HOTEL ESCOTEIRO

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cada foto tem uma história

sábado, 10 de dezembro de 2011

SESSÕES MISTAS - Fasc. 046


Seções mistas – fasc. 001

Desejo ardentemente que tenhas uma vida longa e feliz como a minha. Poderás com isto conseguir conservar com saúde e alegria a fim de poderes auxiliar os outros. Vou dizer-te o meu segredo e tenho certeza que com o conhecimento dele serás como eu: tenho sempre me esforçado para cumprir a Promessa e a Lei Escoteira em todos os atos de minha vida. Se fizeres o possível para obteres sucesso na vida, assim procedendo, futuramente terás muita alegria, se viveres 80 anos.
Agora te peço para repetires intimamente comigo a Promessa Escoteira, não como um papagaio, mas como coração, e pensando:
Meia saudação e sussurrando comigo:
Prometo pela minha honra cumprir meu dever para com Deus e minha Pátria. Ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião. Obedecer a Lei do Escoteiro.
Muito obrigado. De coração te desejo uma longa vida e feliz existência, bem como um grande número de Bons Acampamentos.
(Ass.)
Baden Powell.


A TODOS AQUELES QUE MESMO DISCORDANDO, SE MANTIVERAM LEAL AO SEU ESCOTISMO DE ORIGEM

Não há como esquecer, afinal foi um dia marcante em que conheci a figura que se tornou com o tempo, meu ídolo, meu amigo meu chefe e depois de meu pai, o homem que mais admirei na vida.

            Era um dia como outro qualquer, não sei qual dia, mas era no meio da semana, e estava chegando a minha casa após minha jornada de trabalho. Isto aconteceu há nove anos. Encostei meu veículo para abrir o portão da garagem e quando estava saindo levei uma “bolada” na testa caindo momentaneamente desacordado no meio da rua.


         Acordei sentindo uma dor pequena na cabeça e senti gotas de sangue escorrendo. Um senhor de idade, magro, ali pelos 74 anos, cabelos brancos, caindo na testa, olhos azuis me olhando com preocupação, veio me ajudar e vi que tinha aplicado uma massagem no peito para que eu voltasse a si mais rápido,

           Quando voltei a mim totalmente, ele me perguntou como estava e rindo disse que eu era um moleza, se tivesse sido escoteiro aquilo não tinha acontecido, pois estaria “Sempre Alerta!”. Não entendi bem, mas com o número de vizinhos se aproximando e alguns queriam que eu fosse até um pronto socorro para ver a pancada com um tratamento adequado, fiquei preocupado.

          Levantei, agradeci ao “Velho”, mas ele fez questão de me acompanhar  e pegando minha chave abrindo o portão e fez questão de manobrar o carro até a garagem. Após, abriu a porta da minha casa, me mandou entrar, me mandou sentar na poltrona, foi até a cozinha, pegou um pano com álcool, passou em minha nuca, e mandou que o resto do dia ficasse em repouso. Nem sequer me consultou nada. (Dava a aparência que era o dono da casa). Foi entrando, foi mandando, foi resolvendo, ou seja, com o tempo, sabia que era próprio dele.

          Agradeci por tudo e disse que minha noiva chegaria Dalí há algum tempo e ele não precisaria se preocupar. (nos casaríamos no mês seguinte) Disse algum com hum! Hum, pegou na minha mão com a esquerda e se foi.

           No dia seguinte, ao chegar de novo em minha casa, lá estava à figura a minha espera. Cumprimentei, conversamos, queria saber como estava, disse que bem, e ele se convidou a entrar. Era uma figura simpática, amiga, mas não me sentia bem, pois sua idade, sua maneira me eram completamente estranha.

          Depois de conversarmos algum tempo, ele disse que sábado as 10 h, viria me buscar para levar a uma visita aos escoteiros do bairro. Não perguntou se aceitava, não perguntou nada. Era como se estivesse me dando ordens. Como não tinha entendido bem, e para me ver livre dele, disse que sim e obrigado. E foi assim, que comecei a conhecer participar e amar o movimento Escoteiro.

           No sábado estava eu vendo, pensando e analisando o que seria tudo aquilo que nunca tinha visto. Jovens, adultos, uniformizados, brincando de gente grande, falando de honestidade, de lei e promessa lindos sorrisos, não havia tristeza e pensei que o ambiente era novo para mim, pois desde cedo fiquei sem meus pais e praticamente morei sozinho toda a minha vida. Ao final daquela reunião me levou a sua casa, onde conheci a Vovó (uma senhora super simpática), da qual com o tempo também me despertou profunda admiração. Pela primeira vez, comi bolinhos de milho, e pão do caçador feito de uma maneira que era um manjar dos deuses.

              O tempo foi passando, meu adestramento progressivo com a ajuda do “Velho”, e do ch. Do Grupo, (ninguém pediu, mas eu me interessei em participar) foi feito com calma e em pouco tempo (dois anos), já me achava um “papa” nos conhecimentos escoteiros. Mas o “Velho” fez questão de me mostrar o caminho certo. Até hoje e a cada dia, considero que meu aprendizado ainda não foi completo (já se passaram nove anos). Sou um simples assistente da tropa escoteira, apesar de já ser Insígnia de Madeira.

            Durante estes anos, aprendi a visitá-lo sempre. Tornei-me seu amigo, conheci suas manias, maneiras e peculiaridades que poucos conheciam. Agora, ele com mais de 83 anos, ainda demonstrava ser o meu herói, meu professor, meu consultor e meu chefe. Tinha um conhecimento esplêndido do movimento escoteiro. Sabia o que dizia, pois me explicava que passou por tudo aquilo e tinha exemplos pessoais para que pudesse discutir de uma maneira mais sincera, os meandros do escotismo.

           Hoje tenho em minha casa, uma biblioteca com mais de 100 de livros escoteiros, jogos, psicologia infantil para leigos, muitos de outros países e que me servem de consulta sempre. Participei de diversos cursos, fiz estagio em varias tropas, e pretendo até o fim do ano, participar de um avançado de chefe de grupo.



          Mas chega de “calengas”, como dizem os nativos de um estado brasileiro. Hoje, domingo, saí com minha esposa, fomos almoçar fora, e chegamos a minha casa lá pelas 16 h, ela foi tirar um cochilo e eu, sabe onde fui? Para a casa do “Velho” claro
          No domingo anterior, vindo da casa dos pais da minha esposa, vi algumas patrulhas andando pela calçada, rindo, conversando e como sempre alguns com os uniformes mal colocados, descoloridos, moças e rapazes dos seus 11, 12 a 14 anos, com um Chefe Escoteiro carrancudo, atrás, a dirigir o caminho a seguir.

        Considerando os exemplos do Grupo que prestava a minha colaboração, achava que a coeducação estava tendo os objetivos propostos. Cada seção tinha um chefe e dois ou três assistentes. Tínhamos conseguido uma Chefe após três anos na seção escoteira feminina, já tinha também recebido a Insígnia. Graças a Deus, que o Grupo não tinha problema de falta de escotistas. Tínhamos até demais.

            E foi por aí que o “Velho” iniciou uma conversa muito proveitosa. Dizia que quando a UEB instituiu a coeducação, as autorizações não eram fornecidas de maneira simples. Vários requisitos eram solicitados.

           Olhe, dizia o “Velho”, nós somos campeões em experiências. Tivemos sempre grandes dirigentes que idealizaram e colocaram em praticas diversas situações e que hoje não estão mais na ativa. Infelizmente somos um movimento móvel, e que dependendo do local onde mora o líder escolhido, também vai junto as sede regional ou nacional. Sem criticas, mas soube que..., é melhor não comentar.

          Veja bem, tenho visto muitos Grupos Escoteiros que estão utilizando tropas e alcatéias mistas, sem terem a mínima condição para isto. Os meninos e as meninas quando fora do escotismo e em seus bairros, fazem atividades próprias, cada um com seu programa escolhido por eles. No escotismo não. Por não ter um numero de chefia razoável, juntam rapazes e moças, colocando quase sempre um escotista com maior conhecimento ou com nenhum, a dirigir a seção.

          Quando você pergunta, ele responde, temos uma tropa mista. Excelente. Faço idéia como será o futuro. Enquanto durar o namorico, e o pequeno interesse, eles ficam, depois, tchau. Mais um a ingressar na evasão escoteira.  Isto sem considerar que os pais, quando tem formação educacional, não sabem o que se pretende ou aonde quer chegar tais atividades juntas.

           Olhe, eu e você que conhecemos bem o sistema de patrulhas, sabemos que cada menino ou menina, se tivessem atividades diferentes e no fundo conhecesse uma boa tropa como exemplo não ficaria como está agora. Aquela do sou um herói, subo em árvores, pulo nos penhasco, faço travessias e grandes pioneirias nos topos das árvores, faço caminhadas noturnas só com a patrulha, enfim uma dezena de atividades esperadas por eles e que se bem ponderadas não seria condizente para uma tropa mista. Discorda? Claro, você conhece o sistema de patrulhas onde a democracia diz muito para o desenvolvimento da patrulha. E ainda acho que a escolha do monitor seria um problema.

            Se assim acha a UEB que vai dar certo, continuo lavando minhas mãos. Acredito que ela nem sabe o que acontece em grande parte dos grupos no país. Claro que este não é o Escotismo que BP idealizou e pôs em pratica em Bronsea.

            Vovó entrou na sala, e olhando para o “Velho” lhe deu um copo de água com três comprimidos. Ele balançou a cabeça, bebeu, pensou e deve ter expressado para si – - Droga, cada dia mais remédios. Logo uma mesinha regada a um chocolate quente e excelentes bolinhos de mandioca que a Vovó trouxe, deixava nossa conversa de lado para nos tornar a patrulha dos famintos.
             Havia muito mais para ser comentado, mas o “Velho” levantou, e foi até a vitrola antiga, colocando o velho e gasto disco do Trio Irakitan, com lindas e nunca cantadas como eles, às velhas canções escoteiras. Calei-me, ouvindo e pensando o que ele disse. Acho que concordo. A falta de escotistas está fazendo com que as tropas se unam e antes quando havia uma tropa ou duas com três ou quatro patrulhas, hoje tem uma só com duas ou três patrulhas, claro que sendo mistas não era para ser o dobro?

             E fui para casa, como sempre acontecia nas minhas tardes com o “Velho”, ruminando o que acontece e o porquê não cresce o nosso movimento. E lembrei-me do inicio de um pequeno poema feito por um amigo do “Velho” - Escotismo onde está você? Tão perto que não te sinto, tão longe que não te vejo, de um tempo que não volta mais, tenho saudades agora, daquele chapéu de abas, daquele estilo mateiro, que nunca vou esquecer! É quem te viu e quem te vê.

Não há nada mais perigoso do que acreditar que se detém a fórmula que vai continuar sempre conduzindo ao sucesso
                                                                                         
  O PATA TENRA