HOTEL ESCOTEIRO

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cada foto tem uma história

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

REUNIÕES DE TROPA - INESQUECÍVEIS


“‘Quero que vocês, monitores, entrem em ação e adestrem suas patrulhas inteiramente sozinhos e à sua moda, porque para vocês é perfeitamente possível pegar cada rapaz da Patrulha e fazer dele um bom camarada, um verdadeiro homem. De nada vale ter um ou dois rapazes admiráveis e o resto não prestando nada. Vocês devem procurar fazê-lo todos positivamente bons.
...Para conseguir isso a coisa mais importante é o próprio exemplo, porque, o que vocês fizerem os seus Escoteiros também o farão.
...Mostrem a todos eles que vocês sabem obedecer às ordens dadas, sejam elas ordens verbais, ou sejam regras que estejam escritas ou impressas e que vocês cumprem ordens, esteja ou não o chefe presente. Mostrem que conseguem conquistar distintivos de especialidades, e, com um pouco de persuasão, os seus rapazes seguirão o seu exemplo.
...Mas lembrem-se que vocês devem guiá-los e não empurrá-los”.

BADEN POWELL

Reuniões de Tropa – Inesquecíveis

Outro dia estava eu em clima de passado, ouvindo uma musica suave, dormitando no meio da tarde quando veio a memória algumas reuniões especiais, que participei a muitos e muitos anos atrás quando ainda escoteiro.

Lembrava que as reuniões normais, com seu conteúdo discutido e aprovado pelas patrulhas e em Corte de Honra, nada mais era que:

- Formatura – bandeira – oração – inspeção e jogo quebra gelo.
- Atividade de patrulha de adestramento (conduzida pelo monitor e sub)
- Atividades de tropa de adestramento ou de outro tópico.
- Outro jogo podendo ser com a outra tropa ou não.
- Conversa de monitores com a chefia para avisos, programações de atividades,   
   e um assistente ficava conosco para um adestramento qualquer.
- Participação com a patrulha da reunião de monitores com o chefe
- Outro jogo (escolhido por nós e preparado por um monitor)
- Encerramento com – Inspeção – avisos – oração e bandeira.

(no inicio e no final, sempre nos reuníamos durante uns 10 ou 15 m para assuntos pendentes ou preparação futura de alguma atividade – nunca ultrapassa duas horas e meia).

Sempre uma rotina, mas ainda bem que tínhamos muitas atividades ao ar livre, Pelo menos 3 acampamentos por ano, um ou dois bivaques, uma ou duas excursões a pé ou de bicicleta, uma carta prego diferente (duas por ano), fora o acampamento de grupo feito sempre em alguma cidade vizinha ou não, com outro grupo escoteiro.     

Saindo da rotina, havia reuniões especiais que podiam ser uma por mês ou mesmo uma a cada dois meses. Nada de muito espetacular é claro, pois acredito que hoje outras como estas que aqui anotei, devem ser feitas pelos escotistas de diversos Grupos Escoteiros no Brasil e superam em muito aquela nostalgia e sapiência das atividades do passado.

Conheço inclusive algumas tropas que realizam excelentes reuniões e com grande brilhantismo conduzem bem as atividades e que a cada três meses durante a reunião de chefia para avaliações, verificam que a evasão é pouquíssima.

Mas aqui vai a narração de algumas reuniões especiais que participei e quem sabe podem dar uma nova visão a algum escotista novo na tropa e que ainda não as tenha feito. Vamos lá.

- A chegada à sede era sempre antes das 14 hs. O início 14:30 hs. No portão do pátio vários amigos que como eu chegavam cedo. Não podíamos entrar. Havia um aviso para esperar o chefe. Sabíamos que seria uma reunião especial surpresa. Muitas já tinham acontecido. Algumas excelentes outras nem tanto. Mas fugia um pouco das outras programadas pelas patrulhas.

O chefe chegou com quatro jovens que logo vimos terem problemas visuais. Disse que eles participariam da reunião naquele dia e nada melhor que toda a tropa ficasse igual a eles par evitar constrangimentos. Pediu que amarrássemos bem o lenço nos olhos, para não cair, pois toda a reunião (duração de duas horas e meia) seria com os olhos vendados.

E assim foi, ficamos também sem visão, o portão foi aberto, aos trancos e barrancos alcançamos nosso local onde à patrulha se reunia. Ali recebemos do chefe a apresentação de um dos jovens deficientes que incorporaria a patrulha. Ele seria nosso guia. E como agiu. Foi formidável. As demais patrulhas também tiveram o mesmo auxílio.

Foi uma reunião muito boa. Muitos tombos e aprender a depender um do outro. Andar sempre com as mãos nos ombros, definir vozes, ser levado por alguém ao banheiro. Fazer nós, jogar bola só com as mãos, hastear e arriar a bandeira na cerimônia de abertura e encerramento. Ter a audição bem alerta para definir os chamados dos monitores e da chamada geral (para quem via, devia ser uma esplêndida diversão).

Os jovens deficientes se sobressaíram e nos ajudaram em tudo. Eram sempre os primeiros e davam grandes risadas quando caíamos. E como caímos.

Fomos adestrados em tipóia, uso do bastão com camisas para construir macas e finalmente um jogo de transporte, onde teríamos que dar a volta no mastro da bandeira, levando um escoteiro e voltando. (revezamento com todos).

Olhe não digo que foi fácil e simples, não foi. Mas foi uma reunião diferente. Valeu. Inclusive ao término tivemos problemas quando tiramos a venda, mas logo resolvido. Os jovens deficientes agradeceram e o chefe prometeu levá-los em um acampamento proximamente.

Era comum ser escolhida uma praça da cidade e um sábado a cada dois meses nossas reuniões eram ali realizadas. Uma boa oportunidade para o público conhecer mais de perto o que fazíamos. Os jovens da região sempre procurando a chefia pedindo para participar. Os chefes deixavam. Eram colocados nas patrulhas e neste dia tinham algumas com 12 ate 15 participantes. Ao final da reunião, eles recebiam instruções caso quisessem participar do grupo. Mas sempre com o aviso que as vagas no momento estavam fechadas.

Algumas vezes íamos ao centro comercial (não existiam shopping ainda) ficamos ali “bandeando” durante um determinado tempo, mas sabíamos que o Kim era o objetivo (jogo do Kim muito conhecido). Ali estávamos exercitando o sentido da visão, do olfato, da audição, da fala e do tato. Sabíamos por experiência que no retorno tudo isto seria exigido e um relatório seria apresentado.  

 Era muito comum andarmos no quarteirão com uma corda de mais ou menos 20 metros, e ela devia ficar parada. A patrulha andava até o inicio da corda e o ultimo ia à frente puxando a mesma. Ficamos no final da Corda e começávamos tudo de novo. Gastávamos mais de hora e meia para chegar ao ponto de reunião. Era divertido, pois as pessoas aglomeravam em torno e davam belas risadas e sempre nos incentivando.

Uma atividade que marcou época foi a da reunião na teia da aranha. O chefe produziu com sisal, uma teia de aranha (já conhecida acredito) por todo o pátio. Não podíamos andar a não ser com uma das mãos segura no sisal (sem venda nos olhos como comumente é feito com a Teia de Aranha). Assim para formar a patrulha, ir para nosso canto, ir para o cerimonial entre outros, tínhamos que programar entre nós como fazer naquele labirinto.

As atividades programadas nem sempre conhecidas eram um sacrifício. Claro que o tempo poderia ser aumentado ou reduzido. Em várias delas gastávamos muito tempo para atingir o objetivo. Não era fácil. Divertido era o jogo de futebol por 20 minutos. Correr atrás da bola, defender do adversário, tudo através da teia era um sufoco.

Já tentaram fazer um adestramento e depois um jogo de base sem saber onde está à base seguinte? , fizemos várias vezes e era diversão garantida. Pode-se modificar de várias maneiras.

Uma reunião que deixava marcas no corpo, na cabeça e em nossa mente, era aquela que os chefes colocavam diversos obstáculos na sede e à medida que se desenvolvia a reunião, a patrulha e nos individualmente tínhamos de saltar (até 50 cms de altura), passar por baixo e levar a sério a máxima – Nunca passe por cima, quando pode passar por baixo, nunca passe por baixo quando pode passar de lado e nunca passe de lado quando você não precisa passar!

Levávamos muito a sério as máximas ensinadas pela chefia. Muitas delas nos ajudavam muito, seja na semana que tínhamos a rotina da casa e da escola, seja em reuniões ou atividades extra sede. Vejamos algumas:

Para previsão de tempo observe – Vermelho ao sol por, delicia do pastor – Orvalho de madrugada, faz cantar a passarada – Nuvens baixas cor de cobre é temporal que se descobre – Se tens vento e depois água, deixe andar que não faz mágoa, mas se tiver água e depois vento põem-te em guarda e toma tento!  Era “batata”! Não havia erro para prevenir da chuva.

Tínhamos sempre tudo escrito pelo nosso escriba, em livro próprio estas máximas e outras interessantes tais como – Se vais para o mar avia-te em terra. Não esqueças nunca – bússola - caixa de primeiros socorros – sal (quantas vezes esquecemos?) -

Enfim, seria até desnecessário, comentar outras atividades ou reuniões especiais realizadas por nós. Nos livros de 100 idéias para isto ou aquilo, tem excelentes sugestões que se desenvolvidas dão boas reuniões normais ou especiais.

Tenho guardado comigo, um pequeno poema, escrito por um jovem escoteiro, (Pedrinho – hoje com a minha idade) que escreveu em um acampamento quando adulto (convidávamos os antigos escoteiros para um acampamento no máximo quatro de cada vez)

Saudades...

- Ainda me lembro, daqueles tempos,
Da minha patrulha dos acampamentos
Que saudades dos companheiros
Bons amigos bons escoteiros,
Viver a vida que Deus me deu.

Eu era menino, de calças curtas,
Com minha patrulha pelos campos afora
Como era bela a minha infância
Que saudades em sinto agora
Daqueles tempos de outrora...

Pelos campos, pelas campinas
Pelas matas pelas colinas
Eu vivia sempre cantando,
Em reuniões ou acampando
Vivendo a vida como ela é.

Você que me lê, escute bem
Faça assim como eu também.
Vá divertir-se o ano inteiro
Participando com os escoteiros
E irás sentir o que eu já senti.

E quando chegar, na minha idade
Irás sentir com muita saudade
Daqueles dias, daqueles tempos
De bom escotismo de acampamentos
E serás alegre assim como eu.

E vais tirar o chapéu, a quem já foi escoteiro
Aqueles que já tiveram a vida de um bom mateiro
Não adianta negar nem discutir nem brigar
Pois quem já foi escoteiro vai concordar.
(mais tarde transformada em canção pelo ch. Jessé)

Até uma próxima!

O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...