HOTEL ESCOTEIRO

HOTEL ESCOTEIRO
cada foto tem uma história

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O SONHO NÃO ACABOU!


O sonho não acabou!

O sonho acabou, vamos encarar a realidade. "

                Metade a favor, metade contra? Não estão entendo? Nem eu! Risos. Mas vamos tentar explicar melhor. Quase sempre um e outro escreve, comenta e me dão suas opiniões sobre a palavra “tradicionalismo”. Estou me referindo ao escotismo. Vejamos o que o diz a Wikipédia: - O tradicionalismo é um sistema filosófico que coloca a tradição como critério e regra de decisão, entendendo a tradição como o conjunto de hábitos e tendências que procuram manter uma sociedade no equilíbrio das forças que lhe deram origem.

                Até aí tudo bem. Perfeito. Mas não acredito que todos pensam assim. Como as divergências religiosas existem em torno do que Cristo disse, também o mesmo acontece com o que fez, escreveu e disse nosso fundador Baden Powell. Com quem está a verdade? O Caminho para o Sucesso? Todos se arvoram em citar normas, livros, trechos enfim uma parafernália filosófica que sempre convencem uns e outros não.

                Eu mesmo de vez em quanto me considero um desses tais. Dizem que pessoas como eu tudo sabem de tudo, e não precisam de ajuda e nem da opinião de ninguém. Somos os chamados “Donos da Verdade” por assim se julgarem. Os “Donos da Verdade” tentam sempre convencer as pessoas de que sua maneira de ver as coisas é a única verdade que existe, quando na realidade sempre existem coisas distintas, maneiras diferentes de se fazer e ver as coisas. Cada pessoa deve ter uma personalidade, uma opinião própria. Para isso, somos dotados do livre arbítrio, e sempre que encontramos pessoas assim (como eu, risos) que querem nos dominar, controlar nossa vontade devemos reagir.

                Já me disseram que o que falta para os “Donos da Verdade”, é a Humildade. Claro que vemos isso em todos os campos de atividade. Ninguém pode ser considerado absolutista. Mas para onde estou indo? Risos. Acho que acredito ou acreditava em um escotismo perfeito, não uma Xangrilá, a cidade dos sonhos, mas algum parecido. A cada dia o escotismo está mudando. Suas tradições desaparecendo, sua metodologia que BP nos deixou sendo alteradas. Afinal nossos dirigentes também não são um pouco os “Donos da Verdade”?

                Como assim? Ora se eu costumo dar meus “pitacos” no que estão fazendo e eles, os dirigentes fazem sem consultas ou experiências pré-aprovadas e muitas com sucessos duvidosos, todos nós ao seu modo não somos os “Donos da Verdade”? Afinal se temos milhares de adultos e jovens no movimento, não seria de bom alvitre que cada um tivesse o direito a uma opinião, um parecer e quem sabe discuti-lo não seria uma questão de bom senso? Sempre me disseram que pode haver uma idéia melhor que a minha, e sobre a deles não poderia também haver?

                  Como disse um amigo, se aceita tudo bem, se não, cala-te, que é o melhor que podes fazer se não reunires condições de manter tua opinião. Já vi muitos cujos argumentos pela sua falta de oratória nem foram ouvidos e outros com bons argumentos, mas que não foram aceitos. Agora ser o “Dono da Verdade” acredito que muitas vezes podemos até estar escondendo a nossa sinceridade.

                  Estamos entrando em um novo ano. Muitos já se passaram. Criticam-me porque acham que nossos dirigentes fazem o que podem. E eu fico eternamente na berlinda só mostrando aqui e ali suas performances claro que na minha humilde opinião não estão dando resultados.  Quem sabe este é um dos meus defeitos, pois me julgando “Dono da Verdade”, boicoto na minha consciência as coisas boas, e apesar de que muitos “Donos da Verdade” arrastam multidões com suas palavras eu não arrasto ninguém. Risos.

                    Mas apesar de poucos anos que ainda me restam para criticar, firmo-me no ato da oposição, do meu livre arbítrio para dizer sem nenhuma duvida que o caminho para o sucesso devia ter sido uma mudança enorme na estrutura de nossa organização. Sendo que a primeira seria a humildade, a fraternidade e um sistema mais elástico dentro dos princípios democráticos onde todos pudessem ter voz e voto. Impossível? Não sei.

                     Este comentário me veio à mente por dois motivos. Um porque viramos um ano. Agora é esperar o relatório anual e ver o progresso. Outro porque um amigo escreveu em uma foto de um Jamboree lá pelos idos de 1983, em que dizia: - Valeu à pena ter ido. Acampamento por Patrulhas separadas. Hoje acabaram com isso. Só armam barracas e vão fazer turismo. Só isso. Escotismo muito pouco... E vem aí o Jamboree! Quem vai? Meninos da tropa que conheço não vão. Sem condições de pagar.

                      É. Tudo mudou. Não vale a pena apontar as mudanças que não são muito bem aceitas pelos antigos, mas muito bem recebidas pelos novos. Muitos que agora se tornaram os “Donos da Verdade” como eu, afirmam que este é o escotismo que precisamos. Quem sabe eles tem razão? Mas meu amigo que escreveu sobre o Jamboree sabe o que diz. Muitas mudanças, muitos sorrisos de moças e rapazes e nós os velhos escoteiros saudosistas vamos desaparecer com a história do escotismo.

                      Enfim, cada um escolhe seu caminho. Lutamos por outro escotismo. Este prevaleceu. Talvez o de agora seja realmente o Caminho para o sucesso. Mas me entristece pelo menos não ver uma mudança de rumo, uma democracia plena. Mas a vozes que se levantam são poucas e acredito que todos estão satisfeitos. Encerro este comentário me lembrando da historia de Mowgly, no magnífico livro de Rudyard Kipling, (Jungle book) O Livro da Jângal:

“Lembra-te que Bagheera te ama, disse ela por fim, retirando-se num salto. No sopé da colina entreparou e gritou: Boas caçadas em teu novo caminho, senhor da Jângal! Lembra-te sempre que Bagheera te ama. Tu a ouviste murmurou Baloo. Nada mais há a dizer. Vai agora, mas antes vem a mim. Vem a mim, ó sábia rãnzinha!

- É difícil arrancar a pele, murmurou Kaa, enquanto Mowgly rompia em soluços com a cabeça junto ao coração do urso cego, que tentava lamber-lhe os pés.
- As estrelas desmaiam, concluiu o lobo Gris, de olhos erguidos para o céu. Onde me aninharei doravante? Por agora os caminhos são novos...!  

- Boa sorte para todos, ó chefe dos lobos!! Exclamou o vulto. E também boa sorte e rijos dentes para esta nobre ninhada, a fim de que jamais padeçam fome no mundo.”
Nota: Muitos dos trechos aqui citados foram copiados do magnífico artigo de Marcial Salaverrry – “Os donos da verdade”.