vai até onde devia ir. Procurar seu associado para saber se o caminho percorrido é o certo ou então deixar que ele opine de forma contrária ao que está sendo feito.

                       Dizer que precisamos mudar é malhar em ferro frio. Até hoje ainda não tivemos lideres que desceram do seu pedestal para ouvir seus pares nas unidades locais, ver suas ideias, o que pensam dos atos praticados. Os que chegam já estão com suas ideias prontas, sabem ou acham que sabem o que deve ser feito. Enquanto isto nosso crescimento quantitativo e qualitativo permanece estático. Ser mais pragmático é chover no molhado. Nossos lideres dificilmente assumirão a culpa pelo fracasso das gestões nacionais ruinosas. Dizer que precisamos dar as mãos aos que se interessam por um escotismo reconhecido e respeitado seja em qual associação é perda de tempo. O melhor mesmo é responsabilizar o Chefe. Nossa liderança é a única que não procura ver seus erros, nem vêem que estão levando o escotismo para um caminho sem volta. Quem viver verá.

Meu agradecimento ao Café Mateiro por ter me dado subsídios neste artigo.

domingo, 2 de agosto de 2015

Apenas uma tarde de domingo.


Apenas uma tarde de domingo.

                O corpo de Velho Escoteiro tem andado cansado de tanto subir montanhas e descer escarpas pedrentas dos anos que vão lhe amontando às costas. Há dias que as forças brincam de esconde, esconde. Um corre corre frenético atrás da turma do Jaleco Branco. Uma parada, um olhar em volta e são tantos que ali estão esperando a hora de contar suas nuances suas idiossincrasias ao belo guapo ou a bela Guapa (é assim mesmo?) e esperar uma prescrição ambulatorial para quem sabe dar um salto no espaço e dizer: - Obrigado meu Deus, por estar aqui novamente a tentar fazer o possível pela vitalidade momentânea, pois o resultado final eu alcançarei daqui a pouco. Assim vão os dias e as horas passando e a gente esperando melhorar. Mas vamos chegar lá com toda certeza.

             O vício frenético de uma “Passada no face” nos força dar uma olhada, sentir o prazer de rever amigos, de ver seus escritos, comentários coisas que enche o peito e a alma de um Escoteiro que hoje não pode mais velejar a não ser em suas saudades, São tantas palavras amigas, tantos a nos desejarem um céu azul cheio de felicidade que ficamos nas recordações de agradecer pessoalmente a cada um. A distância é enorme e somente um breve brilho de mente nos concede o Senhor para agradecer aqueles que nos querem bem. As escritas de cada um vão sendo anotadas no cérebro e dá uma vontade de agradecer, escrever, dizer muito obrigado, mas são tantos e os fármacos tomados e os efeitos ainda não se fizeram sentir.

            É gostoso ler, ver o que pensam suas sugestões, suas ideias, seu modo de vida e a gente pensa que poderia ser assim também. Passo um dia sem aparecer e lá estão dezenas deles curtindo e comentando. Meu sorriso desabrocha, mas são tantos o que fazer? Minhas forças não ajudam, e mal e mal escrevo o que ainda me segura no meio deles, meus sonhos, meus amores, meu passado Escoteiro meus sentimentos, meus contos, minhas lendas e artigos em profusão. Olho os novos que chegam, aceito todos, minhas páginas são abertas e não há contraditórios para dizer não. Fiquei pasmado e perplexo com os dizeres dos amigos que me deram a honra de pedir por e-mail meus livretos, historietas para terem em seus arquivos e um dia pudessem traduzir os pensamentos de um Velho Escoteiro.

                Chefe! Sou seu amigo, seu fã, leio tudo que escreves! – Demais isto não? Meu peito onde o ar se foi volta a crescer de orgulho. E as demais amigas a dizerem tantas coisas bonitas que mesmo tentando manter o ânimo de bom moço, bem casado sorrio leve a pensar: - Hã se eu fosse mais novo o que faria? Risos. Nada, nada, pois sem a minha Celia eu não seria ninguém e graças a ela eu sou o que sou hoje. Muitos gostam das minhas escritas e outros até são mais verdadeiros dizem que nem tudo que reluz é ouro. Sou um pedante em não aceitar os dizeres dos mandantes da UEB. Bem eles tem razão, não bato palmas para eles, pois não tenho nenhum vínculo com o que fizeram e minhas criticas são pela falta de sensatez que fizeram do nosso passado e desfizeram sem dar a mínima para os que montaram em seus moinhos de vento acreditando que um dia o sucesso iria chegar.

                 Não aceito e nunca vou aceitar que façam tudo como fizeram sem pedir opinião. Nunca vou aceitar imposição. Transparência é sinal de respeito e respeito é bom e eu gosto. Consultas são feitas pelos que tem por você como mais um da associação e não imporem ideias por determinação própria. Nossa historia escoteira está indo para o limbo. Estão a fazer-nos uma associação de desmemoriados. Não houve a preocupação e o respeito devido. Tudo foi alterado porque uns poucos acreditaram assim. E se alguém ainda sabe de alguma do passado são fantasmas do passado que como eu estão a lutar para informar que nem sempre foi assim. Foram pródigos em desmanchar o nó górdio do que um dia fomos. As tradições aos poucos vão sendo esquecidas. Em pouco tempo não haverá mais nada para lembrar.

               Hoje vivemos do presente e falam até em um futuro promissor, mas povo sem passado nunca terá futuro que possa lhe dar o sucesso que merece. Quem acompanhou seus passos suas promessas sabem que ainda continuamos sem respaldo, sem aceitação, existe uma sociedade escoteira que nem sabe que existimos. Mudaram tanto, fizeram das nossas boas lembranças gato e sapato e mesmo aqueles que nunca conheceram o seu passado a eles também não foi lhes dado o direito de consulta, de saber o que pensam ou como deveriam agir. Tudo foi imposto, determinado uma ditadura em um movimento fraternal. Preciso dizer mais? Diga-me meu amigo ou minha amiga, alguém da alta direção já lhe fez alguma consulta? Já lhe perguntou se deveria ser assim? Vocês por acaso já ouviram falar em pesquisas? Sabemos que elas nunca existiram. Meia dúzia decide e pronto. E você como bom companheiro Escoteiro obediente e disciplinado sorri e nada diz.


              Mas hoje eu vi uma luz. Pequena, de alguém que não concordou e lutou para fazer valer seus princípios, suas escolhas e mesmo nunca tendo a honra de cumprimentá-lo pessoalmente, pois somos amigos distantes fiquei orgulhoso. Bem vindo Mário ao clube dos Caqueanos. Não importa os que disseram o contrário de sua escolha, importa sim que você é digno, um Chefe que merece meu abraço e meu Anrê, e olhe o dia que nos encontrarmos irei tirar o meu chapéu que tanto orgulho, fazer uma circunferência a moda antiga como se estivesse saudando reis e rainhas e dizer – Bravoo meu amigo. Bravoo. Estou mesmo orgulhoso de você com seu novo uniforme a mostrar que és um verdadeiro Escoteiro do Brasil!

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O meu querido distintivo de lapela.


Conversa ao pé do fogo.
O meu querido distintivo de lapela.

                          Quem já teve nunca o esqueceu. Houve uma época que tínhamos que correr atrás para conseguir um nas lojas escoteiras. Quando vi o meu pela primeira vez me encantei. Só não chorei porque o meu sonho agora era real.  Pequeno, dourado, com uma linda flor de lis em cores verde e amarelo. Minha mãe me entregou e disse: - Um presente que seu tio Vadim trouxe para você do Rio de Janeiro. Parecia que ele foi feito para mim. Até seu formato era a Flor de Lis perfeita. Com sua presilha se prendia facilmente na gola da camisa ou no paletó social. Um ano depois comprei outro. Eu mesmo na Cantina Escoteira da capital.

                         Foi uma época de identificação de qual organização você pertencia. Era comum vermos os rotarianos, os do Lions Club, partidos e religiosos e tantas outras organizações onde todos postavam com orgulho o seu botton de lapela. Os padres também usavam o seu. O prefeito também. Na Câmara de Vereadores idem. Naquele tempo não saímos por aí com o lenço no pescoço tentando nos identificar de maneira diferente. O botton era tudo. E que orgulho amigo eu o colocava na lapela e íamos desfilar para que os outros soubessem que ali estava um Escoteiro. Quando pela cidade encontrávamos alguém com ele, logo corríamos para cumprimentar: Sempre Alerta! Escoteiro de onde? Prazer. Eu sou o terceiro Escoteiro Escriba da Patrulha Lobo. (tem gente que não gosta quando me apresento assim, risos). Abraços, aperto de mão, histórias, lembranças tudo em questão de minutos era conversado entre nós. Nossos chefes nos ensinavam que o uniforme se vestia completo. Nada de usar peças por aí. Usar só o cinto? O Lenço? Nem pensar.

                       Já contei aqui quando fizemos uma vaquinha, que rendeu além do esperado. Todos que participaram do Grupo Escoteiro na minha cidade e aqueles que procuramos colaboraram. Como se fosse hoje, chegamos a ter mais de quinhentos reis! Uma fábula para a época. Para que? Para custear uma viagem de um escoteiro até a capital, o Rio de Janeiro. Motivo? Comprar bugigangas escoteiras e  distintivos de lapela para todos. Iriamos presentear também alguns ex-Escoteiros. Fui o escolhido e lá fui eu viajando nos meus treze anos. Viagem perfeita. Nunca mais esqueci.

                     Era para comprar também a moeda da boa ação. Poucos tinham. Mas o dinheiro não deu. Eu já tinha a minha há tempos. De manhã bolso esquerdo. Feita a boa ação, bolso direito. Claro, nunca nos contentávamos e voltávamos para o bolso esquerdo novamente como a dizer: - Uma boa ação só hoje? Nunca! Tinha de ser várias. Pelo menos mais uma e mais uma.  Quantos distintivos tinham lá. Quantas coisas bonitas. Quantos livros. Fiz questão de trazer um que passou de mão em mão por todo o tempo que fiquei lá no Grupo Escoteiro. - O Guia do Escoteiro do "Velho" Lobo. Lindo! Espetacular! Quando o levei para casa não queria dormir. Ficava ali sentado na cama lendo, relendo.

                A escoteirada e a lobada sorriam pelas esquinas com seu distintivo de lapela. Quando seu Leôncio o prefeito recebeu o dele, logo colocou com orgulho (fora Escoteiro quando menino). Agora todos sabiam quem era ou quem foi escoteiro na cidade. E claro, um orgulho em usar na escola, no trabalho (eu era engraxate) na igreja, ou seja, em qualquer lugar. Não precisa dizer – Era como o distintivo de lapela falasse - Olhem! Estou sem uniforme, mas sou Escoteiro de coração!

Meu lindo distintivo de lapela que nunca esqueci. Se vocês tiverem um devem sentir o que eu sentia. O orgulho em usar e dizer a todo mundo: - Eu sou um Escoteiro! Se hoje os políticos lá no seu habitat usam eu não sei. Mas ainda lembro-me de muitos profissionais, médicos, engenheiros e tantos outros que orgulhosamente o colocavam como a dizer, sou isso mesmo, esta flor de lis fez parte da minha vida.  Eu sempre amei o escotismo e hoje sou o que sou graças a ele.


São coisas do passado. Mas que ficaram gravadas até hoje no presente. Será que hoje ainda tem alguém que usa a linda Flor de Lis de Lapela em todos os lugares aonde vai? Que se orgulha em se mostrar como Escoteiro? Claro, tenho certeza que sim. Mas porque escrevo isto? Não sei. Gosto de lembrar-me dos meus velhos tempos e quem não gosta? Foram tantas e tantas coisas que marcaram. Tradições gostosas que permanecem para sempre em todos nós, Escoteiros do Brasil.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Bandeira do meu Brasil!


Crônicas de um Velho Escoteiro.
Bandeira do meu Brasil!

Bandeira minha, de encantos mil, imagem linda do meu Brasil!
Quando te vejo bandeira amada, graciosamente assim hasteada,
E minha boca ainda infantil, fala bem alto, viva o Brasil!

                Tudo no escotismo é maravilhoso. Os acampamentos, a marcha de estrada, a fogueira crepitando, o nascer e o por do sol. Mas para mim o cerimonial de bandeira marca. Ali é onde o valente Escoteiro treme. Não é um tremor de medo e sim de orgulho. Convidado ele olha para o monitor, o Chefe e parte como se fosse fazer um ato que ficará gravado em sua história escoteira, onde irá contar para seus pais, seus amigos o dia que foi privilegiado e escolhido para hastear ou arriar a Bandeira do Brasil. É um cerimonial realizado em todos os Grupos Escoteiros do mundo.  No inicio e no fim das atividades Escoteiras lá está ela lembrando que nossa pátria é nossa morada. Eu não sei mais de quantas cerimônias eu participei. Para mim e meus irmãos Escoteiros é um orgulho e uma honra estar ali, honra múltipla ser escolhido entre muitos para o líder do cerimonial. Seja em um hasteamento ou arreamento. Não importa onde seja, na sede ou no campo, no mastro ou arvorada sempre é um espetáculo que ninguém esquece.

                 Cada país, cada grupo costuma ter seu cerimonial próprio, mas inigualável. Ali em ferradura, em círculo, com a saudação Escoteira o objetivo é sempre o mesmo, elevar aos céus nosso amor à pátria. Não importa se ela sobe ou desce por um só Escoteiro ou lobo, por dois e já vi até três com sua bandeira no cerimonial. Já vi um Grupo Escoteiro que ela sobre enrolada e ao meio mastro ele se abre como se o vento a tocasse para ela mostrar todo o seu brilho. Tem aqueles que sobem ou descem devagar, tem outros que ela sobe ou desce por parte do cabo. Uma vez vi um cerimonial de Escoteiros do mar. Foi lindo, Enquanto ela subia um silvo de um apito de marinheiro se fazia ouvir. Quando jovem ainda existia na prova de Segunda Classe saber  desenhar, conhecer sua história e quem foi seu idealizador. Saber o que representa as cores é fácil. Difícil é desenhar.

                  Todos brasileiros sabem que o verde simboliza a pujança das matas brasileiras, o amarelo as riquezas minerais do solo, o azul o céu e o branco a paz. As estrelas os estados brasileiros, dizem que a frase “Ordem e Progresso” teve a influência de Augusto Comte, filósofo francês. Mas desenhar a bandeira me tirou o sono por muitas noites. É fácil? Tente e depois me diga. Você sabia que para calcular a bandeira toma-se por base a largura desejada? Esta é dividida em quatorze módulos  iguais. O comprimento será de vinte módulos, a distante dos vértices do losango amarelo ao quadro externo será de sete décimos. O círculo azul no meio do losango terá um raio de três módulos e meio. O centro dos arcos da faixa brancas estará dois módulo a esquerda do ponto de encontro do prolongamento do diâmetro vertical, do círculo com a base do quadro externo. O Raio do arco inferior da faixa branca será de oito módulos e meio. A largura da faixa branca será de meio módulo. Chega, estou tremendo, já fiz mas hoje? Ainda falta os módulos da largura da faixa branca, da posição das estrelas. Um estresse grande para quem não é bom matemático.

                   A bandeira tem normas, horas de hastear e arriar, A lei número 5.700 de primeiro de Setembro de 1971 define tudo sobre ela. As normas protocolares dos diversos órgãos governamentais e das Forças Armadas, embora divirjam nos detalhes concordam na maioria dos procedimentos. Mas não vou muito longe. O que sei é que todos nós Escoteiros temos um grande amor pela bandeira. Nosso respeito, nosso amor não tem como explicar. Dobrar, guardar ou preparar para as solenidades nos faz sempre ter um carinho enorme, ter noção da sua importância e quando somos os escolhidos muitas vezes temos medo de errar. Já vi chefes tremerem, já vi chefes assustados com a bandeira virada, já vi chefes correndo para corrigir seus Escoteiros e lobinhos, mas eu nunca fiz isto. Sou daqueles que só se aprende a fazer fazendo. Quem não erra nesta vida? Tão fácil dizer – Firme! E consertar? Deixai os jovens na bandeira a sorrir, a ver ali seu orgulho de ser brasileiro!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!


Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha 
Brasil, talvez.

domingo, 26 de julho de 2015

Qual o caminho para o sucesso?


Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Qual o caminho para o sucesso?

                   Em uma nova fase nas mudanças de liderança na União dos Escoteiros do Brasil, tais como as eleições no CAN (Conselho de Administração Nacional) já realizadas e as do DEN que serão como todos sabem uma indicação do DEN (Diretoria Executiva Nacional), tenho visto uma revoada de novos lideres que se apresentam com novas ideias, falam em transparência, estarem mais próximos as bases ou unidades locais. Muitos assumem compromissos, prometem tornar publicas as prestações de contas, evolução do efetivo e objetivo do tal Planejamento Estratético. Este todo ano se comenta, mas sempre em quatro paredes e até hoje nem sei aonde chegou. Sempre tem uns que querem criar novas comissões, diretorias e um fato importante é dizerem sempre que o escotismo é para todos.

                    Eu como um Chefe meio inculto não entendo muito do palavreado que usam os novos lideres Uebeanos, afinal sempre falaram assim, temas bonitos, palavras que Rui Barbosa ficaria embasbacado. Mas como diz o maior poeta já falecido Chico Anísio palavras são palavras nada mais que palavras. Falam tantas coisas bonitas que ainda fico pensando porque não somos ainda uma potencia como movimento de educação. Há anos que sempre aparecem planos lindos, com recheios miraculosos e ao final nada de concreto se realiza. Nesta escolha do CAN dos novos diretores da DEN é um exemplo. Não deveria ser uma eleição por parte de todos os conselheiros nacionais? Mas esta minha implicância não resulta nada de bom. Os Estatutos são os mesmos. O método eletivo idem, as escolhas idem. Mas “deixa prá lá”. E pisar no molhado para escorregar na casca do quiabo como dizia o Zé das Quantas e seu amigo o Escoteirinho de Brejo Seco.

                     O carro anda, a estrada vai seguindo seu destino. E nós? Quando realmente teremos a transformação de um escotismo forte, sadio, para todos, sim para todos, pois hoje só ricos podem fazer o tal escotismo da UEB e suas Regiões. Ler o site da UEB é me perder em ambiguidades. Quando teremos lideres que se preocuparão com a transparência no seu melhor sentido da palavra? Quando teremos lideres que não vão pensar no eu, mas no todo? Não adianta citar um ou outro estado, um ou outro grupo que deu certo, nada disto. Temos muitas coisas para mudar, com o pé no chão, sem enfeites, sem demagogias que nunca se concretizam ou se realizam. Cobram-me o que eu faria. Será que ainda poderia fazer? Neste emaranhado da teia de aranha que criaram nos últimos trinta anos o primeiro passo é bem claro: - Um novo estatuto. Participativo, voz e voto a todos os membros associados da UEB. Nada de sistema representativo, de escolhas já conhecidas onde os mesmos sempre estão lá a digerir ou dirigir um escotismo que nunca tem o respeito que merece pela sociedade brasileira.

                   Quer saber mais? Eu se tivesse voz, voto e liderança para dirigir o escotismo nacional iria fazer tudo para falar a voz do povo Escoteiro. O Escoteiro humilde, aquele que luta dia a dia para comprar seu uniforme, para fazer um acampamento, para estar presente em muitas atividades escoteira. Eu iria me preocupar com ele não com esta farra de eventos criados única e exclusivamente para ricos. Não faria nada sem antes por um ou dois ou mais anos conversar, ouvir, criar seminários, indabas, congressos, assembleias e o escambal em todas as Unidades Locais. Todos iriam participar. Seja o tema que for. Nada seria feito sem uma grande consulta nacional. Nada seria realizado sem uma aprovação formal de todos os associados. Utópico? Se tivessem feito assim no passado o que hoje acontece poderia ter sido diferente. Tomaram atitudes, mudaram tudo, não houve transparência, nunca soubemos de uma só pesquisa séria feita pelos dirigentes nacionais. Sempre colocando por debaixo do pano os motivos porque perdemos tantos associados a cada ano. Alguns eventos nem apresentação de contas existem.

                    Se você meu caro que me lê é um dirigente, ou tem poderes para sugerir sem se tornar um ditador ou autocrata não pense como hoje. Pense democraticamente. A plebe tem muitas ideias e olhem muitas vezes eles sabem aonde chegar para o sucesso. Lembre-se você não é o único, a saber, que rumo seguir. Precisamos olhar mais o escotismo como um todo, ele não é meu e nem seu é de todos. Enquanto não levarmos a sério que somos parte de um movimento de jovens, que só nas democracias ele pode florescer as ideias não pode ficar restrito a um só ou a uma equipe só. Que ela apresente seus objetivos, mas que ouça todos de norte a sul do Brasil. A UEB tem capacidade de fazer amplas pesquisas, ouvir, pensar, saber o caminho a seguir rumo ao sucesso. Deve esquecer esta maneira autocrática mesmo que um estatuto hoje lhe dá estes poderes. Ele não foi feito a quatro mãos, nunca foi. Menos de 0,5% do efetivo nacional participam das tomadas de decisões. A escoteirada através dos adultos que a orientam nunca foram ouvidos e consultados. Mudaram o que quiseram e até hoje não provaram nada que os resultados foram bons.

              Hoje já não se fala nas ideias de B.P. Ele para muitos se tornou somente uma lenda que trouxe o escotismo e suas palavras foram dirigidas para os rapazes de sua época. Ninguem mais o cita em suas andanças em cursos, em seus projetos, em seus mirabolantes estudos que nada leva ao final esperado. Continuamos com um programa que não agrada, continuamos a nos apresentar através da nova vestimenta como um movimento sem orgulho, sem garbo e os politicamente corretos nem querem saber de apresentação mais digna que podem nos apresentar como um movimento militarizado. Uma liberdade que eles escolheram e nem ao menos se deram conta das suas virtudes e vantagens no passado. Sempre termino estas minhas crônicas lembrando John Thurman, chefe de campo de Gilwell Park em 1957, ele escreveu:

          - Sem dúvida, Baden-Powell tocou o dedo em algumas das mais formidáveis ideias e práticas que levam os rapazes a segui-las com entusiasmo, e nos métodos, e modo de manejar e guiar os rapazes. É por isso que devemos nos manter o mais possível dentro da simplicidade, da alegria e do entusiasmo que ele inspirou. Os únicos capazes e possíveis de pôr o Escotismo a perder são os próprios chefes e dirigentes. Se nos tornarmos arrogantes, complacentes e a nos fazermos passar por demasiado auto-suficientes, então - e apenas com essas coisas - poderemos arruinar o Movimento.


                 Precisamos falar mais alguma coisa? Que os novos candidatos e eleitos pensem melhor e vejam que sem dar as mãos em uma associação de ideias em todo o território nacional continuaremos a ser nada mais nada menos como somos hoje. Um movimento que parou no tempo e esqueceu que tem milhares de mentes prontas a colaborar para encontrar o verdadeiro CAMINHO PARA O SUCESSO!

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Um sapato chamado Vulcabrás!


Crônicas de um chefe Escoteiro.
Um sapato chamado Vulcabrás!

            Eu estava com doze anos quando ele surgiu. Meu último sapato comum sofreu uma pane na subida do Morro do Papagaio. Josias o sapateiro me disse que não dava mais meia sola. Eu não tinha outro. Sempre o mesmo para andar pela cidade, ir à reunião a missa namorar (de longe) acampar e passear com amigos. Ainda não havia as famosas sandálias havaianas que dois anos depois surgiram fazendo um grande sucesso. Era só para ricos que podiam importar da capital e pagavam uma nota preta. Tênis? Nem pensar. Nem se sabia o que era isto pelo menos para nos de uma cidade que pouco falava com o mundo. Conversei com meu pai, ele me olhou com aqueles olhos que me explicavam tudo. - Vamos ver filho, vamos ver. Vou entregar uma sela no sábado e se o Seu Joviano me pagar à vista pelo menos a metade posso lhe dar para comprar seu sapato novo. Meu pai era um grande sujeito, eu sabia que ele queria tudo de bom para nós eu e minhas duas irmãs, mas a luta pela vida era incessante. Primeiro a alimentação e depois o supérfluo. Sapato não era, mas naquela hora entrava na lista.

                     Andava com meu Velho sapato com um pedaço da sola solta amarrada com uma cordinha fina. Nem pregar dava. Lembro-me do barulho que fazia plec, plec quando esbarrava no chão. Ainda bem que no Cerimonial de Bandeira, na Inspeção e oração a gente permanecia em posição de sentido ou descansar. Os jogos de corrida eu tirava o sapato e ficava descalço. Sabia que era por pouco tempo. Já tinha juntado uma pequena quantia para comprar um canivete para mim. Tinha visto um nas Casas Abil e me encantei com ele. Levi me disse que era suíço. Bem ele ficaria para outra ocasião. Era assim no passado a gente saia da escola, passava a mão na caixa de engraxate e saia para ganhar uns tostões. Foi assim que comprei meu uniforme completo, meu cantil, minha faca, minha bússola e meu chapéu. Faltava o canivete. Agora era a vez de um sapato novo. Consegui duas semanas depois o que faltava. Meu pai me acompanhou até a Loja de Calçados do Seu Tinoco.

                      Foi ele quem nos mostrou a novidade. – Seu Totim (meu pai) chegou um novo tipo que dizem durar mais de vinte anos! Olhei para ele espantado. Vinte? Isto mesmo Vado, se chama Vulcabrás. Quer ver? Ele trouxe dois pares um marrom e um preto. Eram bonitos, nada de extraordinário. Será que era isto mesmo a duração? Custa um pouco mais caro que os outros, mas vejam o solado, é feito de borracha vindo do Amazonas. Não tínhamos todo o dinheiro, mas seu Tinoco disse que poderíamos pagar o saldo em trinta dias. O levei na caixa. (sem a caixa a tínhamos descontos) Amei a primeira vista. Calçava 36 na época (hoje calço 38). Nada como uma boa engraxada para deixar o coro no ponto. Fiz isto seis vezes em um só dia! O bicho ficou tinindo de rosca. Lindo, brilhante. Era como o Chefe dizia: - Um Escoteiro está sempre bem apresentado, do calçado ao chapéu. Na reunião todos queriam ver o tal Vulcabrás, souberam que ele durava vinte anos! Ninguem acreditava. Serviu como uma luva, mas duas semanas depois fomos acampar em Serra Vermelha. Doze quilômetros empurrando a carrocinha e o danado me mordeu o calcanhar e o dedão. Não foi fácil ficar descalço no acampamento, mas fiquei.

                       A gente levava à graxa e a escova para o acampamento. Nas inspeções não serviam desculpas que choveu, tem barro e a poeira não deixou ficar limpo. Um sapato sujo era nota menor e nenhuma patrulha perdoava um Escoteiro que tirasse nota baixa. Para isto sabíamos lavar e passar a moda escoteira no sol quente. Meu Vulcabrás foi um grande companheiro. Acompanhou-me por muitos anos na minha vida escoteira. Fomos longe eu e ele. Andávamos a pé de ônibus, de trem e no meu cavalo de aço (bicicleta). Se tempo valesse todos os anos ele devia receber junto comigo uma estrela de metal de um ano de atividade. Um dia levantei e faltou um pé. Sabia que não eram meus companheiros de patrulha, eles nunca fariam este tipo de brincadeira. Todos saíram à procura do pé direito do meu Vulcabrás. O encontramos na boca de Jacaré, pequeno, não mais que uns sessenta centímetros próximo à lagoa querendo engolir e ficou preso na sua garganta.

                         Depois que o retiramos tive que lavá-lo, por para secar e dar uma boa graxa. Afinal brincava que ele foi batizado e já podia fazer a promessa. Seis meses depois que comprei o sapato fui orgulhoso nas Casas Abil comprar meu canivete Suíço. Não tinha mais. Que tristeza! Levi me garantiu que em três meses chegaria uma nova remessa. Para quem esperou tanto tempo mais uns meses não ia fazer a diferença. Em menos de dois anos toda a Tropa escoteira, os lobos e os seniores usavam o Vulcabrás. Era o sapato do momento, o sapato dos escoteiros podia-se dizer. Seis anos depois entrando nos meus dezoito e quando recebi meu primeiro soldo na Construtora Techint onde trabalhava como anotador, comprei um marrom. Usei por vários anos e até casei com ele cinco anos mais tarde. Fez muito sucesso naquela época a marca Vulcabrás. Claro que depois de um tempo era considerado sapato de pobre, rico não usava mais. Precisavam mostrar que tinham vários calçados, bico fino, bico chato e aqueles com presilha de ouro. E os tais italianos?

                         Não sei se existe ainda a fábrica Vulcabrás. Faz anos que não o uso mais. Hoje em dia eles não teriam vez com a escoteirada. Os tênis tomaram seu lugar e as escolhas são diversas. Disseram-me que existem alguns de mais de dois mil reais. Madre Mia. Haja dinheiro, mas quem pode, pode e quem não pode se sacode, não é assim que se diz? Fui uma vez Chefe de um grupo onde os tênis já tinham voz e voto. Ninguem usava com o uniforme tênis que não fosse preto. Questão de costume, de apresentação pessoal, coisas de um Escoteiro que tem orgulho do seu uniforme. Depois ninguém ligava mais para isto. O que um calçado não podia fazer para significar um orgulho no uniforme Escoteiro. Mas acredito que hoje também os jovens se mantem firmes na sua apresentação pessoal. Antes éramos uma só alma um só coração. Ninguem queria ou podia ser diferente dos outros.


- Paulo Coelho disse: Podemos acreditar que tudo que a vida nos oferecerá no futuro é repetir o que fizemos ontem e hoje. Mas, se prestarmos atenção, vamos nos dar conta de que nenhum dia é igual a outro. Cada manhã traz uma benção escondida; uma benção que só serve para esse dia e que não se pode guardar nem desaproveitar. Se não usamos este milagre hoje, ele vai se perder. Este milagre está nos detalhes do cotidiano; é preciso viver cada minuto porque ali encontramos a saída de nossas confusões, a alegria de nossos bons momentos, a pista correta para a decisão que tomaremos. Nunca podemos deixar que cada dia se pareça igual ao anterior porque todos os dias são diferentes, porque estamos em constante processo de mudança. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Um por todos? Sim Chefe, um por todos e todos por um!


Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Um por todos? Sim Chefe, um por todos e todos por um!

                       Fico a olhar hoje os doces momentos escoteiros que muitos se divertem riem colocam fotos se abraçam dão adeusinhos e o nosso sinal para lembrar que pertencem a fraternidade, em uma grande atividade escoteira. E o Jamboree do Japão? Quantas belezas os brasileiros estão vendo por lá. Pena que são poucos, só aqueles mais bem aquinhoados e ou que passaram anos fazendo  uma poupança para ter a felicidade de estar presente. Nestas horas eu sinto uma tristeza enorme em saber que milhares ou milhões de escoteiros em todo o mundo nunca poderão estar presentes em uma apoteose de um Jamboree. Claro alguém já disse para mim que isto é impossível, como colocar junto milhões em um só lugar? Concordo e concordo também que quem deseja algum tem de lutar para conseguir. Pena que nem todo ser humano é igual. As diferenças fazem de um lutador e outro de perdedor. Escoteiros são perdedores? Bem não foi isto que quis dizer, mas acho que me entenderam.

                        Mesmo sabendo que tem aqueles que acreditam e não sonham como eu ou muitos sonhadores do bem comum, da fraternidade, do direito universal que todos são iguais perante a lei nós sabemos que não é assim. Já contei inúmeras histórias sobre jovens meninos sonhadores que seus olhares enchiam-se de lágrimas e ver fotos, manchetes e nunca iriam poder participar de um evento maior do escotismo nacional ou mundial. Conheci um chefe há muitos e muitos anos que trabalhava duro um ano inteiro só para ir aos Jamborees. Seu grupo, sua família sofria com isto. Interessante que quando chegava destes eventos sua casa ficava cheia de amigos só para ouvir suas histórias como foi lá, os distintivos que trouxe e as fotos. Uma vez fui a sua casa, vi sua família tristonha, seus filhos em um canto da sala, quem sabe revoltados, pois sabiam que a alimentação nunca faltou, mas faltou ter um pouco mais do que tinham, um amor maior e presente, uma TV nova, um fogão que sua esposa sonhava roupas e participar do mundo que seus amigos participavam.

                         Sei que isto é uma exceção. Mas eu me entristecia quando o via em uma atividade, cheio de distintivos, estrelas, medalhas e seu sorriso de vencedor. Eu mesmo sabia que todos seus amigos se sentiam feliz com a felicidade dele, e isto é bom, mas será que isto basta? Eu fui a um Jamboree uma vez. Um só, nunca mais voltei. Gastei o que não tinha e me arrependo até hoje por isto. Sei que sou errado, mas jurei a mim mesmo que as oportunidades deveriam ser iguais para todos. Onde labutei nos diversos grupos que passei fazia questão disto. Ninguem ia a não ser se todos fossem. Ensinei que ou somos irmãos para tudo ou não somos. Em nossos acampamentos fazíamos uma romaria no bairro, nas lojas, nos supermercados e armazéns e todos ajudavam sem reclamar. Não faltava nada para a intendência das patrulhas e chefia. Quando convidados para uma atividade fora do nosso distrito, todos iam.

                          Aqui mesmo em São Paulo um grupo que colaborei fazia questão de um acampamento de grupo uma vez por ano em outra cidade confraternizando com o grupo local. Chegamos em um uma vez com mais de três ônibus lotados. Foram seis dias de felicidade total. Todas as sessões tinham seus campos e os lobos perto em uma escola rural. Sei que muitos fazem isto, mas eu me perguntava se não devia ser assim a fraternidade escoteira. Nunca me esquecia da lição de Athos, Porthos e Aramis sem esquecer do jovem D’Artagnan. Quando eles diziam um por todos e todos por um era para valer. Sei que isto são coisas de sonhadores, daqueles que acham que o mundo é feito de historias da Távola Redonda, das incríveis histórias de Avalon, do Rei Arthur e seus cavaleiros que junto a ele juntavam forças para vencer o mal. Nunca me esqueci de Sir Dagonet o bobo da corte, de Sir Agravaine o filho do rei Lot, de Sir Lancelot, Sir Galhard o filho de Lancelot, Sir Gawain, Sir Palamedes o Sarraceno e tantos outros.

                           Escotismo para mim sempre foi uma saga de BP. De sentir no corpo e no coração a força que ele nos traz quando colocamos nosso uniforme, nosso chapéu, olhamos o céu para ver se vai chover e partimos por aí em busca de aventuras mais gostosas junto a companheiros fieis. Uma vez, quanto tempo não me lembro, acho que tinha quinze ou dezesseis anos, estávamos indo para Aimorés, a convite de um grupo novo, resolvemos cortar caminho (160 km) e nos perdemos em uma encruzilhada. Pela primeira vez não estávamos com nosso bornal cheio de coisas gostosas. O sol ia se por no horizonte e procuramos sem parar a estrada certa e a fome apertava. Chegamos em uma tapera na beira da estrada. Um botequim pequeno, Só o dono, no balcão alguns doces, mas me encantei com um lindo pedaço de pudim, daqueles parecido da TV que balançam prá lá e prá cá. Ai meu Deus, que fome! Quanto? Três reais. Quem tem? Comprar para todos nós sabíamos que ninguém.


                          Partimos, havia entre nós quase cinco reais se fizéssemos uma vaquinha. Mas ou todos comem ou não come ninguém. Afinal ninguém morreu e no outro dia pela manhã chegamos a Aimorés e na casa do Chefe Armindo nos refastelamos com um belo bolo de tapioca. Que bolo gostoso, parecia um manjar dos Deuses. São coisas assim que nos fazem lembrar, que a fraternidade, o amor, a igualdade traz um orgulho danado e saber que um dia poderíamos dizer sem errar: - Um por todos? Sim Chefe, um por todos e todos por um!

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Como alcançar a estabilidade escoteira.


Conversa ao pé do fogo.
Como alcançar a estabilidade escoteira.

                Baden-Powell no seu livro o Guia do Chefe Escoteiro escreveu que o mínimo para se formar um Escoteiro pensando que ele quando adulto tivesse a formação esperada do caráter, da palavra, da honra dentre outros do programa Escoteiro, ele precisaria passar pelo menos dez anos no escotismo. Dez anos? Isto hoje podemos dizer que é impossível. Sem perceber estamos passando por uma fase que se o jovem ficar um ano acredito que está bom demais. Temos uma evasão enorme, evasão que até hoje eu não sei por que ainda não foi atacada de frente. Outro dia um Chefe Escoteiro quando comentei que o SIGUE deveria ser o caminho lógico para se saber quantos entram e quantos saem, ele me confirmou que sim. O SIGUE é capaz. E porque não se faz uso dele neste pormenor? Quem sabe estudando profundamente a evasão chegaríamos à conclusão do que ela é a culpada pela falta de crescimento do nosso efetivo nacional.

               Infelizmente nossa direção peca pela falta de ação. Se ela própria é capaz de colocar em seu relatório de 2014 que estamos crescendo, e ao mesmo tempo mostrando números menores que 2013 ficamos na duvida até que ponto podemos acreditar na verdade. Se começarmos a “papear” sobre o tema sem sombra de duvida que cada Chefe cada dirigente tem seu ponto de vista formado e poderia dizer onde atacar para que fosse reduzida ao máximo. Estamos caminhando para uma formação de opiniões que os chefes emitem em nome dos jovens. Sei que se o jovem ou a jovem aprende que se pesca baleia em uma lagoa, ninguém vai demovê-lo disto. O Chefe ensinou, o Chefe fez, o Chefe disse que é o melhor. Mas vai chegar a hora que ele vai desistir de pescar, afinal onde está a Baleia? A própria direção nacional é prodiga em alterar, mudar, substituir tudo que poderia afetar como está afetando o programa Escoteiro e até posso pensar que isto justificaria esta evasão tão grande.

                 No final da década de oitenta as mudanças tiveram seu início. Tivemos muitas, mas hoje vou me segurar somente no Programa Escoteiro. Se formos ao site da UEB ficaremos maravilhados com o que ela apresenta para que o jovem se sinta motivado em continuar. O programa de progressão é bem apresentado. Alcançar a Lis de Ouro e o Escoteiro da Pátria deveria ser a meta final para cada um jovem na formação escoteira. O que se faz hoje  não é nada comparado pelo menos com o que se fazia no passado, onde a sede de aventuras era explorada e o desejo de vencer mais uma etapa era frequente. Se alguém conheceu e se ainda lembram-se do exigido para o Escoteiro Noviço, Segunda Classe e Primeira classe deve saber que isto era motivo da permanência de muitos. Isto sempre foi motivador entre os jovens escoteiros.

                    Não vou entrar no mérito do programa Rumo e Travessia da UEB para tropas Escoteiras. Em princípio parece bonito, bem feito bem organizado. Mas e então porque muitos jovens não estão interessados nele e a ficar por mais tempo no escotismo? Quando a UEB resolveu acabar com o sistema de progressão de classes não perguntou, não pesquisou e nem ouviu pelo menos vinte por cento dos jovens escoteiros no Brasil. O número de chefes que não concordaram foi grande. Tentei entender e documentar as vantagens ou desvantagem do novo programa e da extinção do outro. Havia uma grita geral por terem acabado com o sistema de classes. Sempre os adultos resolvendo em nome dos jovens. O que me chama atenção é que todos os chefes que conheço sempre dizem que o jovem deve ser ouvido e ser levado a sério. Sei que ainda tem muitas tropas que fazem isto. Os jovens em primeiro lugar para dar sua opinião e sugestão. Mas a grande maioria não faz assim.

                     A UEB na sua falsa interpretação que seu programa era o melhor para os jovens nunca deu ouvidos a eles. Se notarem bem, foi a partir dai que a evasão começou a surgir levando todo um trabalho de roldão. Até hoje a UEB (seus lideres é claro) não dá a mínima para ouvir os interessados. Tudo que faz é de seu livre arbítrio. Dizem que os Jovens Lideres estão aí para opinar. Será verdade? Será que eles representam toda a gama de escoteiros e Escoteiras do Brasil? Jovens lideres de 16 a 27 anos? Com dezoito ele já responsável sobre si mesmo, Com 27 anos tem muitos que dirigem empresas e até politico eles são. Eu casei com 23 anos. Seria na época um jovem líder? Os que realmente estão na linha de frente, os escoteiros atuantes nas tropas Escoteiras nunca foram consultados. Fico pensando porque nossos lideres ainda não se tocaram que tem alguma coisa errada no reino da Dinamarca. Eles não se preocupam? Não discutem o tema? O importante para eles são os números e não o individuo?  

                        Quantos me afirmam que o jovem agora quer uma vida moderna, interagir e participar, estar junto com as necessidades locais eu fico em dúvida. Estes chefes nem de longe pensaram que o jovem poderia pensar diferente. Uma vez um deles me garantiu que para isto existem os chefes. Para resolver, programar e fazer o que os jovens precisam e para isto não se precisa ouvi-los. Eu sempre me pergunto a mim mesmo: - Onde estão os resultados? Onde? Se estamos perdendo milhares deles se existe uma falta de interesse e a motivação porque esta insistência em não ver onde está o erro? Me preocupo muito com a aceitação absoluta de muitos. Entram para o escotismo, aprendem o de hoje, não sabem não sabem do passado e concordam com tudo. Se cada um enfronhasse mais na sua Tropa ou Alcateia, procurasse saber o porquê esta saída abrupta dos jovens, conversasse, os ouvisse, então quem sabe poderíamos chegar a uma conclusão satisfatória.

                       Acho que para muitos chefes as idas e vindas de meninos e meninas que entram e saem é deprimente. Deve dar uma sensação de vazio, de trabalho perdido e ter sempre que recomeçar com os novos. Patrulhas de dois, três ou quatro  nem dá para fazer uma boa reunião de Tropa quiçá um acampamento. Não preciso ir longe, qualquer um de nós pode ver que se o menino se sente motivado ele fica se desmotivado ele sai. Dizer que o sistema antigo de classe não era bom é faltar com a verdade. Vejo hoje muitos bons escotistas alguns até na liderança nacional mostrando suas ideias, o que deveria ser mudado e alterado. Seus palavreados são para mim difíceis de entender. São doutores nas ideias e muitos pretendem discutir e mostrar como podem dar vazão a um maior contingente Escoteiro nacional. E onde estão os jovens para opinar? Eu fico pensando se eles estão certos, se viveram outra época para opinar onde está o certo e o errado.


                         Qualquer jovem que tivesse a disposição uma vida de aventuras, de descobertas de saber que pode conquistar sem sombra de dúvida seria uma motivação para ele continuar. Não gosto de muitos que dizem que a culpa é do Chefe. Sempre ele. E a nossa liderança da UEB não tem responsabilidade nenhuma? Colocar os pés no chão, ouvir mais e falar menos então e só então iremos conseguir atingir o que todos nós escoteiros do Brasil sonhamos.           

sábado, 18 de julho de 2015

Matar, morrer ou correr!


Conversa ao pé do fogo.
Matar, morrer ou correr!

             - Abri os olhos devagar. Uma luz forte me cegava. Minha cabeça girava a mil. Tentei levantar e não consegui. Estava amarrado a uma cadeira. Meus pés firmes estavam presos por um volta de fiel duplo, daqueles que só eu sabia fazer. Minhas mãos estavam presas atrás por uma amarra paralela perfeita. Quem a fez tinha experiência de campo. Por quê? Minha cabeça estava a mil. Onde estava? O que queriam comigo? Sou um Velho Escoteiro babão com dizem, mas de paz, briguei quando criança e apanhei muito. Nunca fui bom de briga. Não me lembrava de como fui parar ali. Meus olhos foram se acostumando com a luz e me vi em um quartinho pequeno, na parede uma bandeira do Brasil. O DOI CODE? O DOPS? Mas a democracia não existia agora? A porta abriu. Vi um Chefe Escoteiro magro, simpático com a vestimenta escoteira. Adorava ela com a meinha branca. Sorri, agora sabia que ia ser solto.

              - Sabe quem sou eu? Disse o Chefe. Não meu senhor! – Sou dirigente da UEB, e você é nosso prisioneiro. Macacos me mordam! E agora? O que eu fiz de tanto errado? – Vamos dar uma lição a você! Vai aprender a respeitar as associações bem organizadas! – Mas Chefe! – Ele não me deixou continuar. – Vou acabar com sua raça e destes chefetes do passado que se julgam dono das ideias de um escotismo perfeito! – Madre minha! Eu pensei. O que fiz de tão errado? – Você chefinho se acha o bom, se acha o tal, critica todo mundo, mete o pau na vestimenta, fala mal de nosso amado e querido SIGUE, cria revolta em muitos chefes e até um que é seu amigo se afastou de você. Era verdade, fiquei chateado, mas fazer o que? Afinal nasci assim um Chefe chato de galocha, e não tinha duvidas em sabia que ia morrer. – Ele implacavelmente continuou: - Só porque fez a jornada, tirou a primeira classe e foi Correia de Mateiro acha que pode dar lições? – Humildemente respondi: - Não senhor, não senhor!

                      - Velho Babão, você nem imagina o que vai acontecer com você. Aqui não adianta estas medalhas que nem existem mais, para mim pouco importa se foi regional, se fez três insígnias, se foi formador e dirigiu centenas de cursos. Aqui para mim você não é nada! – Vamos lhe dar uma lição, este teu uniforme de tergal caqui vai fazer de você mais um da patrulha da onça. Ninguem vai lhe salvar. Se você é o tal, se acha que sabe tudo então venha assumir no nosso lugar! – Sorri, será que iriam me deixar assumir? – Está sorrindo em Velho Escoteiro idiota, acham mesmo que vamos deixar? Nesta boquinha ninguém tasca! – Abaixei a cabeça, os nós perfeitos em meus pés e braços doíam. – Mas Chefe! Eu só quero ajudar? – Ajudar? Você? Com esta panca de Velho babão sabe tudo? Só porque foi Lobinho, Escoteiro e Sênior acha que pode dar lições? Afinal suas quase oitocentas noites de acampamento não é nada comparado às viagens do nosso Diretor Internacional. Sabe quantos países ele conhece? Sabe quantos idiomas ele fala? Você Velho babão precisa ter mais respeito. Se mudamos foi para melhor. Se na sua época era outro escotismo então volte para lá! – Sim senhor! Sim Senhor! – era só o que eu sabia dizer.

                      - Ele deu um grito: - Chame o Chefe Coronel Facão. Ele vai dar uma lição neste belho babão metido a sabe tudo. – Tremi, agora sim estava no papo da UEB. Não havia como escapar. Ele entrou e achei que fosse o Demônio, mas era um Chefe Escoteiro, assim diziam. Alto, enorme pançudo, cabeludo, barbudo, dentuço e portava um bastão de dois metros com ponteira de aço. Seu corpo cheio de distintivos, o cara era mesmo o tal. – Chegou perto de mim e sorriu: - Deus do céu que horror! O cara além de feio, nem me disse sempre alerta, foi logo dizendo – Be Prepared! I am an American scout CIA. Secret agent. Son of President Obama. – Pelas Barbas de Maomé. Desta vez entrei pelo cano. – Tentei rezar, precisava. Onde foi que amarrei minha égua? Agora estou frito. Língua maldita que tinha eu pensei. Língua não escrita. Quem mandou ser metido a saber como resolver a situação do escotismo mundial!

                     Ele se mexeu para um lado e outro, vi na mão dele um enorme facão. Afiado, o cara sabia afiar. Rodopiou o facão no ar. Senti que precisava fazer as pazes com Deus. Comecei a rezar. Senhor, me mantenha calado dora em diante, faça com que eu não fale mais mal da nossa querida, simpática, maravilhosa, estupenda UEB. Olhei para o gringo Boy Scout que sorria com o facão na mão. – Mas não aguentei, mesmo na hora da morte gritei: - Onde foram parar os quase seis mil escoteiros que se mandaram da UEB o ano passado? O facão girou no ar. Me vi liberto, abri a porta e sai correndo nas ruas de Curitiba. Atrás uma chusma de chefes da UEB com a vestimenta. Muitos com calça comprida, outros calça curta, camisas do lado de fora, para dentro e até com saia eu vi. Dois meteram a mão nos bolsos da camisa. Enormes, grandes e tiraram de lá duas metralhadoras israelense. Eu gritava pela rua afora! Acudam-me!


                     - Chefe, Chefe! Quer um cafezinho? Abri os olhos. A clareira era a mesma quando chegamos ali para acampar. O céu estrelado com uma lua enorme fazendo bonito para quem quisesse ver. Graças a Deus! Eu estava entre amigos em uma pequena conversa ao pé do fogo. Olhei para o monitor que tinha me chamado e espantado sorriu sem jeito e perguntou? – Chefe! O que houve com o senhor lá na UEB?