HOTEL ESCOTEIRO

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cada foto tem uma história

sábado, 18 de julho de 2015

Matar, morrer ou correr!


Conversa ao pé do fogo.
Matar, morrer ou correr!

             - Abri os olhos devagar. Uma luz forte me cegava. Minha cabeça girava a mil. Tentei levantar e não consegui. Estava amarrado a uma cadeira. Meus pés firmes estavam presos por um volta de fiel duplo, daqueles que só eu sabia fazer. Minhas mãos estavam presas atrás por uma amarra paralela perfeita. Quem a fez tinha experiência de campo. Por quê? Minha cabeça estava a mil. Onde estava? O que queriam comigo? Sou um Velho Escoteiro babão com dizem, mas de paz, briguei quando criança e apanhei muito. Nunca fui bom de briga. Não me lembrava de como fui parar ali. Meus olhos foram se acostumando com a luz e me vi em um quartinho pequeno, na parede uma bandeira do Brasil. O DOI CODE? O DOPS? Mas a democracia não existia agora? A porta abriu. Vi um Chefe Escoteiro magro, simpático com a vestimenta escoteira. Adorava ela com a meinha branca. Sorri, agora sabia que ia ser solto.

              - Sabe quem sou eu? Disse o Chefe. Não meu senhor! – Sou dirigente da UEB, e você é nosso prisioneiro. Macacos me mordam! E agora? O que eu fiz de tanto errado? – Vamos dar uma lição a você! Vai aprender a respeitar as associações bem organizadas! – Mas Chefe! – Ele não me deixou continuar. – Vou acabar com sua raça e destes chefetes do passado que se julgam dono das ideias de um escotismo perfeito! – Madre minha! Eu pensei. O que fiz de tão errado? – Você chefinho se acha o bom, se acha o tal, critica todo mundo, mete o pau na vestimenta, fala mal de nosso amado e querido SIGUE, cria revolta em muitos chefes e até um que é seu amigo se afastou de você. Era verdade, fiquei chateado, mas fazer o que? Afinal nasci assim um Chefe chato de galocha, e não tinha duvidas em sabia que ia morrer. – Ele implacavelmente continuou: - Só porque fez a jornada, tirou a primeira classe e foi Correia de Mateiro acha que pode dar lições? – Humildemente respondi: - Não senhor, não senhor!

                      - Velho Babão, você nem imagina o que vai acontecer com você. Aqui não adianta estas medalhas que nem existem mais, para mim pouco importa se foi regional, se fez três insígnias, se foi formador e dirigiu centenas de cursos. Aqui para mim você não é nada! – Vamos lhe dar uma lição, este teu uniforme de tergal caqui vai fazer de você mais um da patrulha da onça. Ninguem vai lhe salvar. Se você é o tal, se acha que sabe tudo então venha assumir no nosso lugar! – Sorri, será que iriam me deixar assumir? – Está sorrindo em Velho Escoteiro idiota, acham mesmo que vamos deixar? Nesta boquinha ninguém tasca! – Abaixei a cabeça, os nós perfeitos em meus pés e braços doíam. – Mas Chefe! Eu só quero ajudar? – Ajudar? Você? Com esta panca de Velho babão sabe tudo? Só porque foi Lobinho, Escoteiro e Sênior acha que pode dar lições? Afinal suas quase oitocentas noites de acampamento não é nada comparado às viagens do nosso Diretor Internacional. Sabe quantos países ele conhece? Sabe quantos idiomas ele fala? Você Velho babão precisa ter mais respeito. Se mudamos foi para melhor. Se na sua época era outro escotismo então volte para lá! – Sim senhor! Sim Senhor! – era só o que eu sabia dizer.

                      - Ele deu um grito: - Chame o Chefe Coronel Facão. Ele vai dar uma lição neste belho babão metido a sabe tudo. – Tremi, agora sim estava no papo da UEB. Não havia como escapar. Ele entrou e achei que fosse o Demônio, mas era um Chefe Escoteiro, assim diziam. Alto, enorme pançudo, cabeludo, barbudo, dentuço e portava um bastão de dois metros com ponteira de aço. Seu corpo cheio de distintivos, o cara era mesmo o tal. – Chegou perto de mim e sorriu: - Deus do céu que horror! O cara além de feio, nem me disse sempre alerta, foi logo dizendo – Be Prepared! I am an American scout CIA. Secret agent. Son of President Obama. – Pelas Barbas de Maomé. Desta vez entrei pelo cano. – Tentei rezar, precisava. Onde foi que amarrei minha égua? Agora estou frito. Língua maldita que tinha eu pensei. Língua não escrita. Quem mandou ser metido a saber como resolver a situação do escotismo mundial!

                     Ele se mexeu para um lado e outro, vi na mão dele um enorme facão. Afiado, o cara sabia afiar. Rodopiou o facão no ar. Senti que precisava fazer as pazes com Deus. Comecei a rezar. Senhor, me mantenha calado dora em diante, faça com que eu não fale mais mal da nossa querida, simpática, maravilhosa, estupenda UEB. Olhei para o gringo Boy Scout que sorria com o facão na mão. – Mas não aguentei, mesmo na hora da morte gritei: - Onde foram parar os quase seis mil escoteiros que se mandaram da UEB o ano passado? O facão girou no ar. Me vi liberto, abri a porta e sai correndo nas ruas de Curitiba. Atrás uma chusma de chefes da UEB com a vestimenta. Muitos com calça comprida, outros calça curta, camisas do lado de fora, para dentro e até com saia eu vi. Dois meteram a mão nos bolsos da camisa. Enormes, grandes e tiraram de lá duas metralhadoras israelense. Eu gritava pela rua afora! Acudam-me!


                     - Chefe, Chefe! Quer um cafezinho? Abri os olhos. A clareira era a mesma quando chegamos ali para acampar. O céu estrelado com uma lua enorme fazendo bonito para quem quisesse ver. Graças a Deus! Eu estava entre amigos em uma pequena conversa ao pé do fogo. Olhei para o monitor que tinha me chamado e espantado sorriu sem jeito e perguntou? – Chefe! O que houve com o senhor lá na UEB?