HOTEL ESCOTEIRO

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cada foto tem uma história

sábado, 10 de dezembro de 2011

JOGOS


JOGOS

               “Ensina-me a ser obediente ás regras do jogo.
 Ensina-me a não proferir nem receber elogio imerecido.
Ensina-me a ganhar, se me for possível.
Mas se eu não puder, acima de tudo, Ensina-me a perder!”“.
(inscrições encontradas nas paredes da Biblioteca real do
Palácio de Buckingham).

A tempos, pretendia escrever um artigo sobre jogos. Não que exista muita coisa nova neste tema, não. Apenas achei que deveria dar uma pequena ajuda aos amigos que precisam e que me leem. Assim, achei por bem, transcrever o fasciculo sobre jogos onde o velho e sua turma tem uma excelente definição sobre tudo e melhor, contada a maneira do velho.
 
Espero que agrade a todos e peço desculpas aqueles que já o leram quando do recebimento dos meus fasciculos escoteiros. 
Obrigado

Capitulo I:

Maio foi um mês frio. Pouca chuva e muita nebulosidade. Mesmo assim aceitei o convite e junto com a minha esposa fomos passar um domingo no sítio do Chefe do Grupo e qual não foi nossa surpresa, em encontrar lá, quase todos os Escotistas e dirigentes do Grupo Escoteiro.
Deveriam ser mais de 50 participantes adultos. Numero recorde, pois nas anteriores nunca tivemos uma freqüência tão boa. O mais delicioso foi descobrir o "Velho" sentado embaixo de uma aroeira, charmosa, frondosa e que tinha um magnetismo invisível de nos reunir a sua volta, mesmo em dias frios e úmidos.
Até a Vovó estava reunida com diversas outras senhoras, amigas de longa data.
O "Velho" estava loquaz e sorridente. Pudera. Ao lado dele estavam dois antigos escoteiros, grandes amigos do passado, ambos Insígnias e foram Escotistas de tropa quando ele era o Chefe do Grupo.
Um deles era Gerente de Vendas e seu ramo de máquinas para ensacamento de sacolas plásticas ia de vento em popa.
O outro estava iniciando na área de exportação e importação, apesar de ter uma firma muito antiga e que no passado recente deu excelente contribuições ao Movimento Escoteiro. Ambos beiravam os 70 anos e quando se encontravam a conversa era animada e alegre.
Aqui e ali se formavam pequenos grupos com assuntos variados. Às mulheres participavam também deste bate papo e quando necessário davam sua colaboração na cozinha, ajudando a esposa do Chefe do Grupo a “fabricar“ dentro da “tradição” uma excelente feijoada, que mais tarde seria “devorada” pôr todos.
Crianças corriam pelos morros próximos ao campo de futebol e no bosque podíamos ouvir uma grande algazarra sincronizada e harmônica, conforme a idade. Todos queimavam calorias próprias da juventude. A maioria eram filhos, netos e até bisnetos dos membros adultos do Grupo Escoteiro.   
Umas 15 pessoas se reuniam em volta do "Velho". Seus dois amigos estavam mais próximos e uma caipirinha estava nas mãos de boa maioria, exceto o "Velho" que não bebia.
Após rodar sem rumo junto a diversos amigos, fui atraído instantaneamente para baixo da Aroeira e do "Velho". Sentei-me na grama úmida e como ouvinte era um dos interessados nos temas que alternadamente se aprofundavam. A maioria só ouvia, pois o "Velho" e seus dois amigos, dominavam a conversa sem esquecer os demais a sua volta. Não era preciso ser adivinho para saber que rememoravam os tempos antigos e suas experiências do passado. A conversa era sadia e técnica. Valia à pena ouvir e raciocinar para um futuro aprendizado.
Um deles já havia tomado não sei quantas caipirinhas, mas mantinha-se sóbrio e suas palavras jorravam como se tivesse preparado para um grande numero de ouvintes num curso técnico qualquer. Ali tinham sua platéia e poderiam até serem seus alunos.
- O mais importante a compreender em relação aos jogos é que ele não constitui luxo e sim necessidade - comentava - Não é simplesmente uma coisa de que o jovem gosta, mas algo que precisa para crescer. É mais do que a parte essencial da sua educação: - É parte essencial da Lei do seu crescimento, do processo através do qual ela avança para a idade adulta.
- Gostaria de esclarecer - quem falava era o outro - que não se deve transformar o Chefe em um especialista em jogos. Nem tampouco que às atividades na sessão devem se resumir à recreação constante.
- É preciso ressaltar o valor dessas brincadeiras, cuja influencia na vida dos jovens é inegável. Também não será demais acentuar a importância numa sociedade mecanizada, em que máquinas (elevador, automóvel, etc.) favorecem o sedentarismo em detrimento da saúde.
O “Velho” ouvia a conversa e balançava a cabeça hora sim, hora não. Seu cachimbo já havia sido enchido, socado e baforado centenas de vezes. Achei que ele pensava que a condução do tema estava técnica demais para seu gosto, mas aguardava o instante para intervir. Até então, dava corda para tirar suas conclusões.
- Vejam bem, - falava o primeiro - Cada jogo deve ser apresentado de uma maneira fácil e atraente. Às formas, às Normas ou Regulamentos do jogo devem ser simples e diretas. O importante é a alegria reinante durante sua execução.
- A finalidade é proporcionar aos jovens o prazer na participação, com resultados esperados e conhecidos: - Desenvolvimento físico, saudável na mente e virtudes diversas, que alem da Lei Escoteira possam simplificar o crescimento nas áreas da iniciativa, honestidade, cooperação e cortesia, alem de qualidades de liderança e formar uma atitude de prazer em relação à atividade física que possa continuar pôr muitos anos de sua vida.  (esportes).
O outro aproveitou a deixa e pareciam estar sincronizados - continuou -:
- O que é um jogo? - posso responder tecnicamente que são formas de comportamento recreativo e que tendem a seguir um padrão, em geral formado e partilhado pôr vários indivíduos. Costumam ser atividades sociais, em que os participantes individualmente ou como membros de uma equipe, tentam, pôr habilidade e pôr sorte alcançar determinado objetivo, sujeitando-se às normas que regulamentam a brincadeira.
- Na maioria dos jogos os participantes tem adversários que ao buscarem atingir uma meta, procuram simultaneamente impedir que os demais a alcancem.
O outro replicou - Não adianta ter bons jogos se não temos bons dirigentes para coordená-los. Vou ser extenso, mas objetivo no que acho importante neste líder dirigente:
- Tratar a todos com imparcialidade;
- Procurar dar a todos uma oportunidade, zelando para que cada qual tenha a sua vez;
- Agir como membro interessado do Grupo, como bom companheiro e não como “mandão”;
- Aceitar sugestões do grupo. Saber que o jogo é uma atividade deles e que às responsabilidades devem ser compartilhadas;
- Aceitar às responsabilidades do seu encargo, não cobiçando apenas o titulo de Chefe. Saber dos seus deveres;
- Considerar que ganhar e perder são uma conseqüência das regras e não deixar que acusem um ou outro e nem ponham a culpa em ninguém se o jogo não foi da maneira esperada;
- Conhecer bem o jogo, saber suas regras e saber transmiti-las de maneira clara aos participantes (se possível discutir com os monitores e em alguns casos às patrulhas estarem preparadas e motivadas);
- Reconhecer que o jogo é diversão dos jovens e não dele;
- Não adivinhar que o jogo é bom para os jovens, mas ouvir seus anseios e fazer exatamente o que eles solicitarem. Exceto para os jogos surpresa;
- Exigir respeito e cavalheirismo no trato dos participantes. A Lei Escoteira é ponto de Honra de todos;
Alguém chamava para o almoço. O “Velho” se levantou meio sonolento. Pela sua expressão sabia que o assunto não terminaria ali. Ele concordava, mas...
Cumprimentei a Vovó que só tinha visto de longe. Após a oração de agradecimento e a velha e manjadissima canção da “Bóia envenenada” enveredamos pelos caminhos da gula.
A “feijoada” estava um “maná dos Deuses”, o que faríamos sem às mulheres, pensei. São excelentes na cozinha. Minha esposa estava me olhando. “Cruz credo” é melhor pensar que elas também são excelentes profissionais em outras áreas... (e são mesmo!).

Ficou acordado entre todos, que os jogos nas reuniões serão uma escolha da tropa, sendo que, só os considerados “Jogos surpresa” podem ser apresentados pelo Chefe ou Assistente sem prévio aviso. Cada Patrulha fará sua reunião semanalmente e apresentará sugestões.
Os monitores transmitirão entre si e aos demais às idéias de todos os escoteiros. Os escolhidos serão apresentados aos chefes da Tropa. Nenhum jogo terá a formalidade de uma atividade séria, mas jogado espontaneamente, não só pelo caráter competitivo, mas pela simplicidade de jogar e divertir!
(transcrito de uma ata de Côrte de Honra)

FINAL:

O jogo de “Deglutir alimentos” já estava chegando ao fim. Os participantes com suas bocas cansadas estavam se retirando para as áreas sombreadas e ajardinadas.
Um sol cálido apesar da tarde fria surgia inesperadamente no horizonte. O “panelão” de feijoada e os vasilhames estavam sendo lavados pôr homens e mulheres, voluntários que se ofereceram espontaneamente.
Nenhuma atitude ou assunto seria completado enquanto não terminassem a tarefa.
Poucos fumavam. Este vício tão desagradável já estava desaparecendo pôr parte dos adultos do nosso Grupo Escoteiro.
Infelizmente o “Velho” dava grandes “baforadas” e a “piteira” tinha as marcas dos seus dentes como fossem troféus adquiridos com o tempo.
Um dos antigos, o da exportação, fumava sem parar seus cigarros sem filtro. Escolhera uma bela maneira de suicídio soltando fumaça pôr todos os lados. Ainda bem que estávamos em plena liberdade ao ar livre. Aos poucos o “Velho” voltou a falar e de maneira surpreendentemente suave e conduziu no seu estilo o assunto antes comentado.
- “Jogos” - Ele pouco tinha falado e não ficaria sem dar sua opinião. Todos nós o respeitávamos e sabíamos que ele era uma autoridade no assunto. Às provas eram tantas que o resultado do seu conhecimento estavam à vista de todos. É bom quando podemos mostrar nossas idéias e que estas dão certo. Infelizmente nem todos tem esta honra, mas teimam em fazer o errado para mais tarde dizer que ouve engano.
- Tive a oportunidade alguns anos atrás - falava o “Velho” - de visitar algumas tropas, pois sempre procurei me manter atualizado com nosso Movimento. Estas visitas foram muito produtivas, principalmente para ver se o resultado do método estava dando certo.
- Se você conhece bem o Escotismo, é só olhar o funcionamento de uma sessão pôr breves instantes e já se sabe de tudo. Através dos jovens e dos Escotistas vejo sem problemas se o resultado vai ser satisfatório no futuro. Não quero parecer arrogante, mas tenho uma experiência tão antiga que não dá para esconder.
- Não vou comentar aqui outros aspectos verificados para me concentrar somente no tema desta conversa. Dou três exemplos:
- o primeiro exemplo foi visto em uma tropa de um bairro nobre, onde os jovens demonstravam ter conhecimentos intelectuais acima da média, com um ou dois monitores primeira classe e mais 4 ou 5 segundas e os demais noviços e a maioria aspirante.  
Conversando com alguns chefes (dois sem Insígnia) pude observar um Assistente dirigindo um jogo. Pomposamente formou às patrulhas, chamou os monitores (era bom de apito), deu às instruções e estes tiveram um tempo para orientar suas equipes.
- O Jogo iniciou sem muito entusiasmo, pois era complicado e cheio de regras. O Assistente parou o jogo pôr três vezes. Até que se deu pôr satisfeito. Tive a oportunidade de olhar nos seus olhos e ver a satisfação pela vitoria alcançada! - Ele tinha ganhado o jogo! - Os jovens estavam ali, parados, cansados, com ar de quem estão acostumados e muito obedientes e disciplinados.
- Em outra tropa o Chefe fez questão de mostrar um fichário muito bem feito e acabado. Um pai era o responsável para classificá-lo. Os jogos estavam perfeitamente organizados, distribuídos pôr tipo, função, objetivo etc. Tudo conforme manda o figurino.
- Perguntei quem escolhia os jogos e dava o parecer antes e depois da aplicação. Ele respondeu que era ele mesmo, pois sabia e conhecia a reação dos jovens (comentou baixinho em tom de “expert” que era professor de Educação Física e que no momento estava cursando psicologia). Participara de vários cursos de Recreação e Jogos e alardeou inclusive que fora convidado pela Equipe para dirigir e colaborar em vários cursos. Sua grande especialidade, porém eram jogos.
Era o “dono”, o sabichão. O jovem ali não se manifestava. Paciência! . Estamos cheios de tipos assim! - Prefiro nem comentar como andava o Adestramento da tropa. Pelos jogos se conhece o resto. Pobre dos rapazes.
Outras tropas foram visitadas, vi que eram todas iguais na aplicação dos jogos. A mesma rotina. A maioria sempre me explicava o porquê de algumas falhas no transcorrer da aplicação do jogo. Conheço os tipos. Sempre justificando.  Vão justificar a vida toda os fracassos e a falta de entusiasmo dos jovens. Não entenderam que eles são os próprios culpados.
- Mas vamos à tropa que gostaria de elogiar. - Quando cheguei, fiquei perplexo com tamanha confusão. Não havia apitos, chefes dirigindo, todos bem formadinhos feitos soldadinhos. A sinalização era feita com as mãos. Graças a Deus minha audição seria poupada daquela vez!
- Ali estavam eles, em dupla, pôr Patrulha três ou quatro em outro canto. Todos espalhados. Notei logo a maneira do Adestramento. A Tropa era pequena, três patrulhas no máximo 6 em cada uma. O Chefe estava alçado em um poste simples dentro da sede, junto a mais dois monitores amarrando um cabo. Ninguém olhava sinal que aquilo era comum. Mais dois monitores estavam com um Assistente recebendo instruções. Ninguém correu para me receber.
- Não deram conta da minha presença. Fiquei a vontade e percorri próximo a cada Patrulha olhando o que faziam. Era um Adestramento dos bons. Não só os monitores adestravam, mas também os demais escoteiros da Patrulha. Eu já conhecia este plano de reunião. Estava em casa.
Logo que me avistaram um deles educadamente veio me cumprimentar e se desculpou pôr não poder me dar muita atenção. Neste momento, um Monitor que se apresentou educadamente pedindo licença e dizendo ao Chefe sobre o jogo que seria realizado daí a alguns minutos. Apesar de combinado previamente (havia programa!) a maioria gostaria de fazer o jogo do mês anterior. O que o Chefe achava? - Ele concordou de imediato e pediu ao Monitor que preparasse o material.
Bem acho que vocês não precisam saber qual das tropas está fazendo o certo. Pena que não pude filmar os olhos, a feição e a alegria reinante antes, durante e depois do jogo. Aquilo sim era diversão.
O “Velho” parou de falar, pois um “zunzum” percorria a todos em sua volta. Um dos amigos dele estava desafiando a todos os que tivessem mais de 60 anos para uma corrida de obstáculos (corrida do ovo). O “Velho” nem pestanejou. Sempre que se encontravam faziam aquele mesmo jogo. Fui escolhido para ser o juiz.
Eram 10 obstáculos diferentes. Cada um teria às duas mãos atadas as costas e tinham que manter dois ovos crus dentro da boca! - Dei o sinal de partida. Um “barato” - Ver o “Velho” correr como tartaruga valeu todo o dia. Eram uns 8 no jogo. A torcida logo correu para gritar e movimentar o jogo.
Ganhou a corrida um membro da Executiva. Vários tiveram os ovos espatifados dentro da boca. O “Velho” foi o último a chegar, mas chegou com os dois ovos intactos.
O assunto do jogo desapareceu e vieram outros. Na rodinha a conversa estava animada. Sentimos falta do “Velho” e de seus dois amigos.
Encontramos os três. Roncando a sono solto debaixo da aroeira!

                                      O PATA TENRA...

“Procure desenvolver nas crianças qualidades de liderança. Pretende-se
que, nas horas vagas, eles saibam brincar sozinhos, portanto propicie-lhes a prática da direção das próprias atividades”.