HOTEL ESCOTEIRO

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cada foto tem uma história

sábado, 17 de dezembro de 2011

DIRETOR TÉCNICO - UM VISIONÁRIO?

Diretor técnico – Um visionário?
Um dos testes de liderança é a habilidade de reconhecer um problema antes que ele se torne uma emergência.
Arnorld Glasgow

“Para ser um líder, você tem que fazer as pessoas quererem te seguir, e ninguém quer seguir alguém que não sabe onde está indo.”


Joe Namath

     Muito se tem dito muito se tem falado e aqui mesmo neste blog sobre o nosso querido Diretor Técnico. A responsabilidade que pesa nos seus ombros é muito grande. Acredito mesmo que ele seja a peça chave em toda engrenagem que rege nosso rumo para melhor ou pior. Neste artigo, vou comentar o outro lado, sem didatismo. Vou aprofundar mais na minha experiência pessoal. Não gosto do termo de Diretor Técnico. Prefiro Chefe de Grupo. Infelizmente sou um saudosista/tradicionalista. Os tempos são outros e tenho que aceitar as mudanças principalmente essas novas nomenclaturas impostas pelos nossos diretores e presidentes do escotismo nacional. Devem ter seus motivos.

     Nâo falta literatura para o conhecimento de como deve agir o Diretor Técnico. A Direção Nacional tem abundante plêiade de normas técnicas, cursos de formação e diversos outros, tudo o que pode ajudá-los na sua liderança em um Grupo Escoteiro. Aqui mesmo neste blog, vários artigos foram publicados, inclusive excelentes escritos pelo meu amigo chefe Elmer. Meu comentário irá fugir dessa linha. Como disse vou enveredar pela experiência pessoal. Minha vida pregressa me fez estar presente em vários estados, e por isso passei boa parte em mais de cinco Grupos Escoteiros. Aprendi muito.

     Não ia entrar de novo nesse tema. O que tenho discutido e recebido de informações de vários amigos e leitores de norte a sul, levou-me novamente ao assunto. E são situações análogas nem todas seguindo a regra do bom senso.  Podem até dizer que não é consenso geral. Pode ser, mas serve como amostragem e isso é muito importante para uma pesquisa simples. Estou escrevendo conforme vivenciei. Nada de copiar o que existe e escrito por escotistas mais qualificados que eu.  

      Peço desculpas aos grupos bem dirigidos pela qual este artigo não terá validade devido as suas excelentes experiências que estão dando certo. São em números consideráveis. Fazem um escotismo de qualidade e tem uma estrutura bem definida. Existem, no entanto outros que mesmo com toda ajuda de nossos dirigentes nosso crescimento foi pífio. A evasão não acaba. Sempre se mantendo em um patamar elevado. Eu fui e sou testemunha disso. Em épocas remotas participei como diretor em cursos de formação dirigida a Chefes de Grupo, tanto básico como insígnias. Perdi a conta de Indabas, encontros distritais, e até mesmo fóruns especiais dedicados exclusivamente a esses abnegados.

     Aprendi muito nestes anos. Já no final da década de setenta, conheci um Grupo Escoteiro próximo a minha residência. Fui lá fazer uma visita e vi com tristeza somente quatro jovens na idade de 13 a 16 anos. Soube por eles que não havia mais escotistas e outros jovens no grupo. Ninguém mais participava. Só uma senhora que sabia somente ensinar catecismo. Eles estavam presentes porque se acostumaram. Uma rotina de anos e anos.  Nestas horas é que vemos a falta de estrutura regional. Um grupo deixa de fazer seu registro não dá sinal de vida e poucas regiões procuram saber o que houve. Colaboração? Dificilmente oferecem. Os distritos muitas vezes são acéfalos. Não por suas culpas pois também sofrem com a falta de pessoal qualificado.

     Bem voltando ao grupo, achei que precisavam de minha colaboração. Procurei o pároco responsável. Não me recebeu muito bem e manifestou pouco interesse pela minha pessoa. Insisti e até me outorguei como o mais novo dirigente. Um defeito meu. Na época era o responsável pelo adestramento regional (hoje cursos de formação). Intrometo-me sempre onde não sou chamado. Pedi aos jovens para tentarem arregimentar os antigos. Apareceram dois deles. Motivei. Ficaram de ajudar. Agora mãos a obra. Sempre tive em mente que a união faz a força. Não podemos vencer sem estarmos todos unidos em prol de um só ideal. Os pais são partes preponderantes e a lealdade e cortesia a força do sucesso.

        Em dois meses, estávamos com oito jovens. Eram a patrulha de monitores e sendo adestrados para isso. A tropa viria com o tempo. Não tinha pressa. Uma jovem maior de idade em uma reunião me procurou. Convidei-a e aceitou ser a chefe de alcatéia. Dei a ela todo apoio. Ficávamos horas falando sobre a alcatéia. Desde aquela época nenhum jovem interessado fazia a inscrição sem os pais presentes. Ambos a não ser em casos especiais. Não tinha exceção. Mostrava que eles é que precisavam do movimento escoteiro e não o contrário. Ficavam na espera de um curso informativo. Uma vez por mês. Primeiro de duas horas e depois de um dia inteiro. Muito? Pode ser. Se um escotista tem de passar anos e anos em cursos de formação para saber agir com seus filhos porque os pais não podiam fazer o mesmo e entender a força do movimento na colaboração aos seus filhos?

        Após esse estágio dos pais, os filhos eram apresentados ao Grupo Escoteiro. (demorava mais de um ou dois meses) Em cerimônia própria durante o cerimonial de abertura, antes da bandeira, o pai se apresentava ao chefe do Grupo apresentando seu filho. O chefe da sessão especificada era convidado a receber o jovem. Apresentava-se ao pai, e dizia a ele poucas palavras, tais como: Seja bem vindo. Não só você meu jovem como seu pai também. De agora em diante você vai participar da grande fraternidade mundial dos escoteiros. Nunca em numero maior que quatro pais por reunião. Em seguida o apresentava a todo o Grupo Escoteiro.

        O escotista responsável convidava o monitor da patrulha designada ou no caso o primo da matilha, levando o filho a patrulha ou matilha. O grito de patrulha era dado e após todas as patrulhas também. No caso da alcatéia, o Grande Uivo. Claro, ele era só um observador, só depois de sua promessa ai sim, participava diretamente neste cerimonial dos lobinhos. Para encerrar, o grito do grupo, com convite aos pais para participarem. Era uma cerimônia simples, mas marcante para os pais. Nenhum pai deixava de se emocionar. Funcionava tão bem que todas as reuniões um grande numero de pais estavam presentes querendo colaborar.

        Em nenhuma hipótese o jovem era admitido sem passar por essas situações e sem quem seus pais cumprissem o ritual programado. Abrir exceções era perder todo um trabalho que estava dando certo. O uniforme só era colocado quando estava preparado para a promessa. De maneira nenhuma o colocava antes. Só nesses casos, se vestia a camiseta do grupo. Sempre achamos que o jovem tem de dar valor ao seu uniforme, a sua promessa e seu crescimento individual. Conseguimos manter uma evasão baixíssima. Menos de 8%. Sempre me perguntaram e o jovem que gostaria de participar, e os pais não se interessam?

        É um fato singular. É comum abrimos sempre uma exceção. Pagamos muitas vezes as taxas do próprio bolso. Mas onde isso leva? Será que estaríamos agindo certo? Claro que não. Tentar ajudar e resolver o problema é o meio correto. Ir à casa do jovem. Conversar com os pais. Conseguir a confiança deles. Mostrar sem ser um professor falando aos seus alunos, que eles é que precisam do escotismo. Muito. Seus filhos querem participar, mas é necessário que cumpram as normas do grupo. Isso sempre deu resultado. Se os pais não participam, não existe razão para o filho participar. O objetivo a que nos propusemos nunca será alcançado.    

        Voltando a arregimentação de pais, a catequese começava assim. Mais tarde muitos deles vieram a ser os escotistas que tanto precisávamos. Muitos deles se destacaram nos destinos do Grupo. Não conseguimos reunir antigos. Acho que não guardaram boas lembranças. Ou talvez fosse outro motivo. Os pais se saíram muito bem. Chegamos a ter mais de 28 escotistas. Todos oriundos desse meio. Claro, precisavam aprender muito, pois nunca foram escoteiros. A inscrição em cursos de formação (paga pelo grupo Escoteiro), indabas só de chefes do grupo, na sede ou no campo. Fazíamos dois por ano. Um sucesso. Vinte pais colaboravam em três comissões. De especialidades, de finanças e serviços diversos.

      Tenho visto escotistas pagando mensalidades e taxas dos cursos de formação. Em muitos casos tirando do próprio bolso para despesas extras no grupo. Na minha modesta opinião totalmente errado. Isto compete ao Grupo Escoteiro. Uma comparação desigual e que serve como comparativo: - Um professor a pagar mensalidade no colégio onde leciona. Impossível. Se o Grupo não tem ainda condições financeiras, que os pais se responsabilizem. Afinal somos uma organização de ajuda complementar aos pais, portanto cabe a eles essa responsabilidade.

      Duas outras atividades fizeram que o grupo mantivesse uma união sem igual. Convidamos os pais para um “Pit Pat” (nome que inventemos na época) dançante em minha casa, em um sábado à noite. Todos eram bem vindos, mas deviam levar lanche, salgados, e bebidas. Não havia gastos. Era dividido por participantes. No final, reunimos todos vendo quem poderia ser os anfitriões da próxima. Um número considerável se oferecia. Fizemos ali mesmo uma programação quinzenal por seis meses. Chegamos a ter mais de 100 presentes em diversas realizadas. Os filhos se divertiam e se confraternizavam. Ninguém deixava de ajudar no fim da festa. Deixávamos a casa do anfitrião como estava quando chegamos.

        Uma vez por ano fazíamos uma atividade com os pais. Eles tinham livre arbítrio para convidar amigos e parentes. Em uma dessas atividades, mais de 400 participantes. Procurávamos um local condizente e lá formávamos patrulhas que permaneceram por muitos anos juntas. Eles se divertiam muito. Jogos, adestramento técnico, competição, grito de patrulha tudo era motivo de risadas e era diversão garantida. A tarde um imitação do fogo de conselho. Uma participação incrível. Esquetes, palmas escoteiras, canções.

      Conseguimos em cinco anos, duas alcatéias masculinas, uma feminina, uma tropa escoteira completa com quatro patrulhas e outra com monitores sendo formados. Uma tropa escoteira feminina com três patrulhas, uma tropa sênior e uma tropa de guias. Ainda não tínhamos essa liberdade de hoje, de tropas mistas. Sou totalmente contrário, tenho ouvido relatos aqui e ali, de diversos membros do movimento, de diversas idades, fatos nada lisonjeiros e que um dia irão macular muito nosso nome que até agora ficou livre de reportagens sensacionalistas. Mas isto é outra historia.

       Tínhamos anualmente um bom numero de Llz de Ouro e Escoteiro da Pátria. Demoramos sete anos para termos os primeiros insígnias atuantes em sessão. Em Conselhos Regionais e distritais, hoje Congressos (mais uma mudança que não aceito, mas sou voto vencido) nosso numero de participantes era bem considerável. Não importava se com ou sem direito a voto. Fazíamos ali uma presença agradável, nos divertindo aprendendo e confraternizando. Em varias atividades no interior do estado, participamos com mais de 40 adultos.

       Uma de nossas preocupações era manter um bom relacionamento entre todos. Quase não havia divergências. O Conselho de Chefe era realizado mensalmente. Ali a democracia era nossa força. Sem um bom Conselho, fica difícil sanar dúvidas e controvérsia. Posso afirmar que nosso rumo tomado em todas as direções durante os 10 anos que lá permaneci, não houve um caso de deserção, descontentamento ou desentendimento. No Conselho de Chefes aprovávamos os programas mensais, semestrais e anuais para todas as sessões. Não podia haver divergências com o do grupo escoteiro que era feito pela Diretoria do Grupo.

       Nossos diretores eram atuantes. Alguns se manifestaram em usar uniformes. Fizeram alguns cursos, mas sem o caráter de obrigação. Livre escolha, livre arbítrio. Participavam sempre nas indabas, conselhos, e em acampamentos de chefes. Formamos um distrito que na época era acéfalo. Unimos-nos todos, de dois grupos chegamos a cinco. Uma fraternidade sem igual. O distrito tinha uma programação simples. Nada para ocupar a programação dos grupos escoteiros.

      Tudo isso foi formado praticamente com pais. São muito importantes na vida e no crescimento do escotismo. O Chefe do Grupo deve estar sempre voltado para o bom relacionamento com eles. Valorizá-los. Saber de suas necessidades. Não deve pensar que é o único mandatário. Tem de saber trabalhar em grupo. Não precisa ter aquela liderança esperada dos grandes lideres. Mas aglutinar e manter um bom relacionamento são um dos passos importantes na sua labuta em um Grupo Escoteiro.

       Não é fácil a tarefa de um Diretor Técnico. Por isso meu conselho é não dar o “passo maior que a perna”. Essa estrutura organizacional tem de ser feita paulatinamente. Se não acontecer, vai ser difícil tentar consertar. Nenhum escotista nesse cargo pode estar participando diretamente em sessões. Seu trabalho é enorme. Tem de ficar ali, na sua função e se não tem chefes e precisa estar à frente me desculpe, está fazendo tudo errado. Um caminho sem retorno.

       Sempre acreditei que a preocupação dele ((o Diretor Técnico) tem vários caminhos. Manter o Grupo funcionando. Manter um excelente relacionamento com os pais. Arregimentar adultos para o Grupo Escoteiro. Manter as finanças em dia, manter a burocracia, pois ela é a essência de um bom grupo. Manter a fraternidade entre os seus chefes conhecendo suas necessidades. Conseguir para todas as sessões o material que precisam para suas atividades. Manter contato com todos se necessário telefonando ou visitando. Hoje com o advento da internet mandar email para os que possuem. Sempre com assuntos agradáveis, tais como, como vai meu amigo? Apareça, venha tomar um café conosco! Nada de estamos convocando conforme o artigo tal alínea tal. Isso para quem recebe é desagradável e cá entre nós, os pais não entendem nada disso. Uma visita abre um milhão de portas.

       Agora o mais importante, deixe que cada chefe faça seu trabalho. Reconheça nele um auxiliar seu. Importante muito importante. Não fique vigiando. Se não concorda, uma conversa particular, ou o Conselho de Chefes é o caminho. Ajude-o na sua formação escoteira. De a ele todas as condições para o seu desenvolvimento. Veja seus problemas particulares, não que você vá resolver, mas quem sabe pode ajudar. Coloque com lema que você é quem precisa deles e não eles de você.

      Se por acaso chegou ao ponto de desentendimentos sem volta, procure ajuda externa. Talvez sua ação contraponha uma reação. Seria isso benéfico ao grupo? Com os jovens pensam a respeito? Estão aprendendo com seus lideres? Analise, não tome decisões precipitadas. O caminho para o Sucesso é feito de vários desvios. Escolha o certo. O numero de descontentes está se avolumando dia a dia. Quem perde com isso é o movimento. Entretanto cada caso é um caso. Para isso as regiões e distritos possuem seus conselhos de ética.

     Espinhoso não? Mas o Diretor Técnico é o “Cara”. Se você quem me lê é um deles, aceite meu abraço. Voce também é o “Cara”. Como dizem alguns um estrondoso aperto de mão. Orgulho-me de você e de seu trabalho. Não decepcione. Seja mais um no grupo não um só. Todos dependem de você. Faça com que eles confiem. Um abraço, um sorriso, é muito importante, mas olhe, não espere recompensas e nem elogios. Não vais encontrar. Mas sabe qual a melhor paga? Ver os sorrisos dos jovens, a alegria dos chefes, o crescimento paulatino do Grupo Escoteiro e então um dia, vais receber dos que cresceram ali, um abraço e um agradecimento.

        Espero ter atingindo o que me propus desde o inicio. Não sei se os grupos onde participei continuam fortes como antes. Para mim é irrelevante. Se isso aconteceu, deposito a culpa nos dirigentes. Claro sem levar nenhum ao cadafalso. Mas existem formas para que os grupos se sintam fortalecidos e mantenham o crescimento desejado. Mas isso é outra historia. Nela não cabe a arrogância, a altivez e o orgulho e a presunção de soberba. Quando aprendermos que o amor é maior que isso, então nosso movimento será forte e poderá ser aquilo que esperamos.

        E a esperança é a ultima que morre.

Eu também sou vítima de sonhos adiados,
De esperanças dilaceradas, mas, apesar disso,
Eu ainda tenho um sonho, porque a gente não
“Pode desistir da vida.”
(Martin Luther King)