HOTEL ESCOTEIRO

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cada foto tem uma história

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Os escoteiros declaram guerra ao Exército Brasileiro.


Os escoteiros declaram guerra ao Exército Brasileiro.
Um conto quase real.
“(Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, não é mera coincidência)”.

                 Eram seis seniores. Passaram para a tropa e resolveram criar uma nova patrulha. Por unanimidade escolheram o nome de Tamanduá Bandeira. Já se entrosavam no passado e agora melhor no presente. Corria o ano de 1956. Josué o Chefe sênior dava inteira liberdade. Funcionário da Vale do Rio Doce vivia quase que em um vagão percorrendo estações, locais perigosos e pouco aparecia na sede. As três patrulhas tinham liberdade de ir e vir e as reuniões eram mais para discutir atividades aventureiras. Lindomar foi quem se lembrou das Grutas de São Raimundo. Há tempos não iam lá. Seria menos material e isto facilitaria a jornada de duas léguas bem contadas.

                 Encontraram-se na sede na sexta às oito da noite e as nove já atravessavam a ponte de São Raimundo sobre o Rio Doce. O Povoado de São Raimundo dormia e não viu os escoteiros seniores cantando baixinho uma canção rumo à trilha da Fazenda do Mário Labrador. Voltariam no domingo. O programa de sempre. Alvorada sempre ás seis. Um pouco de física que o Tom Maia intendente conhecia e acostumado a dirigir. Levaram a ração C. Sabiam que lá tinha belos peixes e muitas codornas para belas fritadas na frigideira do Calêgo o cozinheiro. Às duas da manhã chegaram e se arrancharam. Dormiram o sono dos justos. Foi Luiz Almeida quem acordou primeiro. Chamou Tom Maia e acordou os demais. Sempre aquela vontade de continuar dormindo, mas Coleman o Monitor logo deu a ordem para formar.

                 E eis que todos ficaram alerta ao verem dois caminhões do Exército a Norte do Rio, uns 800 metros de distância despejar dezenas de recrutas próximos às corredeiras da Curva do Onça.  Cada um na sua e assim como o Exercito não deu bola para eles o mesmo aconteceu na patrulha. Havia um programa não escrito e foi para isto que eles foram arranchar ali. Tudo corria bem, almoçaram taioba com arroz e lambari frito. Não havia “sesta” era a hora de montar armadilhas para pegar um bom tatu ou mesmo um quati. O Arlindo foi para a beira do rio montar um Cubo de bambus lascados em um remanso, onde o peixe entrava e não podia sair. Quando voltava para o campo viu mais a sua direita uma enorme abobora laranja. Grande mesmo, ele nunca conseguiria levá-la sozinho para o acampamento.

                   Tom Maia e ele improvisaram uma biga e ela foi levada até as grutas. Não sei quem deu a ideia, mas o Arlindo ficou toda a tarde limpando por dentro sem cortar por fora e após fazer uma pequena tampa cortou a parte mais larga fazendo uma boca cheia de dentes pontiagudos e dois olhos arregalados. Todos sorriram quando perceberam o que ele queria fazer. Calêgo trouxe duas velas. Arlindo preparou tudo para que o vento não apagasse as velas. Deixou no fundo da abóbora um pouco de capim seco com folhas verdes molhadas que quando tudo ficasse quente sairia pela boca muita fumaça escura. A noite chegou. Ninguém falava nada. Não precisava. Luiz Almeida o melhor nadador da patrulha levou a Abóbora até o meio do rio. No início águas mansas até as corredeiras da Curva do onça onde estavam acampados os recrutas do exército.

                   Antigamente e hoje nem sei se ainda é assim, as cidades tinham seu Tiro de Guerra, uma pequena unidade militar para que pudessem ter reservistas sem necessidade de investir em um quartel militar. A turma recebia tudo. Fardamento e alimentação, mas iam para casa a noite e nos fins de semana pouca atividade militar. A abobora no escuro era fantasmagórica. Logo a fumaça tomou conta e quando ela passou pela área do Tiro de Guerra (por volta das onze e quarenta da noite) os dois sentinelas levaram o maior susto. Sem experiência começaram a gritar e abriram fogo na pobre abóbora que navegava tranquila pelo rio soltando fumaça e girando nas corredeiras. Os dois gritavam a mais não poder. – Sargento é o capeta! O demônio! O diabo! A tropa acordou e se juntou aos outros que gritavam e abriram fogo na pobre feiticeira do Rio Doce. E tome tiro agora com mais de uma dezena de outros atirando também.

                   A gritaria era demais. Os seniores gargalhavam e pulavam com sua abobora do fim do mundo. Enquanto isto os soldados corriam para todo lado, alguns atiravam até mesmo em árvores pensando que o inferno abriu a porta para eles. O tiroteio só parou quando o sargento Martinho mirou e acertou uma bala bem no centro da abobora que se despedaçou. Os seniores ficaram quietos. Não queriam que os militares soubessem que foi invenção deles. Saíram das grutas na madrugada de domingo sem fazer barulho. Após percorrerem alguns quilômetros foi aquela festa. Eles sabiam que tal aventura seria contada por gerações em fogos de conselho ou conversas ao pé do fogo.

                   Mas no sábado seguinte as patrulhas reunidas e treinando uma passagem do caminho do Tarzan montada pela Jaguar viram o Capitão Leopoldo do Tiro de Guerra chegando junto com o Chefe Josué. Ambos sérios. Todas as patrulhas formaram em linha. O medo aflorou nas hostes da Tamanduá. Não havia riso. Perfilados lado a lado em posição de sentido. Os seis bravos seniores tremiam como varas verdes. Dizem que dois deles fizeram xixi na calça e outra não aguentou e borrou até cair pelas pernas no chão. O capitão com um olhar feroz passou em revista a patrulha. Olhou nos olhos de cada um e Arlindo jurou que saia fumaça e fogo no seu olhar. Olhou os uniformes, na sua pose característica de capitão foi por trás e voltou novamente a frente olhou de novo a cada um e falou:


              - Então são vocês? Seis merdinhas escoteiros que botaram o Exército Brasileiro para correr? – A coisa “tava braba”, pensou Tom Maia. Mas eis que para surpresa ele começou a rir desbragadamente. E não parou de rir até que toda a Patrulha parou de tremer e a rir também. A cidade comentou por muitos e muitos anos. Nem tudo foram Flores. O Chefe Josué proibiu a patrulha de acampar sem Chefe por quatro meses. Um suplicio, mas eles sempre quando se encontravam as lembranças nunca era esquecidas. O tempo passou, a turma cresceu e eis que os seis seniores se alistaram no exercito. Acamparam sim próximo as Grutas de São Raimundo, mas sentiram saudades dos tempos que seis jovens botaram o exercito brasileiro para correr!  


Uma história quase real e o autor deste conto ainda ri até hoje e se lembra que foi um dos que de tanto medo fez xixi na calça. Não aconselho hoje a fazer isto, naquela época tudo era aventura e tudo servia para curtir um pouco da monotonia da falta de um Smartfone de uma TV ou das belas criações do mundo moderno pois dizem que agora se faz grandes aventuras! Sempre Alerta!