HOTEL ESCOTEIRO

HOTEL ESCOTEIRO
cada foto tem uma história

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

CONVERSA AO PÉ DO FOGO - TERCEIRA


O abutre Chill conduz a noite incerta
E que o morcego Mang ora liberta -
É esta a hora em que adormece o gado,
Pelo aprisco fechado.
É esta a hora do orgulho e da força
Unha ferina, aguda garra.
Ouve-se o grito: Boa caça aquele
Que a Lei d Jângal se agarra”.

Canto noturno da Jângal.
KIPLING.

Conversa ao pé do fogo – Terceira
Lobo! Lobo! Lobo!

Em meus artigos, faço poucos comentários sobre atividades e programas de alcatéias. Claro, nada é fácil no escotismo e programar, dividir e acompanhar uma Alcatéia não é tarefa que pode ser feita por qualquer um.

Tenho poucas lembranças quando fui lobinho, lá pelos idos de 1947/50. Minha mente sempre aguçada como diz um amigo meu, já está falhando.

Mesmo assim tive o prazer de rememorar muitas coisas, pois fui durante 14 meses Baloo e posteriormente Akelá. Na década de 80, colaborei como Chefe de Grupo em um estado brasileiro por mais de 10 anos. Ali tínhamos duas alcatéias masculinas e uma feminina. Cada uma com pelo menos 4 dirigentes.

Também participei e dirigi diversos cursos de Alcatéia e aprendi bastante com a equipe e os alunos. Não tanto como vocês que hoje estão atuando em linha de frente.

Qualquer escotista de alcatéia sabe quando tudo vai bem se a lista de espera de candidatos é boa. Lista de espera? (todo grupo escoteiro bem estruturado tem uma lista de espera de candidatos - a entrada no primeiro dia de procura é um erro) – claro, a procura mostra que existem interessados e que a saída é pouca. Se isto não acontece, alguma coisa está errada.

Não é difícil fazer um bom programa de alcatéia. (Antigamente você tinha alguns fatos - que ainda persistem - e por si só preenchiam e devem preencher bons programas mensais).

Comecemos pela Gruta da Alcatéia. Todos devem ter uma em sua sede. Não importa o tamanho, importa sim uma boa decoração, onde cenas da jângal são retratadas e quem sabe com uma entrada rebaixada, obrigando os adultos a se abaixar, o contrário dos lobos que entram de cabeça erguida.

A história da Alcatéia é ali contada. Nela a um lugar de destaque para o Bastão Totem. Todos também devem ter um.

Os lobinhos devem conhecer bem os dirigentes da alcatéia:

Akelá – Lobo cinzento, forte, altaneiro. Lobo solitário, não constituiu família para dedicar-se inteiramente à sua função de líder. Lidera por ser o mais capaz, forte astuto. É imparcial, faz valer predominantemente as leis da Jângal têm em primeiro e único objetivo o bem estar da coletividade do qual é chefe.

Baloo – Urso pardo, pesado e grandalhão, é inofensivo, pois se alimenta somente de frutos e raízes. Sábio, ponderado, afetivo, bondoso, mas violento quando necessário. Dotado de bom humor, Baloo é a expressão de maturidade combinada com um frescor infantil.

Bagheera – Pantera negra, bonita, olhos vivos e pelagem de seda. A sua voz é doce e delicada. Astuta, intrépida, incansável, corajosa, afetiva, tinha a característica de ter nascido entre os homens, tinha a vivência de conhecê-los (o que Mowgli não tinha) e a experiência de viver entre outro povo, assim podia entender melhor Mowgli. Opõe-se a Baloo, no que ele vence pela experiência e ela pela rapidez e astúcia, Baloo é pesadão, desajeitado, ela ágil e delicada.

Tabaqui – É o Chacal, o fraco que precisa ter a proteção do forte e por isso paga o preço de se rastejar ao seu lado numa constante adulação, lisonja e é interesseiro, muda de alvo conforme estão seus interesses ou à medida que corre perigo, não se preocupando em abraçar partidos por vezes antagônicos. Embora medroso, arrisca-se inutilmente a pequenas provocações e as faz somente, pois sabe que apesar de irritantes não são suficientes para grandes reações.

Shere-Khan – Tigre manco. Aparentemente feroz, mas na verdade é covarde, não caça eticamente, prefere atacar presas fáceis mesmo que pequenos e insuficientes para matar sua fome. É vaidoso, porém não tem de que se orgulhar é nulo, exemplar deficiente de sua espécie.

Raksha – Loba valente, jovem e vigorosa. Encarna a figura da mãe e todo o romantismo que ela encerra, combina a doçura com a força, é caçadora invejável, mas limita-se a proteger sua prole.

Pai Lobo – Lobo jovem e vigoroso, temperamento bom, justo e ponderado, preocupado na defesa de sua prole e do bem estar da comunidade.

Manter viva a mística é parte importante na condução de alcatéia. As histórias da Roca do Conselho, as canções, as danças, os jogos, o adestramento, a disciplina (não considerar matilhas como patrulhas e sim como um aprendizado para a organização de aprender a viver em equipe).

Se você faz isto e mais em sua alcatéia, parabéns se sabe dividir suas tarefas com seus assistentes ótimo. E por último, seja o exemplo, seja no seu uniforme seja na vida pessoal.

Aguardem um artigo de programas de alcatéia. Não vai demorar muito. Pena que muitos irão discordar. Paciência! Mas acho que pelos menos uns poucos irão gostar.
Nota – A pesquisa para este artigo retirado em um manual da UEB/MG

Boa caçada!

“AS ESTRELAS DESMAIAM, CONCLUIU O LOBO GRIS, DE OLHOS ERGUIDOS PARA O CÉU. ONDE ME ANINHAREI AMANHÃ ? PORQUE DORA EM DIANTE OS CAMINHOS SÃO NOVOS....”

Do livro da Jângal


Confiar ou não confiar

Tenho comentado muito sobre o sistema de patrulhas. Bato na tecla sempre porque acho que ele é parte importante no nosso crescimento e manutenção do jovem e da jovem no escotismo.

Tenho visto tropas com 12, 16 e no máximo 20 rapazes e algumas jovens, muitos deles ainda noviços, sem promessa. Se for tropas com mais de 2 anos de fundação alguma coisa está errada. Seria melhor se fossem tropas separadas mas isto acontece nos grupos que ainda não tem boa arregimentação de adultos e para facilitar, fazem o escotismo misto.

Infelizmente não tenho visto em muitas destas tropas atividades mateiras. Está lá sempre o escotista responsável, construindo, fazendo tudo contrário as nossas máximas, e a principal delas, aprender a fazer fazendo.

Fazendo um pequeno parágrafo, os bons escotistas sabem que os heróis são os jovens e não ele. Qualquer adulto tem a obrigação de saber mais que seus escoteiros e não precisa ficar mostrando como fazer pois este não é o adestramento escoteiro. Ele está ali para ajudar e colaborar com o crescimento dos jovens.

A preocupação com Sistema de Patrulhas deve ser a Tonica de qualquer escotista de tropa. Seja ela de escoteiros ou sênior. Acrescento e repito que muitos ainda permanecem com um uniforme que não é uniforme. Vejo calças curtas azuis, com meias comuns, brancas, pretas e uma infinidade de cores. Sem contar com o indefectível chapéu que ele inventou para si mesmo. Seus escoteiros terão o chefe como exemplo e farão o está fazendo.

Claro, repito sempre o já dito em artigos aqui escritos, que primeiro é preciso ensinar a pescar. Tentar se explicar que hoje os tempos são outros, os pais dificultam, a sociedade não aceita, nada explica e só faz que este Grupo não avance na formação que se deseja no movimento escoteiro.

Como será que a sociedade local encara isto? Afinal somos ou não um movimento uniformizado?

Alguns artigos que escrevi, analisam bem tal situação – Sistema de Patrulhas, Programa de Reuniões, A Patrulha de Monitores, uniforme etc. Convido a você que me lê e se for chefe de seção a dar uma olhada e dizer a si mesmo se faz ou não sentido o que ali está escrito.

Vou contar uma pequena historia que não tem nada a ver com o objetivo do artigo. Talvez para mostrar que uma patrulha pode e vai encontrar muitas peripécias em suas atividades. Isto faz parte do seu crescimento.

 A muitos e muitos anos atrás, fui promovido a sub.monitor. Foi um dia especial na minha vida escoteira. A Patrulha já confiava em mim. Já fazíamos a tempos acampamentos de tropa e de patrulha conforme decisões do Conselho de Patrulha e da Corte de Honra.

No dia posterior a promoção, fizemos um acampamento, que não desejo para ninguém. Só a patrulha (com autorização é claro da Corte de Honra). Iríamos explorar uma região nova, onde ainda não tínhamos ido, e por informações de um amigo do nosso chefe, dizia ter uma bela cascata, com muitos coqueiros e muitas árvores e muitos bambus, e que o dono do terreno mantinha a terra em completo abandono. O mesmo morava na capital e pouco ia até lá.

Não havia mapas e só pela informação do chefe lá fomos nós em um sábado pela manhã, e não foi difícil de chegar. Foram mais de 9 quilômetros percorridos e logo avistamos o local designado. Era lindo. Um córrego de águas claras com uma bela de uma cascata, um local gramado, muitos coqueiros anões e uma plantação antiga de bambuzinhos chinês (usado para pesca e excelente para pioneirias).

Deixo de comentar o desenrolar o acampamento, pois na minha concepção foi dentro dos padrões esperados sem muitas surpresas.

O que nos chocou foi o retorno. E como chocou. Achávamos que se virássemos um morro a oeste do campo, iríamos chegar tranquilamente a estrada de ferro e Dalí seria um pulo até a sede escoteira evitando com isto a volta de mais de 9 quilômetros.

Posto em discussão pelo monitor aprovamos e partimos (levávamos sempre o material de sapa, cozinha e individual as costas, já estávamos acostumados).

Ao chegar bem próximo a virada do morro, avistamos o que devia ser uma saleira rústica para gado. Havia sombra. Ótimo. Lá descansaríamos, pois o sol estava a pino.

Puro engano. O que vimos foi de assustar qualquer um. Amarrado pelos braços a uma viga e pelas pernas a outra, um homem nu, morto ali estava esticado e pendurado como se fosse uma rede e com uma faca entre as virilhas. O cheiro ficou em minhas narinas por muitos meses. Gritamos de susto e nos afastamos logo.

Foi uma visão que nunca mais esqueceria. Durante muitos meses evitei lugares escuros, ermos e até os nossos acampamentos mensais foram reduzidos. Ainda bem que deu certo a idéia de atravessar o morro. Logo avistamos a linha férrea. Não deu certo o que não esperávamos, aquela visão horrível.

Fomos direto a casa do Chefe do Grupo. Ele, um militar, foi com dois de nós até a delegacia. Explicado o fato tivemos que mostrar onde estava o acontecido.

Acho que serviu de aprendizado do mundo em que vivemos. Não guardo boas lembranças deste acampamento. Mas serviu e muito no amadurecimento de todos.

Que cada escotista analise bem se está ou não aplicando o sistema de patrulhas. Repito o que disse acima no artigo da alcatéia. Se existe uma lista de espera, é porque poucos estão abandonando a tropa. Se não existe, é porque um grande numero de jovens estão saindo da tropa. É este o seu caso?

Mas quero lembrar que pelo sim ou pelo não, nossos escotistas de hoje são valorosos, entusiastas e cheios de esperanças e graças a eles ainda temos muitos jovens sorrindo e cantando em vários rincões do Brasil.



Pausa para meditação

"A sabedoria não vem automaticamente com a idade. Nada vem - exceto rugas. É verdade, alguns vinhos melhoram com o tempo, mas apenas se as uvas eram boas em primeiro lugar."
(Abigail Van Buren)

Recebo diversos email de escotistas de vários estados brasileiros, perguntando e fazendo comentários sobre suas seções, seus grupos, alguns até insatisfeitos com a UEB. Outros não. Não vêem problemas e o horizonte é azul.

As razões em alguns casos existem. Outras não. Vejamos:

Crescimento – Nulo, não crescemos, o próprio relatório da UEB mostra que em 10 anos, caímos de 68 mil membros para 60 mil.

Estados – A maioria dos estados brasileiros também tiveram seu efetivo reduzido. Alguns muito poucos cresceram.

Efetivo – Uma nota interessante é que no ano de 2009 (ultimo relatório) tivemos registrado 45.000 mil jovens registrados e 15.000 adultos. Uma excelente proporção de 3 membros juvenis para 1 adulto. Quem sabe isto deve ter bons resultados neste ano de 2010.

Diversos – O relatório diz que 511 cidades brasileiras foram beneficiadas pelo escotismo. Quase nada em comparação com o total de cidades que temos no Brasil. Foram aplicados 236 cursos, pelo tamanho do território, considerando estados maiores e menores, a media não é satisfatória. Não foi fornecido o numero de IM.

Isentos – Um fato muito importante foi que mais de 6.900 membros foram considerados isentos, ou seja, não pagaram a taxa anual. Isto representa mais de 10% do efetivo total de 2009. Aqueles que reclamam da taxa podem ver que é um número considerável. Acho que não foi maior porque muitos ainda não sabem ou não procuram se informar a respeito.

Grupos Escoteiros – Aqui fiquei preocupado. Ainda não tinha nenhuma visão a respeito. De 1069 Grupos em 2001 tivemos uma pequena queda em 2009. Foram 1049 grupos registrados. Acho que aí tem muita coisa errada. Se pensarmos que um mínimo de 30 grupos Escoteiros por anos pedem autorização provisória e considerando os últimos 9 anos (analisando só este período) e o numero praticamente se manteve considero um fato alarmante.

 O turnover (rotatividade) para ser explicado precisava ser feito com uma pesquisa séria por parte das regiões. Acho que seria por aí que poderíamos estancar esta sangria anual do movimento escoteiro no Brasil.

Acredito que a UEB deve ter algum estudo a respeito. Manter durante 10 anos o mesmo numero de grupos com uma boa quantidade de pedidos de autorização provisória, significa que pelo menos 30 fecham por ano. O porquê, como quando e onde, só mesmo com nossas autoridades escoteiras nacionais e regionais tentar ver onde está o erro.

A saída de jovens e adultos já era fato, mas fechamento de grupos não.
Espanta é que antes da efetivação do movimento feminino na década de 80 o numero não era tão inferior ao atual.
Afinal se com a entrada das jovens (a UEB não mostra em seu relatório) o efetivo permaneceu o mesmo, significa que uma grande parte saiu do movimento. Porque será? Porque o elemento masculino não permaneceu e sim diminuiu em todos estes anos?

Existem muitas outras situações que mereciam um comentário. Deixo de fazê-lo. Como diz um amigo meu é fácil criticar, difícil de realizar. Mas a prepotência do passado em não aceitar sugestões, em se considerarem únicos, e olhe que nos últimos 20 anos houve mudanças e mudanças nas lideranças nacionais, vejo com calma e sapiência que a evolução dos acontecimentos não foi satisfatória.



Já disse e repito não me cobrem por estar criticando. Acho que assim quem sabe posso estar ajudando. Quando tentei mostrar uma realidade no passado, recusaram. Abrir os olhos de muitos para que no futuro possam participar mais efetivamente nos destinos do escotismo no Brasil e não só isolados em seu Grupo Escoteiro talvez fosse um ponto de partida para o nosso crescimento. E claro, que se adestrando melhor, lendo mais a nossa literatura escoteira no Brasil pode trazer dividendos e muito.

O pior e achar que tudo vai bem obrigado. Nada a declarar. Eu faço a minha parte os outros que façam a deles. É isto mesmo?

Ainda não sei a solução ideal, mas tem muitos como eu que se preocupam com o assunto. A manifestação por parte das autoridades escoteiras deveria ser ponto de honra para todos.

O que não pode é ter um ou outro “salvador da pátria” que a sua maneira dirige e resolve mudanças que até hoje não deram certo.

Vamos aguardar mais 10 anos. Acho que boa vontade da nova direção não falta. Quem sabe vamos ter boas surpresas.
Não confunda jamais conhecimento com sabedoria. Um o ajuda a ganhar a vida; o outro a construir uma vida.
Sandra Carey